Vlado – 30 anos depois

Por: Luiz Fernando da Silva

          vladoVlado – 30 anos depois, documentário lançado em 2005 pelo cineasta João Baptista de Andrade, narra aspectos da vida do jornalista Vladimir Herzog (1937-1975), assassinado nas dependências do Doi-Codi, órgão da repressão política ditatorial. Os depoimentos de amigos, familiares e colegas de profissão procuram reconstituir as circunstâncias políticas envolvidas na morte como também evidenciam traços de sua história de vida. O enfoque do diretor perpassa pela memória de um grupo de militantes políticos, camaradas e profissionais que viveram aqueles anos na trincheira da resistência intelectual, na capital paulista.

          Os depoimentos neste sentido são as experiências vividas de um grupo de intelectuais e jornalistas comunistas, em meio a dor, medo e sofrimentos de si e de seus camaradas e parentes. Registram perspectivas ideológicas e opções profissionais que mesclavam jornalismo e política.

           O documentário não pretende ser uma radiografia sobre o período, seus agentes e elos institucionais estabelecidos entre setores repressivos e sociedade. O filme, no entanto, enuncia as práticas das prisões, as peruas Veraneio com agentes em “visita” às casas de suspeitos, ou em sequestros relâmpagos de oposicionistas. Delineia o ritual da tortura, nas instalações do órgão repressivo: capuz preto nas vítimas, choques elétricos, espancamentos e inquisições intermináveis, com muitos gritos, choros e barulhos infernais misturados em meio aos sons radiofônicos.

          Vlado torna-se o elo pelo qual tal memória grupal é tecida retomando uma identidade de muitos que hoje são ex comunistas. Uma relação afetiva entre passado e presente. Algumas poucas fotos presentificam o jornalista, sua mulher Clarice, seus dois filhos, em contornos familiares mais ternos – juventude, casamento, viagem a Londres e as experiências na BBC, ou ainda mais remotamente as imagens em peregrinação para Montevideo em busca do famoso cineasta Fernando Birra e sua escola de cinema em Santa Fé. Essas imagens vivificam o personagem e sobrepõem-se à rasa associação de Vlado em imagem de enforcado em cela de prisão.

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          A proximidade afetiva ganha no documentário suporte por meio do recurso da câmara digital filmando próxima aos entrevistados, com enquadramento ressaltando as expressões faciais. O distanciamento de época e da narrativa fria sobre uma terceira pessoa, neste sentido, é rompido. O diretor por sua vez movimenta-se com grande cumplicidade entre os entrevistados, também ele personagem que vivenciou a dramática história.  Nos depoimentos encontram-se entre outros: a esposa Clarice e o filho Ivo, o então arcebispo de São Paulo D. Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel, o empresário José Mindlin, o amigo de infância Ruy Othake, Clara Scharf, companheira de Marighela e amiga de Clarice, os jornalistas também torturados na ocasião e que trabalhavam na TV Cultura, Paulo Markun, Rodolfo Konder, Duque Estrada e outros, além de Alberto Dines, Fernando Moraes, Mino Carta, e os músicos João Bosco e Aldir Blanc.

          A trilha sonora de Aldir e Bosco, baseada e derivada de O bêbado e a equilibrista, conduzm a história, em algumas cenas sublimes, perpassando a narrativa e objetivando-se em uma espécie de melodia grupal que reconstitui laços identitários.

          Vlado, nome de origem, passou a assinar como Vladimir, quando escrevia para o Estado de São Paulo, no final da década de 1950. Seria um nome mais abrasileirado do que o original. De descendência judaica, com a família fugindo da guerra e do nazismo, ele iniciou carreira profissional após sua formação em Filosofia na USP.  Com o golpe de 1964, viajou com Clarice para a Inglaterra, quando atuou na BBC de Londres.

          Após a volta ao país, em pleno AI-5, trabalhou na revista Visão como editor de Cultura. Seguiu para a TV Cultura, entre 1972 e 1974, convidado pelo amigo e diretor de jornalismo Fernando Jordão. Editor do telejornal Hora da Notícia, por pressões políticas, Vladimir e sua equipe são demitidos, em razão do jornalismo “pessimista” que transmitiam, pois evidenciavam problemas sociais, como transporte, habitação, alimentação, entre outros. Temas “desaconselhados” pela censura ditatorial.

          Depois da demissão percorreu alguns trabalhos na área de publicidade como forma de sobrevivência. Em 1975, no entanto, teve sua indicação novamente para a TV Cultura por meio do empresário José Mindlin, na época Secretário da Cultura do Governo de São Paulo, na gestão de Paulo Egydio Martins.  Mindlin selecionou o currículo de Herzog, entre tantos outros, porque sobressaía sua experiência profissional no país e no exterior. Um jovem jornalista com excelentes qualidades profissionais, disse o ex-secretário em seu depoimento.  De qualquer maneira, como de costume na época, o nome de Vladimir Herzog passou pelo crivo do Serviço Nacional de Segurança (SNI).  Desta maneira, ele retorna ao ambiente da Cultura, desta vez como diretor de jornalismo.

