Gonzo: Um Delírio Americano

         “Gonzo”: O que aconteceu a Hunter Thompson?

Por: Adriana Kimura

       Gonzo-The-Life-and-Work-of-Dr.-Hunter-S.-Thompson-2008   “Ele percebeu rapidamente que já não era mais um ótimo escritor. Ele se esforçava. Ele perdeu a aspereza Gonzo. O que houve com Hunter? Ele está enlouquecendo. Ele escreveu tanta coisa criativa. Ele foi tão produtivo por 4, 5 ou 6 anos. Acho que perdeu a inspiração. Nos últimos anos de Hunter, para que a inspiração saísse dele no que chamávamos de essência Hunter, era preciso algo como… Quase precisava sentir um chute na virilha”.

          A primeira passagem do documentário “Gonzo: The life and work of Dr. Hunter S. Thompson”, dirigido por Alex Gibney e lançado em 2008, traz a indagação sobre um grande escritor que perdeu a capacidade de escrever. Aponta para o questionamento diante do jornalista que inaugurou um estilo de reportagem e que depois perdeu a capacidade de executá-lo. Essa introdução sugere a dúvida que norteia os caminhos do documentário.

          “Gonzo” investiga a produção de Thompson no período de 1965 a 1975 mesclando trajetória de vida e discussão da obra profissional. Os textos originais do jornalista, na voz de Johnny Depp, concedem ao documentário, somadas às gravações do próprio Thompson, uma espécie de narração real, autobiográfica. A sensação é de que a obra do escritor narra episódios de sua própria vida.

          Esse tipo de jornalismo subjetivo e personalista vai contra o ideal de reportagem objetiva e factual. Como demonstram os testemunhos nas entrevistas de “Gonzo”, as estratégias de Thompson na sua produção não eram as de entrevistas e investigações do método tradicional, mas verdadeiras investidas em infiltrações, camuflagem para a convivência, na tentativa de obter material para relato pessoal. Um exemplo foi a produção de “Hell’s Angels”, quando Hunter Thompson fez parte de uma gangue de motos da Califórnia, durante um ano, para escrever uma “reportagem”.

          O discurso do documentário diferencia o estilo de Thompson do jornalismo tradicional e revela seu potencial poder de denúncia, articulado sob a força do anonimato do repórter. As circunstâncias da realidade se revelavam completamente porque Thompson não estava presente como jornalista, ele estava inserido no acontecimento. Na primeira parte do documentário, são exibidos trechos de um programa de televisão de que ele participou junto a outros dois homens que, fisicamente, em nada se pareciam, mas ninguém sabia quem era o verdadeiro Thompson. Esses trechos representam o segredo da técnica jornalística que beirava a literatura: poucas pessoas seriam capazes de reconhecê-lo, de reagir especialmente à sua presença.

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          Sobre “Medo e Delírio em Las Vegas”, no que diz respeito a trechos do filme de Terry Gilliam utilizados no documentário, é preciso destacar a crítica real, a ironia frente ao Sonho Americano. O uso abusivo de drogas, o tom humorístico e a caricatura de Hunter Thompson representam uma ressaca moral acumulada pelo retrocesso à direita nos Estados Unidos, com o retorno a governos conservadores, a Guerra do Vietnã e a repressão às drogas vivenciadas pelo jornalista. Frequentemente, a seriedade do jornalismo gonzo é posta em questão, por conta da subjetividade envolvida no estilo. No entanto, a importância jornalística de obras como “Medo e Delírio em Las Vegas”, apesar do humor na ironia, está no relato que revela contextos inéditos e constitui uma crítica do sistema vigente – importância essa acentuada no elemento de contracultura que o livro representa.

          Thompson recebe dinheiro para ir a Las Vegas cobrir o Mint 400, uma corrida entre motos e bugies, e resolve sair em busca do Sonho Americano. Para explorar todas as possibilidades de desfrute na cidade, ele extrapola no consumo de bens materiais e morais, aluga um conversível e usa abusivamente de todas as drogas de que já se tivera notícia. A inconsequência e a libertinagem envolvidas são as estratégias para bater de frente com o Sistema. O medo e o delírio são a ironia de tudo que um americano pode ter na Era de Ouro vivida pelos Estados Unidos no período das décadas de 1960 e 1970. Hunter Thompson questiona, na sua estratégia dos exageros, qual a liberdade de que goza uma sociedade que trava guerras contra o consumo de drogas e contra o comunismo do Vietnã. Ele lamenta por observar, cada vez mais, o Sonho Americano a estrangular a real liberdade de comportamento e de ideias.

