Boa noite e Boa Sorte

Por: Giovani Vieira

          Boa Noite e Boa SorteOusadia. Se fosse para resumirmos a produção do longa ‘Boa noite e boa sorte’ (Good night, and Good Luck, 2005). O segundo filme escrito e dirigido por George Clooney se distancia a passos largos do cinema estritamente comercial. Seja pelo roteiro, pela trilha sonora ou pela fotografia nostálgica e sensível em preto e branco. O filme foi financiado por uma produtora independente que o próprio Clooney mantém com o amigo e cineasta Steven Soderbergh. Isso, com certeza, permitiu ao diretor ousar na produção e apontar para feridas da sociedade norte-americana.

          Outro acerto do diretor foi o ótimo elenco. Destacam-se principalmente o personagem principal Edward Murrow, interpretado por David Strathairn, e seu chefe, William Paley, vivido pelo veterano Frank Langella. Talvez Clooney tenha se empenhado pela proximidade do enredo com parte de sua historia familiar. Seu pai, assim como o personagem principal do drama, sofreu por ser um jornalista combativo em uma época em que a liberdade de imprensa enfrentava inúmeros desafios nos Estados Unidos.

          A história com fundamentos reais se passa nos anos 1950. De um lado, o senador republicano Joseph McCarthy, do Estado do Wisconsin, promovia uma verdadeira Inquisição contra o que ele chamava de “ameaça vermelha”. Qualquer um podia se transformar em suspeito, ser acusado pelo senador e sofrer punições e processos arbitrários. À época, com poucas exceções, a grande imprensa norte-americana em geral, mas a televisiva principalmente, pisava em ovos na cobertura das atividades do republicano. No entanto, do outro lado, Edward Murrow, âncora do programa See It Now da rede de televisão CBS, uma das três principais dos Estados Unidos, vai além desse medo e mostra coragem ao desafiar o senador, de maneira séria e objetiva. Ao seu lado, uma dedicada equipe, chefiada pelo seu co-produtor Fred Friendly, interpretado por Clooney, e o repórter Joseph Wershba (Robert Downey Jr) produzem o polêmico programa. A trama se desencadeia quando eles resolvem combater as táticas e mentiras usadas pelo senador McCarthy.

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          No programa, Murrow discursa como defensor de um dos princípios da sociedade norte-americana: a liberdade de expressão. O filme realça a tese de que o jornalismo e a mídia devem perseguir esse princípio, devem ser o guardião da sociedade, o defensor dos cidadãos diante de autoritarismos e de arbitrariedades do Estado. Também devem defender a pluralidade, a polêmica, a diversidade, o debate e os direitos civis.

          A partir dos anseios do âncora e da sua equipe em defender esses princípios e desmascarar o senador McCarthy, os jornalistas deparam-se com dilemas e questões de integridade e ética profissional para se manterem firmes na missão. Por um lado, surgem as pressões da empresa de comunicação, tentando impor a autocensura e as pressões econômicas dos patrocinadores. Por outro lado, os jornalistas enfrentam as pressões políticas para desistirem.

          O medo das perseguições é constante na tentativa de relatar os fatos da “caça às bruxas” aos comunistas elaborado por McCarthy. Criticar o senador significava cutucar a onça com a vara curta. A pressão exercida sobre o jornalista Murrow e sua equipe evidencia o quanto é difícil manter o equilíbrio e a liberdade de expressão na mídia. E aqui em caráter universal, não apenas contextualizada nos Estados Unidos. Entretanto, apesar dos riscos, o editor chefe apoia o grupo na sua opção. No fim, apesar do programa ser bem sucedido na sua luta, ele perde o patrocinador. E o âncora é transferido para um horário de menor importância. Contradições da mídia.

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          O direito de resposta e o contraditório também estão presentes no filme, pois o Senador McCarthy tem a possibilidade de se defender sobre os fatos de que é acusado. No entanto, a situação se complica quando o parlamentar reage sem provas e acusa o âncora Edward Murrow de ser o líder dos comunistas.

