A Chave de Sarah

Por Nayara Kobori

221745          Paris, julho de 1942. Enquanto a pequena Sarah Starzynski (Mélusine Mayance) brinca com seu irmão mais novo Michel, pulsos fortes batem na porta do apartamento. Temendo pela sorte do menino, Sarah esconde o irmão em seu armário, tranca, guarda a chave e sai para ver o que estava acontecendo. De uniformes cinzas e rostos amargos, soldados franceses levam a menina e os pais (Natasha Mashkervich e Arben Bajraktaraj) para o Velódromo de Inverno e não sabem do menino preso no armário. Décadas depois, o drama seria reconstruído por uma jornalista persistente, voltada para a investigação jornalística de caráter histórico, desvendando memória ocultas e silenciadas. E o que vem a tona nos choca.

          Em toda a cidade, mais de 13 mil judeus franceses passaram cinco dias no local, em precárias condições de higiene, pouca comida e água. Sabendo o que os aguardava, muitas pessoas se suicidaram ali mesmo, ou esperaram para ser conduzidos aos campos de concentração de Drancy e Auschwitz. Sarah tinha os cabelos colados na testa pelo suor e pela preocupação. Queria sair logo dali para buscar Michel. E ela tentaria de tudo para rever o irmão.

          Paris, 2009. A jornalista Julia Jarmond (Kristin Scott Thomas) se muda para um apartamento antigo, herança da família de seu marido Bertrand (Frédéric Pierrot). Em um dos quartos, há um armário escondido, mas ela não sabe. Julia está escrevendo sobre o episódio do Velódromo de Inverno – o genocídio que os franceses querem esquecer e muitos sequer ouviram falar. Muito mais do que uma reportagem, a jornalista abre uma porta no passado que se encontra com sua própria história presente.

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          As duas histórias se entrelaçam no enredo de “A Chave de Sarah”, dirigido por Gilles Paquet-Brenner, adaptação do romance homônimo de Tatiana De Rosnay, inspirado na história real e de grande sucesso na França. O filme demonstra como o jornalismo e a história estão próximos, por meio da investigação jornalística do passado e da narrativa de fatos. O episódio do Velódromo de Inverno mostra mais uma face do totalitarismo nazista que tomou a Europa, que pregava contra judeus, além de revelar como a França compactuou com o governo de Hitler. Julia resgata a memória que os franceses preferiam esquecer.

          A trama se desenrola por meio da expectativa e da esperança. Mesmo em tempos diferentes, as histórias de Sarah e Julia se sobrepõem – e em ambas, há o desejo de ver Michel. Embora o sentimentalismo também seja uma estratégia para atrair o público, não há como não se emocionar com a explicitação dos fatos reais que ocorreram em 1942 e como esses momentos influenciaram nas vidas dos sobreviventes. A atuação da pequena Mélusine Mayance é impecável: a atriz consegue passar como Sarah perde sua inocência aos poucos e qual o reflexo disso para o seu futuro como adulta.

          Tanto no livro, quanto no filme, Sarah tem a ânsia de viver, por saber que ainda guarda a chave. Mesmo após sobreviver ao episódio do Velódromo e aos dias no campo de concentração, Sarah passa a esconder o seu passado, assim, como toda a França escondeu o massacre de 1942 e colaboração com o nazismo. Mas, Sarah não se esconde por vergonha. Esconde-se por medo. “Michel, os anos se passaram e eu ainda tenho a chave. A chave do nosso esconderijo secreto. Está vendo? Eu guardei, dia após dia, tocando-a, lembrando-me de você. Jamais me separei dela desde o dia 16 de julho de 1942. Ninguém aqui sabe. Ninguém aqui sabe sobre a chave, sobre você. Sobre você no armário. Sobre papai e mamãe. Sobre o verão de 1942. Sobre quem eu realmente sou”.