          Durante os depoimentos do documentário, muitos se referem a Hunter Thompson como escritor. A primeira esposa dele, Sondi Wright, faz questão de frisar o envolvimento pessoal de Thompson com cada temática de sua obra. No entanto, o viés jornalístico também se acentua nos momentos em que se destaca o olhar fotográfico e investigativo que Thompson colocava sobre os acontecimentos, e também se apegava pessoalmente a eles, de maneira a encontrar, nas suas interações, cada detalhe informativo, ou contextual, necessário. Assim, ele desenvolve o jornalismo detalhista e desmascarador, abordando não o que as fontes dizem ao repórter, mas o que as pessoas são além da observação rotineira da imprensa.

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          O perfil de jornalista traçado pelo documentário conduz as atenções para o uso jornalístico do relato pessoal. As obras de Hunter Thompson envolvem e conquistam leitores porque apresentam o lado da experiência humana no relato. O que as diferencia da literatura comum são as capacidades de denunciar, revelar e criticar. Nesse sentido, o filme também levanta a questão da ética profissional, na medida em que os elementos de ficção conduzem Thompson a produzir falsas informações, como no caso da calunia contra Richard Nixon, durante a campanha presidencial, quando um boato sobre o uso de uma droga fictícia transformou a imagem do candidato à presidência dos Estados Unidos.

          No entanto, à parte a preocupação ética, a ironia que permanece ao se compreender as estratégias do gonzo é a de que, com toda a sorte de caricaturas e, diante do material produzido a partir de experiências pessoais, Thompson revela um jornalismo que se aproxima muito mais da realidade do que outras tendências presas às rígidas regras formais de objetividade. Hunter Thompson denuncia, à sua época, a grande mentira do Sonho Americano. Com o documentário, por sua vez, elabora-se a crítica ao jornalismo moderno que, apesar de defender a neutralidade e luta contra a subjetividade, permanece distante da realidade que procura relatar. Ironicamente, a pessoalidade foi a ferramenta que possibilitou ao gonzo perceber argutamente as contradições de seu objeto.

          A técnica de Hunter Thompson para o trabalho se apoiava em um estudo quase antropológico dos temas de reportagem e não deixava passar questões políticas ou sociais, mesmo em temas que aparentemente não tivessem relação. Ele se dedicava a fazer parte de uma realidade e a experimentar, de todas as maneiras possíveis, os ângulos de observação dos acontecimentos. Mais do que retratar, ele se prestava a compreender a lógica de dentro de um contexto inédito. Frequentemente, essa experimentação resultou em relatos de “medo e delírio”, o medo real do que era encontrado, o delírio do que se recriava diante de seus olhos.

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          Além de revelar as possibilidades e os riscos do jornalismo como relato pessoal, o grande argumento do filme nos atenta a um ponto em especial: o momento em que essa técnica de reportar se esgota. Após traçar a trajetória de sucesso de Hunther Thompson, o documentário demonstra que é justamente o sucesso que impede a continuidade do jornalismo gonzo. Ao atingir a fama, Thompson passa a ser reconhecido com facilidade e, com isso, perde o mais importante para seu estilo: o anonimato; inviabilizando o estilo que inaugurou.

          Diante desse percurso, pode-se refletir sobre o jornalista que se auto-anuncia. Ao que parece, o truque de agir como personagem na história depende de que essa personagem não seja um profissional, mas um indivíduo pertencente à realidade observada, atuando de maneira camuflada para que suas fontes não se sintam tolhidas. A tentativa do jornalismo gonzo é a de flagrar a realidade como ela é, despreparada, desarmada, sem um observador externo que interfira na dinâmica do objeto. Nesse sentido, a técnica de Hunter Thompson é a que mais se aproxima da realidade, porque permite que se revele um universo desconhecido aos outros e possibilita que os acontecimentos sejam protagonistas. O máximo da subjetividade para atingir a objetividade.

Links e referências interessantes

MARTELLI, F. P. Jornalismo gonzo: uma análise acerca do jornalismo literário. Monografia (Trabalho de Conclusão de Curso) – Bacharelado em Comunicação Social – Jornalismo, Centro Universitário de Brasília. 2006. http://portalintercom.org.br/anais/sudeste2013/resumos/R38-0097-1.pdf

http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/famecos/article/viewArticle/12157

http://www.rollingstone.com/contributor/huntersthompson

http://www.ufrgs.br/alcar/encontrosnacionais-1/9oencontro-2013/artigos/gthistoriadamidiaalternativa/ojornalismogonzoeavisaoalternativadosonhoamericano

Ficha Técnica

Direção: Alex Gibney

Ano: 2008

Produção: Todd Wagner

Roteiro: Alex Gibney

Direção de Fotografia: Maryse Alberti

Montagem: Alison Ellwood

Elenco: Hunter S. Thompson (intepretando ele mesmo), Johnny Depp (narrador)

Duração: 120 min

TRAILER:

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