A Caçada

A busca pelo maior criminoso de guerra bósnio

 Por: Jéssica Santos

A Caçada (1)

          “(…) ficar tão perto da morte e continuar vivo é muito viciante. Se alguém disser o contrário está mentindo”. O fluxo de pensamento do cinegrafista Duck (Terrence Howard) em meio ao desafio da cobertura da guerra da Bósnia revela, de antemão, o tom da abordagem e crítica jornalísticas em “A caçada”.

          O filme é uma ficção baseada no conflito ocorrido entre Bósnia e Sérvia, de abril de 1992 a dezembro de 1995. O período foi marcado por atos de extrema violência e descumprimento aos direitos humanos após a conquista de autonomia dos países que compunham a antiga Iugoslávia. O povo muçulmano foi o mais perseguido por oficiais bósnios de origem sérvia que deram ao episódio o caráter de genocídio através de estupros, torturas e espancamento da população civil.

          A narrativa do longa está centrada no conflito pessoal do correspondente Simon Hunt (Richard Gere) que, após anos de cobertura de guerra para televisão, perdeu o controle ao vivo e denunciou o massacre dos muçulmanos bósnios pelo governo ditatorial de Boghdanovic, o Raposa, minutos depois de encontrar sua namorada, na época grávida, morta com mais de cinco tiros na barriga.

          Após esse episódio Simon foi demitido, perdeu espaço dentre as grandes redes televisivas e passou por momentos difíceis na carreira. Sua aptidão com coberturas de conflitos era inquestionável e explica o mérito das premiações que já recebera. Com a reputação arranhada dentre as grandes redes televisivas, torna-se freelancer e acumula diversos empréstimos para financiar viagens até locais de combates e continuar a trabalhar de maneira precária.

          A atitude de Simon é justificada ao longo do filme que se propõe a levantar questões polêmicas do jornalismo como a necessidade de imparcialidade e distanciamento, independência em relação ao controle exercido pelas grandes empresas midiáticas e o compromisso de informar e defender o interesse público. A exposição ao perigo reafirma os pressupostos ideológicos da profissão, implicando no envolvimento em situações e circunstâncias que ameaçam a integridade física e psicológica do jornalista e o instiga à aventura.

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          No outono de 2000, Duck, cinegrafista com carreira consolidada nos EUA, retorna a Sarajevo para filmar uma reportagem especial da festa em comemoração aos cinco anos do fim da guerra. Faziam parte deste trabalho, o âncora do principal telejornal da emissora e um assistente recém-formado. O retorno àquele país inevitavelmente despertou suas memórias das coberturas realizadas ali ao lado de Simon – em nove anos, Duck foi baleado quatro vezes. Uma fase de trabalho com grande envolvimento, adrenalina e exposição a perigos.

          Simon aparece de surpresa em seu quarto, e o convida para a missão mais perigosa da dupla: encontrar o Raposa. O antigo ditador era o criminoso de guerra mais procurado do mundo e a recompensa para quem conseguisse capturá-lo chegava a cinco milhões de dólares. O montante resolveria os problemas financeiros de Simon, há tempos sem remuneração fixa e com muitas dívidas.

          Num primeiro momento o cinegrafista não consegue acreditar na proposta tresloucada de Simon que afirma saber o paradeiro de Raposa. Tratava-se mais uma aventura de investigação de agentes secretos do que de jornalismo. Benjamin (Jesse Eisenberg), o assistente que acompanhava Duck na viagem, intui a existência de algum furo de reportagem e imediatamente manifesta interesse em participar. Para o recém-formado, acompanhar dois jornalistas experientes revelou-se uma oportunidade ímpar de compreender a profissão além das aulas teóricas.

          Simon não conseguiu restabelecer o distanciamento necessário para desenvolver seu papel de informante dos fatos. A possibilidade de chegar até o esconderijo do ex-ditador bósnio revelou-se, em alguns momentos, como um trabalho de caçador de recompensa aliado ao seu desejo particular de vingar a morte da namorada e os anos de penúria pelos quais vinha passando. Estava distante da intenção de garantir o compromisso jornalístico por meio de uma entrevista com Raposa.

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          Ele manteve a habilidade com coberturas em áreas de conflito, embora tenha se tornado incrédulo em relação aos pressupostos éticos da profissão, fato que explica a disposição em desenvolver o trabalho que deveria ser de responsabilidade dos órgãos de segurança internacionais. Dessa forma, o filme demonstrou uma problemática recorrente: a omissão do Estado diante de alguns fatos possibilita que a mídia e os jornalistas se valham do papel de representantes da justiça, mobilizando o entendimento e o tom do julgamento da opinião pública.

          No caso da guerra da Bósnia, o longa critica duramente a omissão e falta de empenho da política internacional nas investigações do paradeiro do criminoso, cuja liberdade representava a manutenção de seu poder entre simpatizantes da política de limpeza étnica e a ameaça à segurança e integridade do povo muçulmano em território bósnio.