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 Além dos fatos: jornalismo investigativo

          Quem já assistiu a outros filmes com a interpretação de Kristin Scott Thomas, como “Gosford Park” (2001), percebeu a capacidade de atuação da atriz, que transmite as emoções do personagem de forma única. Em “A Chave de Sarah”, Kristin encara o desafio de ser a jornalista Julia, que através da apuração de fatos acaba se envolvendo com a reportagem que produz. Apesar de rogar o senso comum que as práticas jornalísticas devem ser revestidas de neutralidade e objetividade, a narrativa do filme nos conduz para outra perspectiva: o enlaçamento do repórter com a história, como uma maneira de transmitir a emoção do acontecimento para o público. Em termos fictícios do longa, a personagem Julia também se envolve com a sua investigação jornalística, por fazer parte da sua própria história.

          O filme conta sobre a apuração do jornalismo investigativo em um episódio que se desenrolou na Segunda Guerra Mundial. Curiosamente, nos revela Géssica Brandino Gonçalves e o Prof. Dr. Sérsi Bardari, no trabalho “O papel do jornalista investigativo versus ética profissional”, publicado em 2010, que foi justamente no pós-Segunda Guerra que essa prática jornalística se desenvolveu. Os autores ainda defendem que o diferencial desse estilo de jornalismo “não é apenas a investigação em si, mas a maneira como esta é conduzida”. Em “A Chave de Sarah”, Julia se submete a uma rotina diferenciada, buscando fontes vivas e documentais para realizar a reportagem, ou seja, investigando os fatos, buscando novas fontes e checando as informações.

          Géssica Brandino Gonçalves e Sérsi Bardari também comentam que é já na concepção da pauta que a construção investigativa começa a se desenvolver. No filme, é possível perceber essa afirmação na cena da reunião de pauta, da qual é escolhido um tema pouco comentado pelos franceses. O episódio do Velódromo de Inverno, apesar de conhecido pelo país europeu, era escondido pela máscara da vergonha do povo, visto que uma página de preconceito e racismo culminou no assassinato de homens, mulheres e crianças na França nazista. A escolha desse tema para a reportagem de Julia já representa o desafio do filme: contar o que aconteceu em Paris no ano de 1942, sob a perspectiva jornalística, que está mesclada com a visão de uma das sobreviventes da Segunda Guerra.

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          O papel de Julia vai além de sua caracterização como jornalista – ela passa a ser a porta-voz de Sarah, que cresceu com a lembrança do Velódromo, do campo de concentração e com a memória de seu irmão trancado no armário. Muito mais do que levantar a discussão sobre passados escondidos, o diretor Gilles Paquet-Brenner mostra como determinados acontecimentos influenciam em nossa vida e como a prática investigativa pode ajudar no descobrimento da verdade. O longa “A Chave de Sarah” diz o que não podemos esquecer: somos todos produtos de nossa história. E devemos ir em busca dela.

Links e referências:

GONÇALVES, G. B. & BARDARI, S. O papel do jornalista investigativo versus ética profissional. Universidade de Mogi das Cruzes. 2010. Disponível em: http://sersibardari.com.br/wp-content/uploads/2010/11/GON%C3%87ALVES-G%C3%A9ssica-Brandino-O-papel-do-jornalista-investigativo-versus-%C3%A9tica-profissional.pdf.

MOURA, J. Crítica: “A Chave de Sarah”. Jornal do Brasil. 2011. Disponível em: http://www.jb.com.br/cultura/noticias/2011/11/18/critica-a-chave-de-sarah/

ROSNAY, T. de. A Chave de Sarah. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2010.

BULHÔES, Tanea. A Chave de Sarah. http://www.sinopsedolivro.net/livro/a-chave-de-sarah.html

http://50anosdefilmes.com.br/2012/a-chave-de-sarah-elle-sappelait-sarah/

Ficha Técnica:

Título Original: Elle s’appelait Sarah

Ano: 2010

Direção: Gilles Paquet-Brenner

Roteiro: Gilles Paquet-Brenner, Serge Joncour; baseado no romance “A Chave de Sarah”, de Tatiana De Rosnay

País: França

Elenco: Charlotte Poutrel, Frédéric Pierrot, Kristin Scott Thomas, Mélusine Mayance

Trailer:

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