Faces da Verdade

Por: Cinthia Quadrado

         FACES DA VERDADE-1- Faces da Verdade (Nothing but the truth) é uma produção norte-americana de 2008. O longa-metragem, dirigido por Rod Lurie, é protagonizado por Kate Beckinsale, Matt Dillon e Vera Farmiga. A história é inspirada no caso da jornalista do New York Times, Judith Miller, que passou 85 dias na prisão, em 2005, por se recusar a informar, perante uma investigação federal, a fonte de sua matéria que revelava a identidade de Érica Van Doren, agente secreta da CIA.

O enredo de Faces da Verdade traz a história de Rachel Armstrong (Beckinsale), uma jornalista que descobre um escândalo sobre a agente da CIA Érica (Farmiga) e que pode abalar a credibilidade do governo dos Estados Unidos. O procurador especial Patton Dubois (Dillon), representante do governo, leva a jornalista ao júri e obriga a repórter a revelar quem lhe contou a história. Ela, então, terá que decidir entre manter sua integridade jornalística ou revelar a fonte e evitar ser presa.

          O filme trata de política, liberdade de imprensa, Justiça e dos percalços que a jornalista tem que lidar para proteger a sua fonte. As cores frias e a narrativa no estilo thriller predominam no enredo, o que traz um tom de seriedade e instigam a curiosidade do público. Esse tom enfatiza a importância da discussão sobre quais os limites do jornalista quando a questão é a confidencialidade da fonte, o uso da informação obtida e a ética no exercício profissional.

          Inicialmente, mostra-se um tiroteio em que a vida do presidente norte-americano Lyman (Scott Williamson) é colocada em perigo. Depois disso, uma transmissão de rádio vem à tona dizendo que haveria uma possível participação da Venezuela no atentado. No entanto, demonstra-se que não há conclusões concretas que confirmem o caso.

          Na reunião de pauta do Sun Times, jornal de Washington D.C. em que Rachel trabalha, a jornalista aparece empolgada com um furo de reportagem que obteve: a partir de informações de uma fonte, ela descobre que o governo americano atacou a Venezuela, mesmo sem saber se o país latino estava, de fato, envolvido com o atentado. Ainda que ela aparente animação, os editores enfatizam a necessidade de ser objetivo e ter cuidado para que o governo não barre a reportagem. “Quais são suas fontes?”, pergunta a editora. Essa é a primeira das dezenas de vezes em que questionam Rachel sobre seu trabalho e ela diz que não se sente confortável para dizer quem são essas pessoas.

          Logo de cara já é possível reconhecer que a chave da reportagem é a agente Érica Van Doren. Rachel conta aos seus editores que vai conversar com a moça, que é mãe de uma criança que estuda na mesma escolha que o filho da jornalista. Mesmo com a tentativa de conversa, Érica já sinaliza o receio que tem em relação à mídia. Isso fica muito claro na posição de Érica e de outros personagens que consideram os jornalistas apenas sanguessugas ou “Lois Lanes”, referência à personagem jornalista das histórias do Super-Homem.

          Após a publicação da matéria, há uma reação em cascata. “Você tem o direito de publicar, mas não tem o direito de proteger suas fontes no caso”, disse o procurador Patton em seu primeiro contato com Rachel. Ele também reforça a ideia de que se ela não obedecer a Justiça, isso será considerado um desacato e a levará à prisão. Ao não revelar a fonte, os responsáveis pelo jornal ficam receosos já que, para eles, quando alguém publica uma informação ultrassecreta, o governo considera a ação uma traição à pátria.

Faces da Verdade          Em continuidade à reação, o processo do governo contra o jornal corre em menos de um mês. No julgamento do caso, o juiz ordena que Rachel nomeie quem foi sua fonte. E, como previsto pelo promotor Patton, a jornalista não revela a informação e é presa por desacato à corte. Nesse momento, Rachel encontra um primeiro impasse: ela poderia ser protegida pela lei, mas como é uma situação que diz respeito à segurança nacional, é obrigada a falar. Se Rachel revelar a informação, há a possibilidade de ela perder sua credibilidade como profissional; por outro lado, se mantiver o segredo, ela abre mão de tudo o que já foi lhe tirado, como sua família, o trabalho e a liberdade.

          O desenrolar da história dentro da prisão segue uma linha do tempo, em que se pontua cada dia em que Rachel passa presa e as tensões em torno da pressão recebida para revelar a fonte ou continuar a sofrer a retaliação do governo norte-americano. Ela é indicada para o Prêmio Pulitzer, mas ainda assim a Casa Branca se nega a comentar o assunto. O promotor especial tenta várias estratégias para conseguir a delação, ameaça, pressiona, entretanto Rachel sem mantém firme.

