O Custo da Coragem – Verônica Guerin

Por: Aline Pádua

         260x365_519ebbf81e71d 26 de junho de 1996. A jornalista irlandesa Veronica Guerin, do Sunday Independent, é assassinada dentro de seu carro quando estava parada em um cruzamento, na cidade de Dublin. O crime abalou a política da República da Irlanda e tornou Veronica um mártir para o jornalismo. Em 2003, o filme O custo da coragemVeronica Guerin na versão original – retrata nas telonas a trajetória da repórter-investigativa que denuncia o esquema de tráfico de drogas e corrupção em Dublin. A história de Guerin aparece também na trilha de Alto Risco (2001), com Joan Allen no papel da jornalista que foi rebatizada de Sinead Hamilton.

          Veronica Guerin (1959 – 1996) inicia tardiamente no jornalismo, aos 30 anos. Com passagens por publicações como Sunday Bussines Post e Sunday Tribute, onde denunciou escândalos na Igreja e em corporações do Estado, em 1994, Veronica passa a cobrir crimes ligados ao submundo das drogas, para o Sunday Independent. Suas investigações a colocaram frente a frente com a realidade dos subúrbios de Dublin, com bandidos e barões das drogas, a levaram fundo no mundo do crime, culminado em seu assassinato. Em O custo da coragem questionamentos sobre o papel social do jornalista, os limites do jornalismo investigativo e os crimes contra os profissionais de imprensa são trazidos à tona.

          As cenas iniciais do longa-metragem mostram Guerin como réu em um julgamento, no dia 26 de junho de 1996. Ela é multada em 100 libras e recebe uma advertência por dirigir acima da velocidade, entre outras infrações de trânsito. Ao sair do tribunal, Veronica dirige, enquanto fala ao celular, comemorando por não ter perdido a carteira de habilitação. Na sequência, ela para em um cruzamento com semáforo. Dois homens de moto se aproximam um deles quebra o vidro ao lado de Veronica e atira seguidas vezes. Essa mesma cena, será reapresentada ao final do filme, dessa vez, mostrando o foco dos assassinos. Em um salto no tempo, a narrativa nos leva de volta a 1994, ano em que se iniciam as investigações sobre o tráfico de drogas.

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          Veronica aparece em um bairro do subúrbio de Dublin. Por todos os lados há vestígios do domínio das drogas. Crianças de várias idades estão pelas ruas e brincam em meio às seringas e frascos espalhados pelo chão. A protagonista (interpretada por Cate Blanchett) entra em um dos prédios e conversa com usuários de drogas. O cenário é de destruição e abandono. Um dos jovens com quem Guerin conversa nessa cena reaparece pouco depois na trama, quando um morador de um dos bairros afetados pela criminalidade leva Veronica para conhecer a rotina das ruas. Neste trecho, o jovem é convidado a colaborar com as investigações, mas foge assustado. Antes, porém, oferece se prostituir para comprar mais heroína. O quadro apresentado pelo filme explica uma das falas de Veronica: “Eu adoro isso. Adoro meu trabalho. Finalmente fazer alguma coisa que fará diferença” e o sentimento refletido pela personagem de tornar o jornalismo não só uma fonte de sustento, mas um dever social.

          As investigações prosseguem, agora com um informante ligado ao crime, John Traynor (Ciarán Hinds). As informações de Traynor, chamado de “O treinador”, na versão brasileira, levam Guerin a aprofundar suas investigações tendo como foco um criminoso conhecido como “O Monge”. Pouco depois, a protagonista recebe um primeiro aviso na tentativa de detê-la: um tiro é disparado contra uma das janelas de sua casa. Veronica, porém, continua mergulhando mais fundo nas investigações e chega à figura de John Gilligan (Gerard McSorley), um dos barões das drogas. Mais tarde, a protagonista recebe um alerta: é surpreendida em sua casa por um homem encapuzado que atira contra ela, atingindo sua perna. Veronica prossegue com a reportagem. Na procura pelo mandante do atentado, Guerin vai ao encontro de vários criminosos de Dublin e entrega uma carta com os dizeres: “Você é responsável pelo meu atentado?”. Ao procurar Gilligan, ela sofre agressões físicas e, posteriormente, pelo telefone, recebe ameaças contra seu filho. Nesse ponto do filme, Guerin tem de tomar uma decisão: denunciar as agressões e ameaças à polícia ou continuar com o caso e contar a história. Pensar na sua vida privada e na segurança da família ou no dever de ofício? Ela continua imersa na investigação. E o preço é alto.

          A morte de Veronica Guerin está marcada: 26 de junho de 1996. Ao optar por contar uma história e denunciar os barões do crime em Dublin, Guerin escolhe também o caminho da morte. Uma das falas da protagonista para sua mãe, ao rememorar uma cena da infância, ilustra a decisão: “Mas eu consegui a bola, não é mesmo?”.  Sua morte resultou na alteração da Constituição Irlandesa, na investigação e punição de traficantes e barões do tráfico.