          Simon consegue convencer Duck a acompanhá-lo e o trio seguiu viagem pelo interior do país em um carro velho, pequeno e emprestado por Simon de um conhecido. Era necessária muita precaução durante suas conversas, todos eram suspeitos – poderiam ser escutas, seguranças ou simpatizantes do Raposa. Quando decidem parar num posto da polícia internacional a serviço da ONU para obter algumas informações sobre a região onde Simon acreditava estar localizado o esconderijo do ex-ditador, o trio descobre a primeira evidência de que estavam no caminho certo. Os policiais haviam sido orientados a se manter longe das montanhas da fronteira com Montenegro.

          Além desse fato, Simon se mostrou inconformado com a falta de comprometimento e eficiência do trabalho da Marinha, tropas da OTAN e da CIA que afirmavam estar empenhados nas investigações e buscas por Raposa. Simon acredita que os EUA tenham feito um acordo com o ex-ditador para que ele deixasse o poder e não fosse preso por crime de guerra. Mas a quem caberia encontrá-lo?

A Caçada

          A chegada à República Srpska, região em que Raposa era considerado líder, foi marcada pelo medo e insegurança diante de simpatizantes do criminoso. A narrativa ganha fôlego a cada nova parada em vilarejos e obtenção de informações de fontes desconhecidas. Simon é um jornalista inquieto, questionador, conhece os perigos da guerra e admite o medo, mas não hesita em seu compromisso com o interesse público misturado ao interesse particular. Seu papel de líder e articulador do grupo procura manter viva a esperança de chegar até o Raposa. Para Simon, quando o jornalista se importa, consegue as melhores histórias. E a trama é tecida pela imagem do jornalista como herói de uma odisseia em busca da verdade.

          Duck ameaça abandonar o objetivo de chegar até o ex-ditador após o trio ser surpreendido na estrada por um grupo de contrabandistas armados, cujo líder conhecia Simon e, por isso, ordenou que os jornalistas fossem liberados da mira das armas. Boatos equivocados davam conta da aproximação de representantes da CIA na região da fronteira com Montenegro.

          Em meio à adrenalina da busca pelo ex-ditador bósnio, testemunhamos o confronto entre a vida profissional de Duck, promovido a chefe da equipe de filmagem do âncora da emissora em Nova York, e a decadência do melhor repórter de guerra da televisão, cuja destreza possibilitava os melhores registros dos conflitos. O cinegrafista é acusado por Simon de ganhar um salário invejável sem, no entanto, estar comprometido com um “jornalismo de verdade”, possível diante das adversidades da rua e do contato direto com as pessoas.

          Nessa mesma linha estiveram dirigidas as críticas ao trabalho das grandes redes de TV que limitam o trabalho de seus repórteres a relatos rasos e superficiais que não dão conta de informar o público de todos os aspectos envolvidos na gênese e no desenrolar dos conflitos. De que adianta enviar correspondentes se esses ficam limitados a realizar seu trabalho de forma acrítica?

          Após várias peripécias, os três são rendidos num hotel e levados até o encontro de Raposa. Sob o completo domínio dos criminosos, Simon fica cara a cara com o ex-ditador que ordena sua morte. Todos são surpreendidos pela chegada de soldados da CIA, o capanga de Raposa mais temido é morto. Os jornalistas são encaminhados para um avião, onde questionam o capitão da organização sobre o empenho e interesse da comunidade internacional em capturar o criminoso de guerra.

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          A impunidade do principal responsável pelas mazelas de uma guerra sustentada no ideal de limpeza étnica acometeu o povo à miséria e causou uma reviravolta na vida pessoal do admirado jornalista Simon Hunt. Seu legado de coberturas em zonas de conflito permitiu que ele testemunhasse inúmeras situações de injustiça, crueldade e conivência de órgãos defensores dos direitos humanos.

          A imprensa procurou se isentar da responsabilidade de fiscalizar, através da publicação de fotos do ex-ditador numa demonstração tímida de apoio à sua captura e julgamento. O filme induz à ideia de que mesmo nesses grandes conflitos há interesse das grandes instituições e governos. Quem perde, inevitavelmente, é a justiça e a verdade.

          O compromisso jornalístico de Simon e seus companheiros foi reafirmado através da desistência da recompensa paga a quem conseguisse capturar o Raposa. O final dessa aventura? Simon conclui assertivamente: “viver em perigo é viver de verdade, o resto é televisão”.

Ficha Técnica:

Título Original: The Hunting Party

Ano de produção: 2007

País: EUA, Bósnia

Elenco: Richard Gere, Terrence Howard, Ljubomir Kerekes, James Brolin, Jesse Eisenberg, Mark Ivanir, Dylan Baker, Diana Kruger.

Direção: Richard Shepard

Roteiro: Richard Shepard e Scott Anderson

Produção: Intermedia

Distribuidor: Europa Filmes

Links e referências interessantes:

http://www.nytimes.com/2007/09/07/movies/07hunt.html?_r=0

http://www.esquire.com/features/summer-vaction-1000

http://50anosdefilmes.com.br/2009/a-cacada-the-hunting-party/

Trailer:

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