Intrigas de Estado

Por: Célio Losnak

         DVD-Intrigas-De-Estado Intrigas de Estado é um thriller, lançado em 2009, produzido para prender o publico do início ao fim, misturando ação e suspense, acrescentando a cada momento novas informações que ampliam a compreensão da trama e ao mesmo tempo atraem a atenção para perspectivas enganosas que ficarão claras apenas no final. Ele nos mantém vidrados a cada cena. Não é um filme sofisticado, mas se apresenta como um bom divertimento por ser eficaz ao cativar o nosso olhar.

          A obra tem um viés noir, há inúmeras situações noturnas, em interiores escuros e em muitas cenas internas a luz é trabalhada para focar os atores, criar penumbras e acentuados contrastes entre claro e escuro. Um recurso que se associa a incerteza que temos sobre o que efetivamente está acontecendo e ainda falta ser desvendado. A trilha sonora é usada sem alarde e contribui para criar a sensação de movimento, de que algo importante está em jogo ou irá acontecer.

          O roteiro partiu de uma minisérie britânica de sucesso, State of Play, de 2003, produzida pela BBC, criada por Paul Abbott, e está à venda no mercado brasileiro numa caixa com três dvds. Um ponto importante da versão cinematográfica é a adaptação da trama ao contexto da sociedade estadunidense, incorporando um tema do momento, a participação de empresas privadas em guerras e na segurança interna por meio de contratos milionários com o Estado e com riscos de manipulação por interesses escusos. O conflito entre objetivos públicos e privados permeia a história, somado ao confronto tradicional de políticos honestos versus corruptos imersos numa conspiração corporativa.

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          O centro da narrativa é o jornalismo, representado pelo repórter experiente, competente e verdadeiro Cal McCaffrey (ator Russell Crowe), pela profissional novata, ambiciosa e dedicada Della Frye (atriz Rachel McAdams), a editora interessada na notícia e na mercadoria Cameron Lynne (atriz Helen Mirren) e o grande diário Washington Globe.  A ampla redação, apresentada em detalhes, e várias instalações do Globe são cenários onde se desenrolam parte do cotidiano da produção impressa. A trama se completa com o parlamentar Stephen Collins (ator Ben Affleck), amigo de graduação de Cal, casado com Anne Collins (atriz Robin Wright), que também fora colega de Cal e Stephen na universidade. O trio vinha de uma amizade abalada e ressentida por ocasional triangulação amorosa no passado.

          O filme começa com um jovem negro sendo perseguido na rua à noite, encurralado em área deserta e morto por um homem que também atira num ciclista branco entregador de pizza que passava. Na manha seguinte, Cal é o encarregado para investigar o ataque, vai à cena do crime e começa a levantar pistas. Nessa mesma manhã, Sonia Baker (atriz Maria Thayer), secretária de Stephen, sofre um acidente na estação do metrô e morre. Com a tragédia, o vínculo amoroso do congressista com ela é tornado público, afeta sua credibilidade, abala o casamento e desencadeia especulações pela mídia. Della Frye é responsável por um blog do Globe e se aproxima de Cal para obter informações sobre o possível relacionamento do parlamentar Stephen com Sonia. Nessa primeira aproximação, eles estão em campos opostos, o jornalista despreza o blog fofoqueiro, mas o vínculo de Cal com o velho amigo Stephen leva-o a indicar pistas para a blogueira descobrir se ocorrera algum tipo de acidente e assim descartar a tese de suicídio de Sonia Baker, livrando o deputado da responsabilidade.

          A trama se torna mais complexa a partir de dois pontos. Um é quando Cal descobre um vínculo entre o rapaz viciado assassinado e a secretária Baker. A busca passa a ser sobre as possíveis relações existentes entre as duas pessoas mortas. Outro ponto é de que o congressista investigava problemas na atuação da polêmica empresa Pointcorp, especializada em fornecer ao governo dos EUA soldados para lutarem nas guerras do Iraque e Afeganistão. E a jovem Sonia Baker era principal colaboradora nesse trabalho parlamentar. A partir daí, a narrativa tece a investigação jornalística, realizada por Cal e Della Frye, buscando desvendar os bastidores da PointCorp, possíveis conspirações da empresa para vencer uma concorrência milionária, os pretensos motivos e os autores das mortes.

