Tudo por um Furo (O Âncora 2 – A Lenda Continua)

Por: José Carlos Marques

          212849Jornalistas e o próprio jornalismo não deveriam ser levados tão a sério. Esta é uma das lições que temos ao assistir à comedia Tudo por um Furo (O Âncora 2 – A Lenda Continua,  continuação do O Âncora: a Lenda de Ron Burgund.  São filmes como estes que justificam a referência ao jornalismo quando se evoca a célebre frase atribuída ao chanceler alemão Otto Von Bismarck (1815-1898), segundo o qual, “Leis são como salsichas; é melhor não saber como são feitas”. Para muitos, se as pessoas soubessem igualmente como são feitos os jornais, seria melhor que eles não fossem lidos.

          Os dois filmes em questão, entretanto, não se debruçam sobre o meio impresso, mas sim sobre a produção dos telejornais nas emissoras de TV norte-americanas. Na primeira película, já comentada neste mesmo blog pelo Prof. Claudio Bertolli (https://ojornalismonocinema.wordpress.com/2014/10/28/o-ancora/#more-275), temos a história de Ron Burgundy (Will Ferrel), jornalista que apresenta um telejornal local em San Diego, na Califórnia, no início dos anos 70.

          Líder inconteste de audiência, Burgundy conta com o auxílio de três outros profissionais que o acompanham na elaboração do telejornal no Canal 4: os caricatos Brick Tamland (Steve Carell, o homem da previsão do tempo); Champ Kind (David Koechner, comentarista esportivo); e Brian Fantana (Paul Rudd, repórter mulherengo). Certo dia, porém, a rotina deles e do programa é radicalmente modificada quando chega à emissora a jovem e ambiciosa jornalista Veronica Corningstone (Christina Applegate), que sonha com a apresentação de um telejornal em rede nacional.

          Começamos por falar sobre O Âncora: a Lenda de Ron Burgundy porque O Âncora 2 se inicia justamente com uma das temáticas mais exploradas no filme original: a presença feminina e sua ascensão no mercado televisivo dos Estados Unidos. No novo filme, passado nos anos 80, o casal Ron Burgundy e Veronica Corningstone continua a dividir a bancada de um telejornal, só que, desta vez, veiculado às 18h20min em rede nacional pela WBC e produzido em Nova Iorque. Os dois, agora casados, têm um filho de sete anos e levam uma vida próspera e tranquila – ainda que estagnada pela própria rotina e pela falta de perspectivas profissionais.

          Tudo isto é alterado quando Mack Tannen (interpretado por Harrison Ford), editor e apresentador do principal telejornal noturno da WBC, convida Veronica para apresentar o programa em seu lugar. Ela seria a primeira mulher do país a tornar-se âncora principal de uma rede de notícias. De quebra, demite Ron Burgundy, sob a alegação de que ele era o “pior âncora da história”.

ANCHORMAN 2: THE LEGEND CONTINUES

          As mudanças profissionais que envolvem o casal Burgundy provocam uma crise conjugal entre eles e levam-nos à inevitável separação. É então que surge uma nova reviravolta na vida de Ron: o convite para integrar o projeto da GNN, uma emissora que estava montando seu casting e que iria inaugurar um novo formato na televisão norte-americana: o de um canal all news, com 24 horas de notícias.

          Ron Burgundy recruta seus três colegas da época do Canal 4 de San Diego e apresenta-se com sua equipe à GNN, sediada também em Nova Iorque. No novo trabalho, fica a saber que iria ocupar o pior horário da grade da emissora (o da madrugada, entre as 2h e as 5h da manhã) e que seria chefiado por uma editora negra, Linda Jackson (Meagan Good), que ainda o assediará e com quem virá a envolver-se posteriormente. A par da presença cada vez maior das mulheres no mercado de trabalho, o filme aponta agora para a luta pela igualdade racial nos Estados Unidos.

          Em pouco tempo, Ron começa a ganhar cada vez mais espaço na emissora, a ponto de ser transferido para o horário nobre do canal, ocupando o lugar do principal âncora da casa. A nova “receita” para obter audiência deixa de lado os princípios deontológicos do jornalismo e apela para o sensacionalismo barato, por meio de conteúdos escatológicos, eróticos e bizarros. O insight dado por Ron tem a ver com uma mudança conceitual do telejornalismo nos Estados Unidos: em vez de dizer o que as pessoas têm de ouvir, porque não dizemos o que as pessoas querem ouvir? Não se poderia deixar de lado as matérias investigativas – e a primeira sugestão é verificar a quantidade de esperma ejaculado em edredons de hotéis (sic)! No final das contas, o programa de estreia inicia-se com uma série de 11 matérias sobre o poder e o mistério da vagina humana.

          Nos programas seguintes, a apelação pela audiência é crescente. A equipe de jornalistas de Ron Burgundy chega a fumar crack ao vivo, no estúdio, durante a apresentação do telejornal. E o artifício de se recorrer a soluções gráficas invade igualmente a tela da televisão, como se vê na imagem a seguir:

 tudo por um furo 2

          O cúmulo da criatividade para combater a concorrência dá-se quando a ex-mulher de Ron, Veronica Corningstone, prepara-se para entrevistar na WBC o líder da Organização pela Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat. A jornalista está convicta de que iria realizar o maior e mais importante trabalho de sua vida, mas é surpreendida pela iniciativa de Ron, que, em seu telejornal, começa a transmitir ao vivo uma perseguição policial nas ruas de Milwaukee. A novidade leva a GNN ao topo da audiência, a ponto de a entrevista com Arafat ser tirada do ar pela WBC para que o canal transmitisse igualmente a “notícia” do canal concorrente. O próprio Arafat redefine os critérios de noticiabilidade ao dizer para Verônica: “Eu também quero acompanhar a perseguição!”.

