Diário de Um Jornalista Bêbado

Por: Lara Sant’Anna

Não existe sonho, só uma poça de ganancia se espalhando pelo mundo

rum_diary_ver2_xlg          Diário de um jornalista bêbado é um filme Norte-Americano de 2011 estrelado por Jhonny Depp e dirigido por Bruce Robinson. O longa é uma adaptação do The Rum Diary, de Hunter S. Thompson, e conta a história de um jornalista americano, Paul Kemp (Jhonny Depp),  que  consegue um emprego na redação de um pequeno jornal em Porto Rico, onde vive diversas confusões e descobertas. Logo em seus primeiros dias no país ele conhece duas pessoas que interferem em sua vida e convicções profissionais.  A primeira é Hal Sanderson, um relações públicas muito influente na ilha, que ganha dinheiro com a especulação imobiliária e convida Paul a participar de um grande e desonesto projeto no país. A segunda é Chaneault, namorada de Sanderson e a grande paixão de Paul no filme.

          Para entendermos o longa, porém, é necessário conhecer o autor Hunter S. Thompson e seu estilo. Ele foi um jornalista e escritor norte-americano conhecido por criar uma nova forma de se fazer jornalismo, o Gonzo, que era literário ao extremo, irreverente, rebelde, e que se diferenciava do estilo moderno, não apresentando lead, objetividade ou imparcialidade. No Gonzo, jornalista e história se misturam, bem como realidade e ficção, uma vez que os fatos são narrados a partir da experiência do jornalista, com suas impressões e posicionamentos. Um bom representante do Gonzo é o livro Medo e Delírio em Las Vegas, que também foi adaptado ao cinema, em 1988, com Johnny Depp no papel principal.

          Na década de 1960, no entanto, quando escreveu o livro The Rum Diary,  o Gonzo ainda não estava formado e a obra seria o embrião do estilo que o consagrou, uma vez que a narrativa combina em muitos aspectos com a sua trajetória de vida, porém num todo é uma obra de ficção. Quando o projeto do filme finalmente saiu do papel, Hunter já havia morrido, mas Depp, um dos produtores e seu amigo, decidiu encarna-lo no cinema, representando o personagem Paul Kemp que tinha características semelhantes à Hunter, incluindo intenso consumo de drogas e álcool, e a visão idealista de um jornalismo voltado para a crítica ao sonho americano.

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          Em seus primeiros minutos o filme já nos mostra um bêbado e descompromissado jornalista que esta em Porto Rico em busca de uma nova oportunidade e trabalhar no The San Juan Star, um pequeno e quase falido jornal ianque, escrito em inglês, e especializado em vender o país aos turistas. Ao chegar ao jornal, Paul se depara com um protesto na rua de moradores da ilha, que de acordo com o fotógrafo do jornal, Sala, queriam melhores condições de trabalho. A redação é apresentada cinza de fumaça e barulhenta, o chefe Lotterman como um típico editor irritado, autoritário e lutando pela sobrevivência do periódico, alguns jornalistas, descompromissados e que bebem muito nas horas vagas. Com esse panorama temos uma ideia da decadência do jornal, que tem em sua redação pequena, uma equipe desmotivada, pobre, e submetida aos grandes interesses corporativos.

          Kemp é direcionado para fazer o horóscopo e cobrir o cotidiano dos turistas norte-americanos que vão a Porto Rico passar as férias. O contato de Paul com os entrevistados nos mostra a ignorância e mediocridade dos turistas, a futilidade do jornal – que cobre o entretenimento para vender- e a crítica, que guiará a escrita de Paul durante o longa metragem.

