Frost e Nixon

Por: Célio J. Losnak

             frost_nixon_posterO filme tem como questão central o embate entre entrevistador e entrevistado. O jornalista inglês Davi Frost (ator Michael Sheen) trabalhava em um programa televisivo na Austrália e decidiu entrevistar o presidente Richard Nixon (Frank Langella). A ousadia do projeto alavancaria a carreira profissional e ele passa a se dedicar à empreitada. O grande objetivo era conseguir a confissão de que o ex-presidente tinha responsabilidade direta no caso Watergate. Por sua vez, Nixon aceitou o desafio com a intenção de obter um bom cachê e registrar na mídia a sua atuação como presidente honesto, realizador e idealista. No filme, o confronto adquire a característica de um duelo entre hábeis interlocutores, com manobras de ataque, recuo, desvio, subterfúgio, blefe. A peleja é costurada por uma narrativa de suspense e capta o público ao delinear os dilemas e contradições das personagens na busca por um final vitorioso.

            A referência central do filme é o escândalo Watergate. Ele eclodiu em 1972 no período de campanha eleitoral entre Nixon, pelo Partido Republicano, e George McGovern, candidato do Partido Democrata, quando algumas pessoas foram presas por invadirem e espionarem o comitê do Partido Democrata. O logo trabalho jornalístico que desvendou e tornou público o caso foi publicado pelo The Washington Post tendo à frente os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein. Posteriormente, o caso foi publicado em livro e filmado no clássico Todos os Homens do Presidente.

            Até as eleições, o escândalo ainda não fora totalmente desvendado e Nixon venceu a disputa. No decorrer de 1974, provas evidentes apontavam a responsabilidade do presidente. Fitas com conversas gravadas na Casa Branca entre os espiões, os republicanos e Nixon tornavam as acusações irrefutáveis.  No mesmo ano, o presidente renunciou e foi anistiado. Sua vida entrou em um ostracismo.

Ocorreram negociações para a entrevista, ela foi gravada em 1977 na Califórnia e posteriormente transmitida por grandes redes de TV, atingindo vultoso público nos EUA e no mundo. O sucesso deu credibilidade à carreira de David Frost e comprovou para a opinião publica a culpabilidade de Nixon. Uma peça de teatro foi encenada em Londres sobre o caso e inspirou o diretor Ron Howard a rodar a película. Ele convidou os dois atores principais da peça para atuarem no filme e usou-a como referência. Howard e o roteirista coordenaram exaustiva pesquisa histórica, consultaram fitas originalmente gravadas na Casa Branca com o os agentes reais, usaram matérias televisivas da época e mantiveram contato com membros da equipe de Frost que preparou a entrevista.

O filme começa com uma retrospectiva do Caso Watergate, sobre as denúncias, em 1973, desdobramentos e a renúncia do Presidente Richard Nixon em 1974. Essa introdução é narrada por meio de recursos de documentário, apresentando trechos das gravações de conversas presidenciais, imagens televisivas de época (desde 1972). Outra estratégia usada é inserir os personagens, assessores de Frost, dando depoimentos, voltados para a câmara, falando sobre inúmeras passagens do trabalho e rememorando o passado. Reconstruindo uma narrativa memorialística em que os envolvidos falam se lembrando dos dilemas vividos naquelas semanas da entrevista e no período de preparação dela. O filme cria para o público a sensação de que tudo aconteceu daquela maneira, apesar da explícita diferença física entre o ator (Frank Langella) e o conhecido presidente Nixon.

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Como em outras ficções baseadas em casos reais, de antemão o público tende a se colocar como aquele que espreita os acontecimentos do passado, entrevê na tela a oportunidade de conhecer como realmente foram os fatos reconstruídos pela narrativa cinematográfica. A equipe que lidera a obra, diretor e roteirista, alimenta essa expectativa, procura atenuar as distâncias entre passado e presente, ficção e realidade. Lança mão de recursos documentais para contextualizar a trama e obnubilar a intenção da produção em construir um discurso interpretativo dos fatos e indutor de sentidos ao público.

À despeito das tensões entre realidade e ficção, o filme oferece o prazer de observar as armadilhas da entrevista, os jogos de sombras e forças que se desenrolam quando o jornalista busca a verdade que, caso exposta, pode oferecer perigo ao entrevistado. E, por outro lado, o entrevistado pretende construir uma boa imagem para o público, mas depende do controle do que é falado, da garantia de que muitas coisas sejam silenciadas. O falso e o verdadeiro deveriam ser seletamente escolhidos para emergirem e garantir, no mínimo, que Nixon não se expusesse ainda mais.