          Normalmente, filmes sérios e já clássicos sobre jornalismo costumam colocar em destaque as questões que envolvem o campo profissional, entremeadas vez ou outra com tramas românticas e intrigas pessoais vivenciadas pelos jornalistas. São os casos das quase sempre citadas películas Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941), A montanha dos sete abutres (Ace in the hole, 1951), A Doce Vida (La dolce vita, 1960), Todos os Homens do Presidente (All the President’s Men, 1976), O Quarto Poder (Mad City, 1997), entre outras. No caso de O Âncora e O Âncora 2, temos o contrário: questões pessoais e familiares dos jornalistas assumem protagonismo e são entremeadas com aspectos espinhosos da prática jornalística, vistos aqui com humor e ironia, sem que se deixe de apelar à reflexão do público.

          É o que vemos, por exemplo, na inauguração da GNN, quando o antigo editor de Ron Burgundy no Canal 4 pergunta a si mesmo: “Vinte e quatro horas de notícias. Onde é que vão encontrar matérias para continuar com isso?” Ele mesmo responde: “Tenho a sensação de que eles manterão a integridade e apenas irão transmitir notícias que merecem ser transmitidas”. Não é isso que vemos em O Âncora 2, que explorará a perda de princípios do telejornalismo norte-americano em busca da audiência. Não haverá mais notícias a serem transmitidas, pois o que interessa é o faturamento e o número de telespectadores (não à toa, este filme recebeu em Portugal o título de “Que se lixem as notícias”).

          Outro artifício bem humorado de O Âncora 2 está no tratamento dado à guerra de audiência entre as emissoras WBC e GNN, que fazem alusão, respectivamente, às emissoras NBC e CNN. O novo canal de 24 horas de notícias, aliás, pertence a um magnata australiano, também numa referência bem-humorada à figura de Rupert Murdoch, dono hoje de algumas gigantes do mercado de comunicação, como a FOX, SKY e DirecTV. As novidades tecnológicas não deixam de ser tratadas com humor, como na passagem em que Brick Tamland, em frente ao croma key, deixa de enxergar suas pernas, uma vez que o mapa do tempo está projetado no monitor, e não a suas costas.

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          Nos poucos momentos “sisudos” do filme, destaca-se a questão (utópica) pela busca da verdade. A equipe de Ron produz uma matéria intitulada “A morte que vem do céu” sobre problemas estruturais dos aviões da Koala Airlines, empresa aérea australiana que, não por coincidência, pertence ao mesmo dono da GNN. A editora Linda Jackson pede a Ron que não leve a matéria ao ar, atendendo ao princípio da “sinergia”. Mais tarde, num desabafo em frente às câmeras, Ron dirá que o público “merece sempre a verdade”.

Já uma das cenas mais simbólicas de O Âncora 2 recupera uma ideia utilizada no filme original: o da luta metafórica entre as emissoras de TV, com uma guerra campal “de verdade” entre os jornalistas. Em O Âncora, a batalha dá-se em meio a armazéns abandonados na periferia de San Diego e envolve as emissoras locais. No novo filme, a batalha ocorre numa praça de Nova Iorque e reúne as cadeias nacionais, com destaque para duas emissoras reais que ganhavam corpo nos anos 80: a MTV e a ESPN. A batalha campal na guerra pela audiência é recheada por estrelas de peso, como Jim Carrey, Marion Cotillard, Liam Neeson, Will Smith e Sacha Baron Cohen (o jornalista Borat). Única regra: não se pode tocar o rosto ou o cabelo dos jornalistas!

Comenta-se sobre uma possível continuação da saga de Ron Burgundy e o lançamento de O Âncora 3. Seria interessante discutir as práticas jornalísticas em meio à Internet e as redes sociais do Século XXI, uma vez que o cenário dos dois primeiros filmes é quase arcaico para as novas gerações. Além disso, algumas das anedotas e referências de O Âncora 2 não fazem tanto sentido no Brasil e não provocam a mesma graça entre nós do que entre o público norte-americano. Há diversas passagens dispensáveis e patéticas ao longo de duas horas. A despeito disto, o filme diverte com leveza e com ironia, ao expor de maneira divertida a maneira como as salsichas, ou melhor, o jornalismo é feito. E fazendo jus ao bordão de que a notícia não está no fato de o cão morder o homem, mas sim no fato de o homem morder o cão, o espectador de O Âncora 2, à semelhança do que já ocorrera em O Âncora, não pode deixar de prestar atenção em Baxter, o singelo cãozinho de estimação de Ron Burgundy.

FICHA TÉCNICA:

Título original: Anchorman 2: The Legend Continues

Direção: Adam McKay

Roteiro: Will Ferrell   e Adam McKay

Ano: 2013

País: EUA

Gênero: Comédia

Elenco: Will Ferrel, Steve Carell, Paul Rudd, David Koechner, Christina Applegate.

Links e referências interessantes:

http://www.theguardian.com/film/anchorman-2-the-legend-continues

ANDRADE, Fabio. Comédia ostentação. Cinética – Cinema e Crítica. Disponível em: http://revistacinetica.com.br/home/tudo-por-um-furo-anchorman-2-the-legend-continues-de-adam-mckay-eua-2014/

Trailer:

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