          Em um momento, Molly Meyers, responsável por um programa de entretenimento, pede que Rachel conceda uma entrevista. A conversa ocorre ao vivo na prisão e, como era esperado por algumas pessoas, as perguntas feitas pela apresentadora abordam os sentimentos da moça, como ela consegue, naquela situação, sustentar seu casamento e a ausência do filho. No fim, Molly faz a pergunta crucial: “quem foi sua fonte?”. Rachel responde e deixa a entrevistadora boquiaberta: “você quer que uma jornalista traia sua integridade? Sei que você pode fazer mais do que isso. Se as informações que você obtém são verdadeiras, como as do caso Watergate, do Pentágono, os motivos não importam. Qualquer jornalista deveria estar preparado para ir preso para proteger sua fonte”.

          Apesar da férrea resistência, as contrariedades pesam. Ela foi espancada na cadeia, está há meses reclusa, longe do filho e perdera o marido. Diante de tantas dificuldades, em determinado momento, Rachel se questiona pela primeira vez: “será que eu estou fazendo a coisa certa?”.

          “Em alguma parte do curso a imprensa deixou de ser o cavaleiro para se tornar o dragão. É assim que as pessoas pensam”, avalia o advogado envolvido com o seu caso. Ele ainda pergunta a ela: “sabe porque nenhum jornal, nem o seu, está cobrindo o caso?”. A resposta é dada pelo próprio senhor: “porque o seu ciclo de 48 horas acabou”. O caso não era mais notícia, pois não despertava mais o interesse dos meios de comunicação. A própria mídia e público definiam os limites de defesa da liberdade de informação. Quando a novidade acabou, a notícia deixou de ser relevante.

 Outras questões

           A garantia dada pela Primeira Emenda à Constituição Americana assegura a liberdade de expressão do jornalista, o que permite que a personagem em questão possa manter o sigilo sobre sua fonte. Entretanto, uma lei americana também obriga que os veículos e jornalistas revelem suas fontes em casos que envolvam a segurança nacional. A partir do momento em que o governo entende que expor a identidade de um agente secreto é uma ameaça à segurança nacional, a Justiça acaba por considerar que a negativa à resposta será um desacato.

           Quanto à obtenção das informações sobre o caso do filme, há muitas críticas já que a própria jornalista assume que isso ocorreu quanto ela estava “fora do seu papel” como profissional da comunicação. A reflexão suscita perguntas como: até que ponto esses tipos de informações, que não foram dadas com o intuito de serem publicadas, poderiam ser utilizadas para publicações em reportagens? E qual a forma mais adequada de se pensar sobre as consequências de divulgar uma informação que abrange o âmbito da segurança nacional?

          Em relação aos limites do jornalista para publicar uma matéria, pode-se apontar que Rachel levou em consideração o interesse público, assim como sua carreira. E ao mesmo tempo, ela destruiu a carreira da agente Érica. A policial foi considerada a principal suspeita de ser a fonte, precisou afastar-se da família, foi pressionada pela CIA e acusada de antipatriotismo. Na tentativa de publicar um “grande furo”, a integridade dos envolvidos foi deixada de lado.

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          O filme auxilia na compreensão sobre o valor da verdade e quais as responsabilidades de um repórter antes de publicar uma matéria. Faces da Verdade deixa claro que as decisões do jornalista podem ter consequências drásticas que envolvem não só quem escreve a matéria, mas todos os outros, como suas fontes.

          Mesmo que haja a intenção de estar em contato com a verdade e respeitar a individualidade das fontes, neste caso, a sede pelo furo de reportagem acaba por ir além dos limites éticos da profissão. Levando em consideração o direito de não ser censurado, assim como a importância do direito à privacidade, pode-se considerar que o homem é livre para publicar o que pensa, mas ainda assim haverá consequências dessas publicações para alguma pessoa. Portanto, é importante discutir os limites éticos do jornalista, como se dá o exercício da profissão, para instigar ainda mais o debate sobre o assunto, que faz parte da realidade dos comunicadores em todo o mundo.

Links e referências interessantes:

http://objethos.wordpress.com/2010/09/15/resenha-de-amor-e-de-sombras-1994/..

http://50anosdefilmes.com.br/2010/faces-da-verdade-nothing-but-the-truth/.

MENDES, Francielle Modesto; SILVA, Márcia Parfan. Filme Faces da Verdade: um debate sobre o sigilo da fonte e a ética jornalística. Revista Tropos.  Disponível em: http://revistas.ufac.br/revista/index.php/tropos/article/view/12

Ficha Técnica:

Nome: Nothing but the truth

Direção: Rod Lurie

Argumento e roteiro:  Rod Lurie

Fotografia: Alik Sakharov

Música: Larry Groupe

Ano: 2008

País: Estados Unidos

Duração: 108 minutos

Gênero: Drama/Thriller
Elenco: Vera Farmiga (Erica Van Doren), Matt Dillon (Patton Dubois), Kate Beckinsale (Rachel Armstrong), Alan Alda (Alan Burnside), David Schwimmer (Ray Armstrong).

TRAILER:

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