O Âncora

Por: Claudio Bertolli Filho

          Anchorman-The-Legend-of-Ron-Burgundy-DVD-L678149302523Para além das análises acadêmicas, de tempos em tempos os comunicadores predispõem-se a voltar os olhos críticos para suas próprias atividades, encontrando nos enredos fílmicos um canal consagrado para reiterar ou rejeitar as imagens historicamente arquitetadas sobre suas atividades.

          No caso do jornalismo, a regra tem sido a produção de filmes que adotam posturas consagradas do profissional. De Correspondente estrangeiro (Foreign correspondente, 1940) a A luz é para todos (Gentlemen’s agreement, 1947) e de Todos os homens do presidente (All the president’s men, 1976) às sucessivas versões fílmicas de Superhomem, a imagem reiterada nas telas corresponde ao do jornalista como personagem dotado de uma visão superior aos demais mortais, capacitado para perceber ou descobrir os segredos e os problemas individuais e coletivos, além de sempre estar comprometido com a justiça e com o bem estar da sociedade.

          No entanto, paralelamente a este posicionamento abrangente, alguns raros filmes tem ousado vasculhar os bastidores da vida profissional dos jornalistas, denunciando as falácias do superhomem das notícias. O clássico Cidadão Kane (Citzen Kane, 1941) certamente incentivou outras produções na mesma linha, tais como A montanha dos sete abutres (Ace in the hole, 1951), Rede de intrigas (Network, 1976), O âncora: a lenda de Ron burgundy (Anchorman – the legend of Ron Burgundy, 2004) e ainda a sequência deste, Tudo por um furo (Anchorman 2: the legend continues, 2013).

          O âncora é uma comédia que, ao acompanhar a vida profissional e a trama privada de Ron Burgundy, um apresentador de telejornal de uma rede local sediada na californiana San Diego, disseca de forma tão bem humorada quanto realista a existência de um personagem que seria o protótipo do locutor de um telejornal, descontruindo uma série de mitos que insistem em classificar tais programas como comprometidos com a verdade e com os valores democráticos e, assim, cumprirem um papel fundamental na informação e orientação da sociedade contemporânea.

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          Apesar de, nos créditos finais, saber-se que a montagem da trama cinematográfica contar com a colaboração de cinco renomados telejornalistas norte-americanos, um alerta inicial informa que o filme “é baseado em fatos reais; apenas os nomes, os locais e os acontecimentos foram alterados”, conferindo um tom duplo de farsa ao personagem paradigmático de Burgundy e a profissão de teleapresentador de notícias. Reitera-se assim a lógica de uma peça cinematográfica que se confunde com a própria metalinguagem do fazer jornalístico.

          Situado no correr da década de 1960, Burgundy e os jornalistas a ele associado são apresentados como tomados pelo narcisismo resultante da exposição diária na mídia, apesar de serem pessoas medíocres, já que dispõem de escasso cabedal cultural e mesmo de inteligência, sendo que um deles é classificado como “retardado mental”. De qualquer forma, pelo menos nos bastidores da produção do telejornal, os tempos estavam mudando. Enquanto território clássico da dominação masculina, este ambiente se vê conturbado devido à contratação de uma mulher para co-apresentar o programa noticioso, o que fere o estigma machista da profissão, levando os jornalistas a tentarem conquistar e, ao mesmo tempo, desacreditar a nova contratada. Na década em que aflorou de vez o movimento feminista, as artimanhas dos homens não foram suficientes para bloquear a atuação da jornalista que, em certo momento, sobrepõe-se aos seus colegas e passa a apresentar sozinha o programa alimentado pelas notícias cotidianas.