          Ao ir a uma briga de galos com Sala, Paul passa a conhecer a sociedade local e sua realidade, descobre os bairros pobres e a exploração ao meio ambiente e às pessoas. Como jornalista, escreve para denunciar o que viu, porém, é censurado pelo editor, por escancarar o que todos, ou os anunciantes, queriam esconder. Lotterman recusa publicar a matéria de Paul como argumento de que o cidadão médio americano que economizou a vida inteira para fazer uma viagem de férias não estava interessado em saber o que havia de errado com o lugar e sim de saber o que estava dando certo. Ele queria ver a materialização do sonho americano com a sua ideia de prosperidade através do capital e a consequente felicidade e realização do indivíduo.

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          Essa era a ideia que Hunter Thompson mais criticava. Ele pretendia provar o fracasso e a morte do modo de vida americano. O personagem Paul Kemp passa a refletir sobre o assunto quando se envolve com Hal Sanderson que coordena o lançamento de um gigantesco complexo hoteleiro em uma parte intocada de Porto Rico, o que resultaria em sérios danos ambientais e sociais. O trabalho de Paul seria produzir textos publicitários sedutores objetivando manipular a opinião pública para evitar grandes resistências ao projeto.

         Depois de conhecer o projeto e o local paradisíaco, Paul vai curtir o carnaval porto-riquenho, com muito rum, música, dança e claro, confusão. À noite ocorre um incidente com a mulher de Sanderson, Chaneoult. Ela  fica sozinha em um clube  e não volta no dia seguinte. Paul é responsabilizado pelo acontecido e Sanderson o demite. A situação, no entanto, acaba sendo oportuna para Kemp, pois sente-se livre por não precisar mais participar dos negócios desonestos de Hal.

         Depois que ele e Sala usam uma potente droga desconhecida, Kemp conversa com uma lagosta e tem uma epifania. O animal explica a ele a relação entre “crianças revirando o lixo por comida e placas brilhantes de metal nas portas da frente dos bancos”. Ele compreende a relação entre explorador e explorado e a atuação de Sanderson no país. Buscando se redimir, Kemp entrega ao editor uma reportagem denunciando o empreendimento que Hal pretendia construir, mas é prontamente recusada porque Lotterman estava em fuga diante da inevitabilidade de fechamento do jornal, embora nenhum deles ainda soubesse.

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          O filme apresenta várias faces do jornalismo: o que existe para vender jornal, sem se preocupar, necessariamente, com a verdade, como é apresentado por Lotterman, e o The Star; o jornalismo inescrupuloso, que abusa de seu poder para ganhar dinheiro e apoiar interesses do capital; o jornalismo idealizado, que busca expor e criticar as mazelas do mundo e, que no fim, é a escolha feita por Kemp, ao dizer que não mais estaria ao lado dos ‘canalhas’ do mundo e que defenderia o interesse dos leitores.

Links e referências interessantes:

HESSEL, Marcelo. Diário de um jornalista bêbado/ crítica. Omelete. Disponível em: <http://omelete.uol.com.br/rum-diary-diario-de-um-jornalista-bebado/cinema/diario-de-um-jornalista-bebado-critica/#.VClYo_ldW_Q>

RITTER, Eduardo; ROCHA, Vinícius Waltzer. Jornalismo Gonzo: medo e delírio no New Journalism1. Disponível em: <http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2012/resumos/R7-0362-1.pdf>

RITTER, Eduardo. Jornalismo gonzo: a quebra da normatividade jornalística.<http://www.intercom.org.br/papers/regionais/sul2012/resumos/R30-0094-1.pdf>

HUNTER, Thompson. Rum: Diário de um Jornalista Bêbado. P&PM Pocket,  2011. 256p. http://www.lpm.com.br/site/default.asp?Template=../livros/layout_produto.asp&CategoriaID=725462&ID=616292

FICHA TÉCNICA:

Título Original:  The Rum Diary

Diretor: Bruce Robinson

Ano: 2011

País: EUA

Duração: 120 minutos

Gênero: Aventura, Drama

Elenco: Jhonny Depp, Eron Eckhart, Amber Head, Amaury Nolasco, Richard Jenkins

Trailer:

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