          Do início ao fim do filme, o pivô Edward R. Murrow transmite uma imagem de honestidade e de ética, porque não cedeu às pressões e procurou exercer um jornalismo objetivo e isento, sem influências políticas, colocando em risco o próprio emprego. O título do filme é a última frase emitida no programa e se remete a situação de guerra, uma vez que a expressão usada pelo protagonista foi cunhada durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto reportava os acontecimentos. Ao não saber o que se poderia acontecer entre a noite e a manhã, sempre se desejava boa-noite e boa-sorte aos membros da comunidade.

          O filme não retrata a vida pessoal dos personagens, com exceção dos recém-casados, Joseph e Shirley Wershba (Robert Downey Jr. e Patricia Clarkson), que tinham que esconder seu casamento para poderem continuar empregados na CBS, já que não era permitido o matrimônio entre funcionários da empresa; e o suicídio de Don Hollenbeck (Ray Wise), acusado na imprensa de ser um comunista.

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          Quase todas as cenas se passam dentro da emissora, as reuniões, a tensa preparação do programa e as transmissões. Por meio dessas cenas podemos ter acesso às gravações originais das audiências dirigidas pelo senador McCarthy e os depoimentos públicos e reais de suas vítimas. Essas imagens históricas, retiradas de arquivos, vão dando base às argumentações de Murrow tanto no programa como nos bastidores. Realidade e ficção se misturam na imagem em preto e branco, com trilha sonora jazzística, recorrentes closes que realçam as tensões, contínuas cenas enevoadas pelo cigarro sempre aceso e câmeras observadoras que nos colocam como testemunhas daquele período conturbado.

          “Boa Noite, Boa Sorte” consegue colocar questões ainda atuais. Não só sobre os direitos dos cidadãos, mas também sobre a responsabilidade dos media numa sociedade. O filme defende que a televisão não deve ser somente uma “caixa mágica” utilizada para entreter, divertir e isolar, mas que tem a incumbência de educar e tornar os seus espectadores informados e conscientes da realidade. Os questionamento de Clooney, na figura do âncora, ainda são válidos e pertinentes para uma mídia que tenta transpor a mente do telespectador. Sem atingir diretamente qualquer ideário político, Clooney critica a fase governista de Bush com classe e para provar que a história se repete inúmeras vezes nas mãos dos poderosos chefes de estado. Por outro lado, sempre há um guardião da sociedade para impedir a livre ação dos opressores.

Links e referências interessantes:

http://www.theguardian.com/film/movie/108179/good.night.and.good.luck

http://www.huffingtonpost.com/2012/01/23/george-clooney-good-night-and-good-luck-anger_n_1222202.html

http://www.dailyscript.com/scripts/Good_Night_and_Good_Luck.pdf

Ficha técnica:

Título Original: Good Night, and Good Luck 

Ano de Lançamento: 2005

Direção: George Clooney

Roteiro: George Clooneye e Grant Heslov

Produção: Grant Heslov

Fotografia: Robert Elswit

Direção de Arte: Christa Munro

Edição: Stephen Merrione

Cantora: Diane Reeves

Distribuição: Warner Bros.

Elenco: David Strathairn (Edward R. Murrow); Robert Downey Jr. (Joe Wershba); Patricia Clarkson (Shirley Wershba); Ray Wise (Don Hollenbeck); Frank Langella (William Paley); Jeff Daniels (Sig Mickelson); George Clooney (Fred Friendly); Tate Donovan (Jesse Zousmer); Thomas McCarthy (Palmer Williams); Matt Ross (Eddie Scott); Reed Diamond (John Aaron); Robert John Burke (Charlie Mack); Grant Heslov (Don Hewitt); Alex Borstein (Natalie); Rosie Abdoo (Millie Lerner)

Trailer:

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