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          O olhar crítico que instrui O âncora não se limita apenas nisto; o filme destaca também a rivalidade entre as equipes de jornalistas dos diferentes canais de televisão, cada uma delas constituindo-se em uma espécie de tribos que lutam entre si, em verdadeiros duelos de rua, para galgar a preferência do público e galgar o primeiro lugar nos índices de audiência. No entanto, quando alguma das tribos vê-se ameaçada por um fator externo, elas unem-se para enfrentar qualquer desafio. Concorrência e solidariedade constituem-se nas regras de sociabilidade dos jornalistas.

          Um outro setor que é destacado na trama constitui-se na qualidade das notícias apresentadas pelos noticiários televisivos. Um esquilo que esquia, desfile de gatos e o parto de uma panda são qualificados cada um a seu tempo como “maior matéria”, isto é, aquela que atrai a audiência, incorporando a perspectiva que os telejornais veiculam notícias fúteis, hoje rotuladas de “boa noite Cinderela” somada, como reitera Burgundy, a um regionalismo e a um nacionalismo tacanho. Em continuidade, o filme incorpora implicitamente a mediocridade – ou talvez, alienação – do público, que vibra com as notícias pífias e os truques discursivos dos jornalistas. A espetacularização do cotidiano na composição e apresentação da notícia é a regra de ouro das produções telejornalísticas.

          Apesar destes pontos críticos, O âncora mostra-se condescendente com os personagens retratados. O afã pelo final feliz que instrui a maior parte dos filmes hollywoodianos determina que, no final, Burgundy e sua equipe, depois de lançados no limbo midiático – pois foram demitidos do canal de televisão em que trabalhavam – sejam reintegrados pela emissora. A jornalista, que primeiramente era contra as notícias centradas em faits divers, acaba se acomodando à situação e retoma o namoro como o apresentador, o qual retoma as atividades no canal de televisão no momento em que ambos acabam apresentando conjuntamente o parto da panda, disputando espaço com outras equipes de telejornal.

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          A qualidade das notícias mostra-se questão intocável neste filme e somente na sua sequência, situada já na década de 1970, é que coube não ao telespectador, mas sim ao próprio Burgundy denunciar, mesmo que rapidamente, a manipulação das notícias pelas empresas da mídia e a importância dos telejornais em focar assuntos mais vitais do que curiosidades do mundo animal. Se a imagem do jornalista é reformada na trama, a representação do público continua a mesma, fazendo lembrar a perpetuidade televisiva do público como pouco mais que um agrupamento imbecilizado. Certamente com isso concorda até os dias atuais William Bonner, jornalista que pontificou que assiste o global Jornal Nacional tem um perfil aproximado ao de Homer Simpson.

          Em suma, a produção cinematográfica aqui discutida conta com uma perspectiva crítica e importante de ser pensada pelo profissional do jornalismo. Mas também a mesma ótica crítica se apresenta limitada, refletindo as possibilidades e os limites do telejornalismo e da prática jornalística nos dias de hoje.

Links e referências interessantes:

LEAL FILHO, L. De Bonner para Homer. Carta Capital, 07/12/2005.

CORAL, G. O âncora: a lenda de Ron Burgundy. Plano crítico. Disponível em

< http://www.planocritico.com/critica-o-ancora-a-lenda-de-ron-burgundy/>. Acesso em 12 nov. 2014.

The image of the journalist in popular culture. Disponível em: <<www.ijpc.org/uploads/files/journalism%20375%202000%20syllabus%20revised%202003.pdf >. Acesso em 12 nov. 2014.

WEINER, J. Levantando O âncora. RollingStone, no. 89, fev. 2014. Disponível em: <http://rollingstone.uol.com.br/edicao/edicao-89/levantando-o-ancora#imagem0>. Acesso em: 12 nov. 2014.

FICHA TÉCNICA:

Nome: The Anchorman: The Legend of Ron Burgundy

Direção: Adam McKay

Ano: 2004:

País: EUA

Duração: 94 minutos

Gênero: Comédia

Elenco: Will Ferrel, Steve Carell, Paul Rudd,Ben Stller, Danny Trejo, Christina Applegate.

TRAILER:

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