O Preço de Uma Verdade

Por: Priscila Belasco

shattered-glass-poster-sm3Jornalismo nocivo: quando a realidade é ficcional

          “Alguns repórteres acham que a política faz a história memorável. Eu acho que são as pessoas, suas idiossincrasias e defeitos o que as tornam engraçadas e humanas. O jornalismo é a arte de captar comportamentos. Eu registro atos. Descubro o que provoca, o que assusta as pessoas e escrevo isso. Assim, são elas que contam a história”. É assim, com esta fala, um olhar sonhador e um sorriso simpático no rosto, que Stephen Glass (Hayden Christensen) se apresenta no filme O Preço de uma Verdade (Shattered Glass).

          Franzino e docemente infantilizado pela pouca idade e pelos óculos de grau, o jovem repórter de 24 anos parece ser o protótipo daquele estudante recém formado, cheio de gás e ansiedade para alcançar a notoriedade dos grandes jornalistas e sempre em busca daquele acontecimento com A maiúsculo, aquele do friozinho na barriga e tremeliques pelo corpo, aquele que garanta seu “pé de meia” ou um prêmio Pulitzer, o verdadeiro pomo de ouro dos comunicadores. Acontece que Steve possui, além de um severo desvio de caráter, um arsenal poderoso de criatividade e ambição que o levam a destruir sua própria carreira no jornalismo.

          O filme de 2003 é uma produção estadunidense/canadense do gênero dramático com direção e roteiro de Billy Ray, produção de Marc Butan e Gaye Hirsch e baseado em um artigo de Buzz Bissinger. Com aproximadamente 95 minutos de duração, a obra fílmica conta a história real de Stephen Glass, que durante os anos de 1995 a 1998, forjou total ou parcialmente 27 dos 41 artigos que escreveu para a revista política The New Republic, conceituada por ser lida por presidentes, legisladores, pessoas que tinham influência direta sobre o país. O filme foi indicado ao Globo de Ouro na categoria de Melhor ator coadjuvante pela atuação de Peter Sarsgaard que interpreta Charles “Chuck” Lane, o editor que descobre as mentiras de Stephen,  e indicado no Independent Spirit Awards nas categorias de Melhor Filme, Melhor Ator (Peter Sarsgaard), Melhor Roteiro e Melhor Fotografia.

          A ascensão e declínio de Steve – assim chamado pelos colegas da revista, evidenciando uma informalidade no ambiente de trabalho, já que o próprio protagonista aparece muitas vezes caminhando de meias pela redação – é narrada pelo próprio personagem que inicialmente está em sua antiga escola explicando o processo de publicação de um artigo. Essas cenas perpassam todo o filme e se intercalam com as lembranças do jornalista que ora assume uma postura embevecida, em grande parte pela admirada ex-professora, ora assume um tom apreensivo. Ele sabia que sua palestra não passava de mais uma de suas ficções.

o preço

          Stephen era a “menina dos olhos” da The New Republic. Sempre solícito e autodepreciativo, caía nas graças dos colegas por surgir com as mais insólitas histórias nas reuniões de pautas, ficando impossível que alguém ofuscasse seu brilho. Destacava-se pelo riso, pela descontração, pelo humor dos tipos variados que retratava. Sendo o mais jovem da equipe, era também o mais cotado, sendo procurado constantemente por nomes como Harper’s Magazine, George Magazine, Rolling Stone etc. Seu caráter aparentemente dócil, desculpando-se irritantemente por tudo e usando de falsa modéstia era uma artimanha para disfarçar sua ânsia por estrelato? O certo é que seu teto de vidro quebrou (fazendo referência ao título original que em tradução livre significa vidro quebrado) quando um hacker invadiu sua mente e o paraíso.

          “Hack Heaven (O paraíso dos Hackers)” foi o começo do fim. Aclamada pelo próprio Steve como sendo o melhor dos seus artigos, a história era tão extravagante que chamou a atenção do editor da Forbes digital que descobriu fogo onde achou fumaça. Cheia de nomes e telefones e prédios e conferências que não existiam, fantasia foi vendida como realidade e Steve tropeçou na própria criação. De vidro partido passou-se a Stephen partido. Shattered Stephen Glass.

          O protagonista de O Preço de uma Verdade é o estereótipo do jornalista-vilão que não vê barreiras para atingir seus desejos e não crê que suas mentiras serão descobertas um dia. Acredita tanto em sua capacidade de lograr os editores e leitores que mentir se torna uma necessidade; cada história deve, obrigatoriamente, superar a antecessora e ser o destaque da redação. O protagonista é vaidoso, podendo até ser considerado um megalomaníaco por querer desesperadamente ser lembrado por seu sucesso. No filme, a questão da ética jornalística é abandonada totalmente por Stephen que abandona também a função social do jornalismo, que é transmitir com clareza e veracidade os fatos que acontecem no mundo e interessam a população, independentemente se esses fatos são empolgantes ou não.