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          À primeira vista, o papel do jornalista como agente do quarto poder, como “cão-de-guarda” social sobressai em O Custo da Coragem. A temática não é novidade. Filmes já apresentados neste blog, como “Boa noite e boa sorte” (2005) e “Intrigas de Estado” (2009), mostram, em diferentes contextos, a atuação do jornalista como quarto poder. Neste aspecto, merecem destaque alguns questionamentos que podem ser levantados, a partir do filme, em relação a esta pretensa função jornalística na sociedade. Afinal, é papel do jornalismo e do jornalista ser um vigia social? Sem dúvida, uma pergunta que divide opiniões entre os profissionais e pesquisadores da área. De um lado, autores como Venício de Lima colocam a atuação do jornalismo como quarto poder, ou contrapoder, como uma ilusão que não faz mais sentido na sociedade atual, onde as mídias se tornaram conglomerados comerciais com interesses próprios. De outro, vemos a atuação destes mesmos conglomerados de mídia na exposição de denúncias e escândalos ligados, sobretudo, ao Estado e, muitas vezes, atendendo às demandas da sociedade ou grupos sem representação.

          No mesmo sentido, outra problemática aflora no filme: o jornalismo investigativo e seus limites. Em seu site, a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) define jornalismo investigativo “como sinônimo de jornalismo responsável, informações bem apuradas, com todos os lados ouvidos. Em resumo, reportagens que abordem de maneira extensiva um determinado assunto”. No mesmo sentido, um manual para jornalistas investigativos organizado pela UNESCO, em 2013, coloca que “o jornalismo investigativo envolve expor ao público questões que estão ocultas – seja deliberadamente por alguém em uma posição de poder, ou acidentalmente, por trás de uma massa desconexa de fatos e circunstâncias que obscurecem o entendimento. Ele requer o uso tanto de fontes e documentos secretos quanto divulgados”.

          Partindo da conceituação da prática investigativa e relacionando-a a atuação da jornalista Veronica Guerin na década de 1990, em Dublin, pode-se refletir até que ponto expor ao público questões que estão ocultas e, mais que isto, ser o agente de investigação destas questões, é função do repórter, ou seja, quais seriam os limites do jornalismo investigativo? Mesmo quando a segurança pessoal e do universo privado estariam ameaçados? No caso de Verônica, o paroxismo chega à morte. No caso de Tim Lopes, jornalista brasileiro, que investigava a denúncia de exploração sexual de menores e consumo de drogas durantes bailes funk financiados por traficantes no Rio de Janeiro, a tortura e a morte.

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          Nesse ponto, cabe pensar sobre outro aspecto retratado na história de Guerin, assim como na de Tim Lopes: a violência contra jornalistas no exercício da profissão. Somente este ano, 2014, 31 profissionais de imprensa foram mortos, segundo dados do (Comitê para a Proteção de Jornalistas). A instituição aponta a Síria como o país em que estes profissionais são mais ameaçados, com cinco mortes, seguida de Iraque, Faixa de Gaza e Ucrânia, com quatro. Afeganistão e Brasil entram na sequência. Desde 2000, foram 741 jornalistas mortos e 2.012 detidos. Para a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), a violência contra jornalistas diminuiu em 2014 no Brasil, em comparação a 2013, mas o número de assassinatos voltou a subir.  Foram 79 casos de agressões e três mortes, duas delas, com características de crime encomendado.

          O custo da coragem de Guerin foi a morte. Seu assassinato nos é apresentado logo no início da trama e seu porquê se constrói ao longo da narrativa. Com vários pontos de virada e uma dramaticidade carregada de escuros, o longa metragem é uma boa indicação tanto para estudantes e profissionais da área que queiram refletir sua atividade, quanto para o público em geral, pois retrata a rotina e as tensões do trabalho jornalístico. O problema é que a história de Guerin é narrada em perspectiva épica, da heroína que não titubeia, morre pela causa profissional à serviço da sociedade. Quem se arrisca?

Links e Referências Interessantes:

ALLOUM JR, J. Verônica Guerin (1958-1996) – Uma Mulher Estraordinária. Disponivel em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/uma_mulher_extraordinaria

ROSSETTI, R.; DROGUETT, J.; PETTINATI, A. R.  A ética profissional do jornalismo e o filme “O custo da coragem, Verônica Guerin”. Revista ALTERJOR. Ano 4, v.01, ed. 7, jan./jun. 2013. Disponível em:http://www.usp.br/alterjor/ojs/index.php/alterjor/article/view/aj7-a14/pdf_114

BEZERRA, P. M. Jornalismo investigativo no cinema: análise dos filmes O Informante e o Custo da Coragem. Monografia (TCC – Comunicação Social – Jornalismo). Campina Grande: Universidade Estadual da Paraíba. 2014. Disponível em: http://dspace.bc.uepb.edu.br:8080/xmlui/bitstream/handle/123456789/5182/PDF%20-%20Priscila%20Moura%20Bezerra.pdf?sequence=1

http://www.theguardian.com/theobserver/2003/aug/03/features.review27

Ficha Técnica:

Título Original: Veronica Guerin

Ano: 2003

Direção: Joel Schumacher

Produção: Jerry Bruckheimer

Roteiro: Carol Doyle e Mary Agnes Donohue

Trilha Sonora: Harry Gregson-Williams

Edição: David Gamble

País: EUA, Reino Unido, Irlanda

Elenco: Cate Blanchett, Gerard McSorley, Ciarán Hinds, Brenda Fricker

Trailer:

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