Zodíaco

Por: Heloise Montini

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          “Gosto de matar pessoas porque é muito divertido. É mais divertido que matar animais selvagens no bosque, porque o homem é o mais perigoso dos animais. Matar algo é a experiência mais emocionante, é melhor do que ficar com uma mulher. A melhor parte é que quando eu morrer renascerei no paraíso e todos os que eu matei serão meus escravos”. Assim é como o assassino Zodíaco começa sua primeira carta criptografada ao diário San Francisco Chronicle. Durante anos, ele consegue obter visibilidade pública pelas notícias de seus crimes e pela capacidade de manipular a noticiabilidade desejada pela midia.

Zodíaco foi o nome que o assassino em série deu a si mesmo em 1969, em São Francisco, Califórnia, começando suas cartas e telefonemas sempre com a frase “aqui quem fala é o Zodíaco”. O longa de 2007 recupera a história real e conta como esse homem se tornou famoso como um criminoso perfeito, já que ele nunca foi identificado.

        O diretor David Fincher já era conhecido por outras obras com a mesma temática de assassinos em série. É dele um dos principais filmes do gênero, Seven – Os sete crimes capitais (1995). Enquanto neste o diretor trabalha para dar pistas que levam ao criminoso, em Zodíaco ele nunca é descoberto. Mesmo estando preso à fatos reais, Fincher consegue dar suas características ao longa através da imersão no psicológico e na vida pessoal dos personagens, mostrando como o envolvimento com a história abalou cada um deles, sua relação com as famílias e a obsessão que adquirem pelas ações do Zodíaco.

        E é exatamente a obsessão que leva Robert Graysmith, cartunista do San Francisco Chronicle, a investigar o homicida por sua própria conta, mesmo quando o caso já havia sido encerrado, e escrever o livro que deu origem ao longa. No filme, acompanhamos Graysmith em sua trajetória para descobrir quem é o Zodíaco com o objetivo de olhar em seus olhos. É tudo o que o cartunista deseja: olhar nos olhos do assassino.

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        A história começa com um casal que vai para um parque no feriado de 4 de julho. Eles estavam parados dentro do carro quando são alvejados por vários tiros. A moça morre na hora enquanto o rapaz sobrevive. O próprio assassino liga para a polícia e confessa ter atirado no casal, além de assumir a autoria de um crime similar que acontecera no ano anterior.

        O caso afeta o jornal não apenas porque era uma notícia de grande público, mas porque o assassino escolhe o San Francisco Chronicle como interlocutor. E ali trabalhava o cartunista Robert Graysmith (Jake Gyllenhaal) que se envolverá com o caso. Na primeira carta, Zodíaco assume ter matado a moça no 4 de julho e ameaça matar mais doze pessoas até o final da semana caso sua mensagem criptografada, a segunda carta, não seja publicada.

        Graysmith se envolve com a história e começa a acompanhar o caso atentamente, passa a se envolver cada vez mais até atuar como um investigador em tempo integral. Além dele, a obsessão por se descobrir quem é o Zodíaco também atinge o repórter investigativo do jornal San Francisco Chronicle, Paul Avery (Robert Downley Jr.), e o detetive Dave Toschi (Mark Ruffalo).

        Zodíaco ataca novamente, agora um casal que passava o dia à beira de um lago. Mantendo um padrão de ação, a moça morre enquanto o homem sobrevive. Mas esse padrão é quebrado quando, semanas mais tarde, ele mata um taxista. É nesse assassinato que os detetives Dave Toschi e Bill Armstrong (Anthony Edwards) são envolvidos no caso.

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        O homicida continua a debochar da polícia e a ameaçar por meio dos jornais, enviando cartas e fazendo ligações. Sua audácia aumenta, enquanto os envolvidos no caso não conseguem identificá-lo. Vários suspeitos surgem, sendo Arthur Leigh Allen (John Carroll Lynch) o principal. No entanto, ele é descartado quando uma comparação de sua letra com a das cartas do Zodíaco mostra que não poderia ser o criminoso.

        O filme segue de forma a prender o espectador na expectativa de identificação e prisão do culpado. Quanto mais Graysmith investiga o caso, e o insucesso se alonga, mais ele se afasta do trabalho e de sua família, enquanto Avery se entrega às drogas e ao álcool. Os detetives também são afetados, sendo que Armstrong se transfere quando vê que a investigação está atrapalhando muito sua vida pessoal e Toschi chega a ser rebaixado após uma acusação envolvendo o caso.