          Com a volta às suas atividades televisivas foram crescentes as pressões políticas contra Vlado. As vozes ditatoriais, a partir de setembro daquele ano, desenvolviam campanha contra os comunistas que se infiltraram na TV Cultura. Passaram a publicizar seus ressentimentos em audiências da Assembleia Legislativa, por meio de vozes como os deputados arenistas Wadi Helu e José Maria Marin, próximos aos aparatos repressivos de então. Esses deputados denunciavam que a emissora tornara-se um “antro” de comunistas, inclusive tendo à frente seu diretor de jornalismo. Também essas denúncias eram realizadas por jornalistas como Cláudio Marques, então do jornal Shopping News.

          Esses ataques ideológicos eram uma ponta de algo maior que ocorria nas disputas dentro do próprio regime ditatorial. Existiam naquele momento duas correntes em choque que sintetizavam distintas posições: os militares que defendiam um retorno lento e gradual à democracia liberal; e outro setor que considerava prematuro tal processo político, pois os comunistas estavam se infiltrando em diversas instâncias do aparelho de Estado.

          Certamente que essa história não era entre “mocinhos versus bandidos” e sim sobre circunstâncias e conveniências que, inclusive, extrapolavam o espaço militar. Ambas correntes defenderam o golpe civil-militar de 1964 e o período mais intenso de torturas, assassinatos, prisões e desaparecimentos de oposicionistas. De qualquer maneira, o general presidente Ernesto Geisel e o coronel Golbery, que postulavam a “distensão política”, percebiam a crescente “autonomização” do aparato repressivo, que cada vez mais cristalizava interesses próprios. Essas preocupações manifestavam-se também entre setores empresariais nacionais e internacionais.

          No dia 24 de outubro, Vlado recebeu intimação por agentes repressivos para prestar esclarecimentos no II Exército, onde se localizava o Doi-Codi e seus porões. Ocorreu um acordo para que ele comparecesse no dia seguinte. Foi o que fez com muita apreensão de sua mulher Clarice, como também de seus companheiros de trabalho e militância.  Afinal, qual seria a sua opção? Fugir e abandonar sua família e emprego? Mas por que fugir, o que ele havia de fato feito?  No máximo, o que poderiam afirmar era que ele pertencia ao Partido Comunista.

          O PCB não foi favorável à luta armada no país, embora se mantivesse em oposição à ditadura militar pelos meios institucionais possíveis, especialmente em sua participação no Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Em razão disso, durante a fase principal da luta armada, entre 1969 e 1974, os comunistas não foram alvos das principais perseguições. Com a dizimação dos grupos de esquerda e a derrota da luta armada, os aparatos repressivos passaram a utilizar como bode expiatório os militantes comunistas. Tentavam justificar assim que a “subversão” ainda existia no país.

          No dia 25 de outubro, um sábado, Vladimir seguiu para o Doi-Codi, no período da manhã. No final daquele dia circulou a informação de que ele havia se enforcado em sua cela. Era mais um nas listas dos “suicidados” nas prisões da ditadura. Sofreu tortura para confessar que era do partido comunista, sofreu tortura para delatar colegas e profissionais, sofreu tortura para dizer o que não sabia.

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          O diretor João Baptista demorou muitos anos para decidir filmar a história de Vlado, grande amigo, camarada de militância e colega de trabalho e roteiros cinematográficos. Talvez Andrade tenha sublimado tamanho trauma da perda em tais circunstâncias que para ele e outros próximos somente o esquecimento possível permitiria amenizar.

          O documentário termina como começou, em cenas do cotidiano da Praça da Sé, tendo ao fundo das imagens a Catedral da Sé. Tudo começa e termina na Sé. Essa Praça nunca deixou de ser simbólica, certamente. Espaço de resistência por liberdades democráticas em distintos períodos históricos.

          As cenas inéditas do Ato Ecumênico da morte de Vladimir recolocam o fio da meada do plano grupal (amigos e parentes) para algo maior das relações, no plano social e político. Em 31 de outubro de 1975, cerca de oito mil pessoas reuniram-se na Catedral e na Praça. O silêncio político dos presentes ressoava nas vozes ecumênicas de D. Paulo Evaristo Arns, do reverendo Paulo Whrigt, como também do rabino Henry Sobel. Circunstâncias tão trágicas traziam vozes que condensavam e expressavam a dor, o medo e a necessidade de resistir e abrir novos caminhos no país.

Ficha Técnica

Direção:  João Batista de Andrade

Ano: 2005

Produção: Oeste Filmes, Tao Filmes

Roteiro: João Batista de Andrade

Direção de Fotografia: Fabiano Pierri , Carlos Ebert e Edis Cruz

Montagem: Landa Costa

Elenco: Mino Carta. João Bosco, Fernando Moraes, Aldir Blanc, Clarice Herzog, D. Paulo Evaristo Arns, José Mindlin, Paulo Markun, Rodolfo Konder.

Duração: 90 minutos

Links e referências interessantes

ANDRADE, João Batista de. Vlado – 30 anos depois. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2009.

GENTILLI, Victor. Valdo, 30 anos depois. Observatório da Imprensa. Ed. 353. 31/10/2005. Disponível em :    http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/vlado_30_anos_depois

SZYNKER, Claudio. O Impacto da História. Contracampo.  Revista de Cinema. Disponível em: http://www.contracampo.com.br/75/vlado.htm

TRAILER

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