Repórteres de Guerra

Por: Lara Sant’Anna

       The-Bang-Bang-Club-2010-posterRepórteres de Guerra é um filme canadense de 2010, baseado no livro The Bang Bang Club, lançado em 2000, por João Silva e Greg Marinovich, dois membros do que ficou conhecido como um clube de fotojornalistas, o clube do Bang Bang, A história se passa na África do Sul, no período entre 1990 e 1994, marcado pela guerra entre dois grupos políticos, o partido da liberdade Inkatha e a ANC (congresso nacional africano, em inglês), partido de Nelson Mandela.

          O filme foca no cotidiano de quatro fotojornalistas, (Greg Marinovich, Kevin Carter, João Silva, Ken Oosterbroeck) que cobriram os conflitos entre os militantes da ANC e dos Inkatha. Nos últimos anos do apartheid o governo tentou ferir a imagem e diminuir a influência de Nelson Mandela, que havia saído da prisão perpétua, devido a pressões internas e internacionais, em 1990. Para isso, o governo se aliou ao partido Inkatha, formado pela etnia Zulu que era contra as ações anti-estado promovida pela a ANC, como greves e boicotes. Os Inkatha, com ajuda do governo, usando da força policial, e do acesso a armas de fogo, passaram a organizar diversos ataques a redutos dos apoiadores da ANC, na expectativa de acusá-los pela violência.

          O longa é apresentado como um flashback de Kevin Carter, que está dando uma entrevista para uma rádio, em 18 de abril de 1994. Ao ser questionado sobre o que faz uma boa fotografia, ele nos leva para o ano de 1990 no momento em que conhece Greg Marinovich, um fotógrafo freelancer que se depara com um linchamento promovido pelos Inkatha. Para registrar a violência, além de Kevin e Greg, temos os outros dois fotógrafos, João Silva e Ken Oosterbroeck, todos, com exceção de Greg, contratados do jornal sul-africano The Star.

          Após o fim da execução, Greg decide seguir os representantes Inkatha para seu acampamento e obter fotos inéditas. A iniciativa era perigosa e ele é advertido por um menino local. Ignorando o aviso, o fotógrafo revela o perigo e a adrenalina que acompanhavam os profissionais naqueles conflitos, enfrentando situações com riscos de morte.

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          Greg é aceito no acampamento quando explica seu objetivo: tirar fotos do grupo e contar o lado deles da história. A motivação do fotógrafo impressiona positivamente o líder, que não está acostumado com esse tipo de atitude, já que, como ele mesmo explica, os jornalistas vão “atrás dos sabidos e dos camaradas da ANC”. Nesse momento temos uma das mais importantes ações que os jornalistas devem tomar, entender todos os lados de uma história, questionando as informações recebidas, entrando em contato direto com as diversas fontes, para no fim dar a informação e mostrar o fato da forma mais completa possível, apesar dos riscos.

          Greg Marinovich consegue vender, para jornal The Star, algumas das fotos que tirou no acampamento, passa a ter um vínculo com o veículo e a integrar o grupo de fotojornalistas do diário.

          Além de mostrar a adrenalina e perigo que esses profissionais enfrentam o filme também aborda a questão da censura praticada pelos meios de comunicação. Uma das fotos mais famosas do período foi o homem pegando fogo, tirada por Greg Marinovich, que não foi publicada pelo jornal The Star por ser “realista demais”, o que dificultaria a venda dos jornais. O periódico se arrependeu porque a foto foi vendida para uma agência de notícias e virou capa de vários jornais do mundo, o que permitiu a Greg vencer o prêmio Pulitzer de 1991.

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          Após a premiação, é celebrada uma festa para Greg na África do Sul; nessa sequência é apresentada uma visão menos heroica da fotografia de Greg e a consequência para aqueles que são diretamente afetados pelos conflitos; Sonny um jornalista negro diz a Greg: “Até a ANC diz que sua foto só serve aos propósitos dos brancos… ela mostra que não sabemos nos governar”. De acordo com Sonny, a foto de Greg corrobora a ideia que o governo quer passar, a de enfraquecer o movimento para o fim do regime segregacionista.