A narrativa apresenta o argumento financeiro como decisivo para que o ex-presidente aceitasse o desafio. Nixon já havia recusado a oferta de 350 mil dólares da CBS. Frost aceitou pagar 600 mil dólares, sendo que 200 mil foram adiantados por ele mesmo. A avaliação dos assessores do ex-presidente é que Frost não era um jornalista experiente e nem de alto estofo a ponto de se equiparar ao político no debate. Empresas, políticos e a grande mídia pensavam o mesmo. Avaliavam que Frost delirava, ousava fazer uma entrevista com Nixon no ostracismo, não era estadunidense e apenas tinha experiência em programas de variedades e entretenimento, tais como talk show. A rigor, ele não era jornalista. Todo o projeto teria custado dois milhões dólares e não havia financiamento certo. Tudo indicava para o fracasso.

Esse quadro delineia as dificuldades de Frost, mas também realça a visão aguçada, o faro jornalístico de que ali haveria um filão valiosíssimo. Ele remou contra a corrente, persistiu em suas convicções, superou os obstáculos, não esmoreceu diante das críticas e venceu no final. E a sua carreira atingiu outro grau de reconhecimento.

Film Title: Frost/Nixon

O filme narra a tensão da preparação e realização da entrevista. O presidente isolado, melancólico, amargurado pela derrota política, vendo a carreira desmerecida, tenta recuperar a imagem. Frost quer cavar a confissão de culpa. As equipes de ambos se armam para controlar o processo. O contrato prevê alguns procedimentos das doze sessões de um pouco mais de duas horas de gravação. Nixon estuda sua trajetória. Frost monta uma equipe, um professor e pesquisador que já havia escrito quatro livros sobre o ex-presidente, um jornalista político experiente e o coordenador do projeto. Eles vasculham arquivos, obtém novas informações para comprovar dados, ouvem as gravações das reuniões da Casa Branca. Tentam prever respostas, reações e comportamentos, objetivando sempre emparedar o entrevistado, fazer com que ele fale e não controle totalmente o processo.

As gravações são acompanhadas pelos dois grupos que rivalizam a cada passo dos interlocutores. No decorrer das sessões, Nixon consegue manobrar o tempo, conduz com maestria a conversa, esquivando-se das polêmicas e se apresentando como sério, realizador, dono de si e sensível. Na última, ocorre um redirecionamento.

Importante fazer aqui algumas considerações sobre entrevista. Embora o jornalismo use cotidianamente a técnica, não há na área razoáveis textos teóricos e reflexivos em português sobre o assunto. A história oral e a pesquisa com memória e histórias de vida tem produzido material esclarecedor para o trabalho. Uma questão a ser destacada é a necessidade de dominar o tema, o universo cultural e a trajetória de vida do entrevistado para poder extrair informações importantes. Tanto quanto a habilidades de perceber questões e ganchos a partir da fala do entrevistado, é conhecer o universo em que ele se move.

Frost Nixon movie image Michael Sheen, Oliver Platt, Sam Rockwell

Outro ponto importante que do mesmo modo que a pergunta é uma forma de delimitar o âmbito da resposta, o entrevistado pode agir com desenvoltura e também definir seu foco de atuação. Ambos conduzem a entrevista. Um busca descobrir e explicitar informações, o outro esconder algumas, realçar perspectivas e imprimir algumas ênfases.

Na última sessão, Frost tem informações novas e cruciais para encurralar o entrevistado e este muda de atitude. A emoção toma conta e Nixon avalia que é o momento de romper o silencio. Cabisbaixo, como estava desde o início, expressa a melancolia, reconhece que errou, afirma que se arrepende de ter burlado e obstruído a lei, pede desculpas ao povo americano e avalia que contribuiu para a imagem da política como prática corrupta. Frost vence, mas o que fica é a tensão e emoção do confronto de dois closes, dois fragmentos de faces. Uma delas estupefata pela revelação obtida e a outra pela amargura do erro, da derrota e do ostracismo. Final feliz para Frost e o jornalismo!

 Links e referencias interessantes:

CARVALHO, Livia Laroqui. A Entrevista Jornalística: de Frost a Nixon, de Nixon a Frost. TCC em Comunicação Social. Juiz de Fora: Universidade de Juiz de Fora, 2010.

STABOLITO JUNIOR. Ricardo. Frost/Nixon Disponível em: http://jornalismoecinema.wordpress.com/frostnixon/analise/

EBERT, Roger. Frost/Nixon. Disponível em: http://www.rogerebert.com/reviews/frostnixon-2008

AITKEN, Jonathan. Nixon v Frost: The true story of what really happened when a British journalist bullied a TV confession out of a disgraced ex-President. Disponível em: http://www.dailymail.co.uk/tvshowbiz/article-1127039/Nixon-v-Frost-The-true-story-really-happened-British-journalist-bullied-TV-confession-disgraced-ex-President.html

Ficha Técnica:

Título original: Frost/Nixon

País: EUA e Reino Unido

Direção: Ron Howard

Ano de Produção: 2008

Roteiro: Peter Morgan

Elenco: Frank Langella; Michael Sheen, Kevin Bacon, Rebecca Hall, Toby Jones, Oliver Platt, Sam Rockwell, Keith MacKechnie.

Trailer:

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