        O filme apresenta um dos grandes perigos para o jornalista, o envolvimento pessoal com a reportagem. Avery explora o caso ao máximo, escrevendo diversas matérias sobre o Zodíaco, sendo o repórter com maior conhecimento do assunto e dos métodos do assassino. Paul Avery se dedica tanto à investigação que sua vida pessoal é afetada. Ele se desgasta com a obsessão, torna-se alcoólatra, perde o emprego no San Francisco Chronicle, tem de mudar e recomeçar a carreira em outro jornal.

        O filme Zodíaco apresenta a interferência do jornalismo na vida e na opinião da população. Ao focar nos assassinatos durante meses, dando ampla repercussão e valorizando o caso, os jornais tornam o homicida visível e familiar. Ele aparecia constantemente nos jornais, suas ameaças eram expostas ao público e a população vivia em alerta. Em alguns momentos a preocupação beira ao pânico, por exemplo, quando a imprensa divulga a ameaça de atacar um ônibus escolar.

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        O sensacionalismo exercido pelos jornais à época alimenta a Teoria da Agenda, afinal, os jornais definiram, por meses, qual seria o assunto de destaque em relação às atenções: o assassino do Zodíaco. E quando a mídia se dedica a divulgar intensamente as ações de um criminoso, ela contribui para que ele permaneça na mente e na vida da população. Dando destaque às ameaças do Zodíaco, os jornais de São Francisco colaboraram para a construção da imagem onipresente do assassino e para que sua ousadia e audácia contra a polícia local se manifestassem de forma mais autêntica. Em outras palavras, a mídia deu visibilidade ao confronto entre o Zodíaco e a polícia, colocando as autoridades na defensiva, criando uma novela permeada por suspense e intensificando o medo da população.  O tema atraía os leitores e manteve as vendas por bom tempo.

        Essa é uma boa razão para que o assassino em série tenha escolhido a imprensa como interlocutora, enviando suas ameaças e confissões a ela. Assim, ele garantiu certo controle sobre o que seria divulgado sobre si mesmo e como apareceria nas notícias. Além de usá-la para zombar da eficácia policial, ao confessar abertamente seus atos e não ser identificado e preso.

        No começo, os jornais seguiram sua ordem, exploraram o caso, fazendo o jornalismo sensacionalista a fim de garantir boa vendagem dos exemplares. Quando a imprensa se afasta do caso, o próprio homicida perde força. O público cansa de notícias repetidas, logo, os jornais precisam se renovar. Quando o principal jornalista a investigar o Zodíaco, Avery, se afasta do assunto, todos já estão saturados do caso. A imprensa se cala, aparecendo periodicamente alguma notícia, afinal, Zodíaco nunca foi descoberto. Os anos passam, o sensacionalismo que envolvia o tema acaba, mas um crime perfeito sempre volta à tona.

        Com um roteiro bem construído e trilha sonora elogiada, David Fincher conseguiu reconstruir a época com seus costumes, moda, valores e cotidiano do trabalho jornalístico. O diretor foi uma das crianças que viveram o período com medo do Zodíaco. Os passeios pelas ruas e as idas à escola eram feitos com receio. Fincher compartilha e explora a obsessão pelo caso. O longa é uma boa pedida para fãs de dramas criminais.

Ficha Técnica:

Nome original: Zodiac

Ano de produção: 2007

Duração: 158 minutos

País: EUA

Diretor: David Fincher

Roteiro: James Vanderbilt e Robert Graysmith (livro)

Elenco: Jake Gyllenhaal, Robert Downey Jr., Mark Ruffalo

Links e referências interessantes:

CARREIRO, Rodrigo. Cine Repórter. 19 jan. 2008. Disponível em: http://www.cinereporter.com.br/criticas/zodiaco/

BORGO, Érico. Omelete. 31 maio 2007. Disponível em: http://omelete.uol.com.br/cinema/zodiaco/#.VHuCFzHF-Sr.

LEE, Nathan. To Catch a Predator. 20 Freb 2007. Disponível em:http://www.villagevoice.com/2007-02-20/film/to-catch-a-predator/

BRESLAU, Karen. Q&A: ‘Zodiac’ Writer Robert Graysmith. NewsWeek. 03 Jan. 2007.  Disponível em: http://www.newsweek.com/qa-zodiac-writer-robert-graysmith-95629

BOOTH, William. A Killer Obsession. Washington Post. 01 Mar. 2007. Disponível em: http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2007/02/28/AR2007022801979.html

GRAYSMITH, Robert. Zodiaco. Editora Novo Conceito, 2007.

Trailer:

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