Uma manhã gloriosa

Por: Priscila Belasco

            10899612_10203337329215669_1806237471_nEm 2010, Rachel McAdams teve como missão no cinema interpretar uma autêntica workaholic e turbinar a audiência de um programa matinal chamado DayBreak para salvar a própria carreira como jornalista, que estava aos tropeços depois de uma repentina e surpresa demissão em um programa de notícias local. Na pele da produtora executiva Becky Fuller, a protagonista atua ao lado de estrelas como Harrison Ford e Diane Keaton no filme Uma Manhã Gloriosa (Morning Glory), comédia romântica estadunidense dirigida por Roger Michell. Retratando uma profissional dedicada e intensa, o foco fílmico é a busca desenfreada pela receptividade do público televisivo, que aprova ou condena a programação através do controle remoto.

            Becky perde seu emprego; é substituída por alguém mais experiente e oneroso que destrói suas pretensões de ser promovida. Sem se importar com emissora ou remuneração salarial, ela encontra espaço na equipe do DayBreak, programa matinal problemático com dias contados. Becky é jovem, extremamente segura com a carreira que escolheu e esforçada a ponto de deixar sua profissão influenciar em aspectos pessoais, por exemplo, em sua vida amorosa. O filme, que carrega um tom alegre e descontraído em todos os 107 minutos, tem um viés romântico e aborda algumas características importantes do mass media: o vício pela informação, a necessidade de estar sempre antenado com as notícias do mundo, temendo se desconectar e perder algum dado vital, a dominância da vida profissional sobre a privada, a acirrada competividade entre os profissionais, valorização da alta audiência obtida por qualquer programação medíocre que funcione para manter a empresa rentável. A jornalista é cercada por aparelhos televisivos ligados em diferentes noticiários e tem como fiel escudeiro seu blackberry, que não deixa a moça esquecer que o mundo não para um segundo. Em uma cena, quando um colega de trabalho pergunta se ela namora ou tem filhos, Beky debocha da pergunta, evidenciando que sua vida pessoal se mescla com a profissional. Ela é mais que mulher, esposa, mãe ou a amiga Becky Fuller, mas, antes de tudo, a jornalista Becky Fuller.

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            Rachel McAdams, que também viveu a jornalista Della Frye no filme Intrigas de Estado (Kevin Macdonald), também analisado neste blog, incorpora em Uma Manhã Gloriosa os desafios de vender o “produto” jornalístico, vender uma mercadoria que não estava mais cativando o público-alvo. Diferente da profissional de Intrigas de Estado que ao longo da obra trabalha em uma reportagem investigativa de impacto nacional, a profissional do DayBreak apela para o carisma do programa, talvez o aspecto mais óbvio abordado no filme. A audiência estava baixa e o programa, prestes a ser cancelado, com no máximo seis semanas de vida antes de sair do ar. Com a tarefa hercúlea de alavancar os números e administrar dois âncoras que disputam quem dirá o último Good Bye do show, Becky vira o placar a seu favor e fortalece um programa que apenas sobrevivia na emissora. Usando artimanhas como colocar um repórter para andar na mais nova montanha russa da região ou fazer sua âncora Colleen Peck (Diane Keaton) beijar um sapo ao vivo, a produtora deu maior prestígio e segurança diante dos telespectadores e mostrou competência ao seu chefe Jerry Barnes, interpretado por Jeff Goldblum.

            O filme, que não pretende trazer uma reflexão séria sobre a realidade midiática, identifica, ao menos, o esforço de uma jornalista em dar ao público o que ele quer ou de submeter-se à expectativa óbvia da parte do público. O programa, que já nasceu com uma essência mais descontraída, andava mau das pernas. Para reavivá-lo, Becky potencializou sua proposta com elementos lúdicos e o distanciou ainda mais dos noticiários sóbrios, marcados pela objetividade e frieza características. Esse aspecto do filme mostra que a audiência televisiva é muito mais receptiva com programas de baixo teor informacional e analítico. Quando quadros com animais, rappers, ou a cena de um possível ataque cardíaco diário em um dos repórteres são incorporados no DayBreak, o alcance na sociedade cresce exponencialmente. Mesmo o esforço da jornalista sendo visto como positivo, na medida em que dá credibilidade ao show, acaba passando uma impressão de que qualquer coisa beirando o ridículo é válida para salvar um programa, como a cena em que Colleen e Mike digladiam-se verbalmente quando se despedem ao vivo do público, escandalizando até mesmo quem estava acostumado com o viés humorístico do programa.