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         O ritmo do filme é dado pela atuação do velho e da nova repórter na busca pela verdade. Inicialmente há duas imagens do jornalismo em confronto e uma delas se torna vitoriosa. Della Frye é representada pela nova geração voltada para o trabalho online simbolizando o imediatismo, a superficialidade, o entretenimento, a ausência de seriedade e a submissão ao mercadológico. Por outro lado, a jovem é ousada, competente e compromissada com aquilo que ela acredita ser jornalismo. A passagem de um trabalho pueril para o sério é uma questão de oportunidade. E Cal lhe oferece a chance de atuar como verdadeira jornalista. Gradativamente, os dois se entrosam e ela passa a rever o posicionamento em relação à profissão.

          Cal representa a imagem secular do repórter. O investigador detetive, curioso, destemido, incansável na busca pela verdade, destrinchando tramas, desvendando as aparências ilusórias, apurando responsabilidades, descobrindo, checando e confrontando fontes.  Cal é o jornalista que deixa a vida privada de lado e trabalha continuamente, inclusive à noite. Não tem família, seu carro é velho e sujo, com muita coisa acumulada, o apartamento é simples e caótico. Ele se alimenta desregradamente com junkfood, o figurino é de desleixo, levemente obeso, tem cabelos longos e desgrenhados, barba por fazer, a roupa expressa despreocupação. O seu espaço na redação revela desordem, acúmulo excessivo de objetos e papéis, a parede ao fundo estampa inúmeros lembretes e recortes, informações registradas em suporte analógico.

          Com ajuda de Della e de dois assistentes, Cal é tão competente na investigação que está sempre à frente da polícia, as autoridades aparecem em segundo plano. É ele quem informa os policiais sobre a descoberta de pista e fontes em torno das conexões entre assassinatos e conspirações. A motivação do jornalista é o desvendamento da verdade e a publicização dela. Ele é um herói da imprensa e da sociedade, representando o quarto poder que luta contra as grandes corporações, os abusos do Estado e a corrupção da política. Entretanto há uma contradição, pois inicialmente ele instrumentaliza o trabalho para ajudar o amigo, inocentando-o da responsabilidade da morte da amante. E em diversos momentos ele é questionado sobre a motivação de apurar informações que inocentariam seu amigo parlamentar.

          O método investigativo do repórter é afirmado pela editora Cameron Lynne quando diz que eles deveriam fazer um trabalho mais rápido do que a polícia. Por outro lado esse método assusta Della Frye no momento em que a própria editora concordara em ocultar da polícia indícios do assassinato de Sonia Baker. E outro momento, Frye já desenvolta e entrosada com Cal, depois dela mentir para possíveis fontes, de invadir privacidades, de sair com homens objetivando informações, de descobrirem um número de telefone por vias escusas, a jovem indaga a Cal: “Nós não infringirmos a lei?” E ele responde: “Não, isso que é o bom jornalismo”. A busca da verdade por qualquer meio, o desrespeito à lei em nome da justiça. Para completar, eles ameaçam uma fonte, chantageiam-na, colocam-na em cárcere privado e a interrogam filmando clandestinamente. Essas cenas nos remetem a filmes conhecidos em que os personagens policiais usam estratégias violentas e ilegais para fazerem justiça. A atuação do jornalista se aproxima da representação cinematográfica tradicional do policial correto, dedicado ao extremo e que atua motivado pelo cumprimento do dever.