          Outro aspecto mostrado é que os fotógrafos devem estra de prontidão 24 horas por dia, ainda mais quando a tensão é grande e podem ocorrer conflitos a qualquer momento. Um exemplo é quando em determinado momento da noite Greg é chamado para cobrir um ataque dos Inkatha num bairro periférico de Cape Town. Ele leva junto sua namorada. Depois de ouvir o dramático depoimento de um homem que perdera a mulher e o filho no incidente, Greg fotografa a criança morta e sua namorada o auxilia, ela porém, muito perturbada com a cena, sai chorando e diz para ele: “talvez você tenha que ser assim para fazer o que faz…acho que você tem que esquecer que essas são pessoas reais.”

          Essa reflexão de o fotógrafo ser sem coração, um abutre da situação humana é muito discutida no longa-metragem, principalmente quando a personagem a ser explorada é Kevin Carter. Desde o começo do filme ele é o que mostra maior conflito emocional, é dependente do álcool e das drogas, vive sem dinheiro, foi preso após bater o carro por estar dirigindo sob efeito das drogas. Em um pequeno diálogo entre ele e Greg na festa pós- premiação Kevin diz: “Eu continuo tendo esse sonho, e nele eu estou morrendo… Estou sendo crucificado, e há essa lente grande que mantém o zoom em mim”. Kevin é demitido do Star devido às drogas e por isso parte com João Silva para o Sudão. Lá ele tira a sua foto mais emblemática, a de uma menina desnutrida agachada tentando chegar a um centro da ONU enquanto um urubu está no chão à espreita e próxima a dela. A foto foi premiada com o Pulitzer de 1993, e muda a vida de Kevin para sempre. Depois de vencer o prêmio as pessoas o questionavam sobre o destino da criança e se ele fez alguma coisa para ajudá-la ou se apenas preocupou-se com o registro da cena. A defesa para a falta de ação é colocada da seguinte maneira: “Esse não é o trabalho dele, ele fotografa o que vê” E é exatamente nesse momento que a questão os conflitos da reportagem fotográfica adquirem maior tensão e ambiguidade.

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          Os fotógrafos devem simplesmente trabalhar e tirar as fotografias ou devem intervir, de alguma forma, na realidade que presenciam ajudando as pessoas ameaçadas? A obtenção e divulgação das imagens já é uma ação social? Momentos antes de Greg Marinovich tirar sua premiada foto do homem sendo queimado, ele tenta impedir os agressores de continuar com as ações e quase é esfaqueado. Depois que a namorada diz que ele deve esquecer que as pessoas são reais ele responde: “não há nada que eu possa fazer por eles, nenhum deles, exceto tirar fotos.”

          O filme, por ser baseado em um livro escrito por fotógrafos, tende a abordar o lado mais desafiador, aventureiro e conflituoso da profissão, por mostrar muitas vezes a impossibilidade de interferência do fotojornalista e as dificuldades e perigos que esses profissionais estão sujeitos.

          No fim do filme, voltamos para o ano de 1994, e finalmente escutamos a resposta de Kevin sobre o que seria uma boa fotografia: “talvez o que faz uma grande fotografia, é aquela que te faz uma pergunta, sabe? Não apenas espetacular, é mais do que isso… Você sai e vê coisas ruins, coisas más, e você quer fazer algo, então o que você faz é tirar uma foto que mostre isso.”

LINKS DE REFERÊNCIA SOBRE O FILME:

ARIOCH, David. The Bang Bang Club, barbárie na África do Sul pós-Apartheid. David Arioch – Jornalismo Cultural. 14 de novembro de 2012. Disponível em< http://davidarioch.wordpress.com/2012/11/14/the-bang-bang-club-barbarie-na-africa-do-sul-pos-apartheid/ >

MARINOVICH, Greg; SILVA, João. O clube do bang bang: instantâneos de uma guerra oculta. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. 344p.< http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=11402 >

MARINOVICH, Greg; SILVA, João. The bang bang club. Google Books.< http://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=_6cyzX7DzYkC&oi=fnd&pg=PR9&dq=the+bang+bang+club&ots=uVyIwiVa7c&sig=PanZlaAqPP_3clGbVWSr-9Dwjz0#v=onepage&q=the%20bang%20bang%20club&f=false >

FICHA TÉCNICA:

Nome Original: The Bang Bang Club

Ano de Produção: 2010

País de Produção: Canadá/ África do Sul

Direção: Steven  Silver

Duração: 106 minutos

Elenco: Malin Akerman, Neels Van Jaarsveld, Ryan Phillippe, Taylor Kitsch

TRAILER:

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