          Trabalhando durante o dia na revista e frequentando aulas de Direito à noite, o cansaço e a pressão sobre o jovem se multiplicam, fazendo com que ele se torne ainda mais um repórter de cadeira, ou seja, aquele repórter que não vai apurar os fatos fora da redação. Se antes da dupla jornada ele já era um antiprofissional, agora essa característica se intensifica e regras da profissão são grotescamente ignoradas. Assim, o filme retrata uma temática universal sobre a prática jornalística que, no Brasil, está indicada no Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), especialmente no quesito veracidade e interesse público, abordados no item dois do artigo segundo que diz que “a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público”.

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          Steve não mentiu em sua fala de abertura. “Eu registro atos. Descubro o que provoca, o que assusta as pessoas e escrevo isso”. E escrevendo comportamentos, pouco importava se eram autênticos ou não. Essa característica apresentada no filme aborda um aspecto das discussões sobre a teoria do jornalismo no qual os repórteres escrevem para outros repórteres, principalmente para seus editores, buscando primeiramente a aprovação e legitimação de seu trabalho e credibilidade no âmbito profissional. Steve consegue prestígio na redação da The New Republic e nos outros veículos em que colabora conquistando seus colegas com comentários inteligentes e criativos nas reuniões de pauta, textos convincentes e comportamento pessoal que transparecia, ao mesmo tempo, segurança e descontração. Esse conjunto que compunha a personalidade do jovem fez com que seus parceiros e chefes não duvidassem da veracidade do seu trabalho. O cenário começa a mudar quando outro repórter, de um outro meio de comunicação, descobre toda a farsa e desmascara o mentiroso. Stephen, que no início possui todo o apoio dos seus colegas em detrimento de seu editor, Chuck, que começa a desconfiar do impostor, tenta por todos os caminhos se esquivar de uma confissão.

          A cena em que Chuck e Steve vão ao local onde a tal convenção de hackers aconteceu, por exemplo, mostra como o cerco começa a se fechar e as respostas vão se esgotando. Stephen disse que o evento ocorreu em um domingo e que ele, junto com a família do astro hacker, foi jantar no restaurante logo em frente ao edifício. Acontece que o tal prédio, segundo informações de um funcionário do local, fechava aos domingos, sem contar que o salão era pequeno demais para suportar as 200 pessoas citadas no artigo. Curiosamente, o restaurante em que todos foram jantar após a convenção, de acordo com um cartaz colado à porta, ficava aberto até às 15 horas. Talvez um pouco cedo demais para se fazer a última refeição do dia. Por mais que a cabeça de Steve fosse cheia de artimanhas, a fraude havia sido descoberta.

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          No fim do filme, Stephen ainda se encontra na sala de aula, agora vazia, fazendo com que nos questionemos se aquela palestra realmente existiu ou foi mais uma de suas invenções. Seu semblante é de frustração. Sustentou uma mentira corrompendo a ética e o profissionalismo. Outra feição não lhe serviria tão bem.

          Curiosamente o verdadeiro Stephen Glass se formou em Direito e hoje mora em Nova York, defendendo a lei.  Em 2003 escreveu seu primeiro livro intitulado The Fabulist que narra a história de um jornalista que inventava fatos e personagens para ganhar notoriedade. Ficção ou autobiografia, isso soa familiar.

LINKS DE REFERÊNCIA SOBRE O FILME:

JUNIOR, Ricardo S. Jornalismo e Cinema: o jornalismo no cinema dos anos 2000. Disponível em: <http://jornalismoecinema.wordpress.com/o-preco-de-uma-verdade/analise/>.

CARREIRO, Rodrigo. Cine Repórter. 08 mar. 2005. Disponível em: <http://www.cinereporter.com.br/criticas/preco-de-uma-verdade-o/>.

SOUZA, Murilo. ObjETHOS. 06 abr. 2011. Disponível em: <http://objethos.wordpress.com/2011/04/06/resenha-o-preco-de-uma-verdade-2003/>.

FICHA TÉCNICA:

Nome original:  Shattered Glass

Ano de produção: 2003

Duração: 94 minutos

País: EUA e Canadá

Gênero: Drama

Diretor: Billy Ray

Roteiro: Billy Ray e Buzz Bissinger (artigo)

Elenco: Hayden Christensen, Peter Sarsgaard, Chloë Sevigny, Hank Azaria, Steve Zahn

TRAILER:

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