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          A resistência e empenho de Cal vencem as cobranças e exigências mercadológicas da empresa jornalística. E aqui está outro contraponto. O profissional à moda antiga resiste à voracidade do sensacionalismo, à disputa por fofocas novas, nem sempre checadas adequadamente, às cobranças da editora de que algumas informações da vida privada de envolvidos poderiam estar na primeira página do Globe e alavancar as vendas. Segundo ele, a verdadeira notícia ainda estava em apuração, eram os meandros da atuação da PointCorp. Por isso a espera. Segundo esse pensamento, as altas vendas do diário somente seriam legítimas com a notícia sobre a verdade e para esclarecimento de uma causa pública. A ironia é que o trabalho de Cal e seu faro jornalístico são prisioneiros da amizade com o parlamentar Stephen.

          Impaciente com a demora da investigação, a editora dá oito horas de prazo para o deadline. Cal e Della entram num vórtice de descobertas, checagens de versões e fontes, e se deparam com algumas surpresas.  Com o prazo esgotado, a impressão é suspensa e ocorrem reviravoltas na trama que exigem alterações no texto. Pura adrenalina.

       Com final feliz, toda a conspiração é descoberta, o responsável pelas mortes identificado e preso, a editora está satisfeita com uma matéria surpreendente e há uma comemoração geral da redação pelo sucesso do grupo. Todos os olhares convergem para a dupla bem sucedida.

       Quando o texto será finalizado há o coroamento do tradicional jornalismo impresso voltado para notícia. Cal se surpreende que Della Frye não esteja escrevendo para a versão online e ela responde: “Uma matéria desse tamanho deveria estar impressa nas mãos das pessoas quando for lida, não acha?”

        Não percam a parte dos créditos finais. A câmara acompanha todo o processo de impressão de um grande jornal, tendo ao fundo a música “Long as I can see the light” de Creedence Clearwater Revival.

LINKS E REFERÊNCIAS SOBRE O FILME

CORREIA, William. Jornalista como personagem no cinema: a representação dos jornalistas nos filmes Uma Manhã Gloriosa e Intrigas de Estado. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Jornalismo). Santa Maria: Centro Universitário Franciscano, 2012.  Disponível em:http://lapecjor.files.wordpress.com/2011/04/o-jornalista-como-personagem-no-cinema-a-representac3a7c3a3o-dos-jornalistas-nos-filmes-uma-manhc3a3-gloriosa-e-intrigas-de-estado.pdf

ROSSETTI, Regina; PETTINATTI, Aguinaldo Ricciotti. O Jornalista no Cinema. Tensão e encontros entre mídia e política. Leituras de Jornalismo. n.01, Jan-Jun, 2014. Disponível em:http://www2.faac.unesp.br/ojs/index.php/leiturasdojornalismo/article/view/20/21

FRENCH, Philip. State of Play. The Observer. London, 26 Abr. 2009. Disponível em: http://www.theguardian.com/film/2009/apr/26/state-of-play-review

State of Play. BBC. Disponível em: http://www.bbcamerica.com/state-of-play/

FICHA TÉCNICA:

Título Original: State of Play

Diretor: Kevin Macdonald

Produção: Andrew Hauptman, Tim Bevan, Eric Fellner

Produtores Executivos: Paul Abbott, Lisa Chasin, Debra Hayward, E. Bennett Walsh

Roteiro: Matthew Michael Carnahan, Tony Gilroy, Billy Ray

Diretor de Fotografia: Rodrigo Prieto

Editor: Justine Wright

Trilha Sonora: Alex Heffes

Duração: 127 min.

Ano: 2009

País: EUA/ Reino Unido

Elenco: Russell Crowe: Cal McCaffrey, Rachel McAdams: Della Frye, Ben Affleck: Stephen Collins, Jason Bateman: Dominic Foy, Maria Thayer: Sonia Baker, Helen Mirren: Cameron Lynne, Robin Wright: Anne Collins, Viola Davis: Dr. Joy Jackson, Jeff Daniels: George Fergus, Harry J. Lennix: Donald Bell

TRAILER:

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