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            Vivido por Harrison Ford, Mike Pomeroy é a encarnação de um maduro jornalista com oito prêmios Peabodys na carreira, um Pulitzer, 16 Emmys e um arsenal de exigências que o transformam na terceira pior pessoa do mundo, segundo Adam Bennett (Patrick Wilson), outro produtor da emissora. Mike é o oposto do que propõe o programa que foi escalado para apresentar. Com mais de 40 anos de carreira, destacou-se por cobrir guerras, epidemias e estreitar laços com pessoas importantes; para ele, apresentar fofocas e receitas culinárias era humilhante e inapropriado para alguém renomado como ele próprio. Pomeroy é um homem amargo e isolado, praticamente sem contato com a família e incapaz de criar novos laços de amizade. Viveu a profissão exemplarmente, mas assim como Becky, deixou em segundo plano sua vida pessoal e acabou sozinho com muitos prêmios e quadros no apartamento. Ao mesmo tempo em que o filme aborda a questão da pro-atividade no ambiente de trabalho, da vontade de enfrentar as adversidades e tirar as pedras do caminho, aborda também o excesso disso tudo, o perigo de não saber colocar limites entre áreas distintas da vida. O personagem reproduz o estereótipo do profissional que suprime a vida privada, submete-se a imperativos que se impõem com riscos de bagunçar estruturas familiares e afetivas.

            Um dos pontos favoráveis da obra é o fato de que o romance, tão presente nos filmes comerciais, não é explorado de forma insistente, nem está em primeiro plano.  O relacionamento de Becky e Patrick é um lugar-comum, já que ela é desastrada e um pouco infantil e ele sedutor e confiante; mas não fica claro qual o envolvimento desse contraste na trama, se é algo passageiro ou mais prologado. O principal é mostrar a profissional mulher e muito jovem ocupando um cargo importante dentro de uma emissora cheia de veteranos, mostrar que o papel dela não é de subordinação, mas de chefia, equiparando-a com o namorado que também é produtor. Becky é a mocinha buscando ascensão profissional e não a mocinha esperando o príncipe encantado.

            Uma Manhã Gloriosa, apresentando um roteiro previsível e personagens óbvios, atua mais como entretenimento do que como material extra para as observações do campo da comunicação social. Mesmo assim, reforça características do jornalismo que podem servir de alerta para os profissionais saídos do forno: a pro-atividade para não ser e fazer mais do mesmo e o cuidado para não se afogar nas informações e viver exclusivamente para o trabalho. Aborda também a questão da amizade no ambiente profissional, os laços afetivos que se formam e que se mostram mais importantes do que um emprego melhor remunerado em um programa com maior prestígio. Ao mesmo tempo, entreabre para estampar a mediocridade da produção televisiva travestida de jornalismo e voltada para o grande sucesso de público. Com um elenco excelente, Morning Glory é válido para uma sessão pipoca e algumas risadas, mesmo que o final da trama seja percebido logo nos 30 minutos iniciais.

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 Links e referências interessantes:

CORREIA, William. Jornalista como personagem no cinema: a representação dos jornalistas nos filmes Uma Manhã Gloriosa e Intrigas de Estado. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Jornalismo). Santa Maria: Centro Universitário Franciscano, 2012.  Disponível em: http://lapecjor.files.wordpress.com/2011/04/o-jornalista-como-personagem-no-cinema-a-representac3a7c3a3o-dos-jornalistas-nos-filmes-uma-manhc3a3-gloriosa-e-intrigas-de-estado.pdf

SIQUEIRA, Emanuela. Interrogação. Disponível em:http://interrogacao.com.br/2011/04/critica-uma-manha-gloriosa/.

BORGO, Érico. Omelete. Disponível em:http://omelete.uol.com.br/cinema/uma-manha-gloriosa-critica/#.ViwxNSvF-aA.

 FICHA TÉCNICA:

Título Original: Morning Glory

Direção: Roger Michell

Roteiro: Aline Brosh McKenna

Produção: J.J. Abrams, Bryan Burk

Gênero: comédia

Ano de produção: 2010

País: Estados Unidos

Música: David Arnold

Lançamento: 10 de novembro de 2010 (EUA) e  1 de abril de 2011 (Brasil)

Elenco: Rachel McAdams (Becky Fuller), Harrison Ford (Mike Pomeroy), Diane Keaton (Colleen Peck), Patrick Wilson (Adam Bennett), John Pankow (Lenny Bergman), Jeff Goldblum (Jerry Barnes), Matt Malloy (Ernie Appleby), Ty Burrell (Paul McVee), Patti D’Arbanville (Sra. Fuller).

Trailer:

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