Caro Francis

O jornalismo de Paulo Francis entre a opinião e a realidade

Por: Jefferson O. Goulart

         20005622 Dele se dizia que era capaz de minutar uma resenha sem ler o livro em questão, de fazer uma crítica sem sequer assistir ao espetáculo teatral observado ou de pagar um jantar a quem, minutos antes, ofendera pública e impiedosamente. Nascido Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, este carioca briguento e de ares aristocráticos criou um personagem em torno de si e ganhou fama no mundo do jornalismo brasileiro como Paulo Francis.

          Ícone e quase mito de uma geração de jornalistas e críticos autodidatas que não frequentou escolas de jornalismo, Francis passou por alguns dos principais meios de comunicação de seu tempo: Última Hora, Tribuna da Imprensa, Pasquim, Folha, Estadão, Rede Globo. Formado no ambiente de uma cultura ilustrada, primeiro aderiu às ideias de esquerda – posou como brizolista e foi retoricamente adepto do trotskismo –, para depois fazer uma fulminante conversão à direita, dizendo-se finalmente admirador do liberalismo tupiniquim de Roberto Campos e republicano nos EUA. Assumia, assim, a carapuça de autêntico Calabar nos meios ilustrados em que circulava, e não disfarçava o prazer dessa provocativa perfídia.

          A vocação obsessiva para a polêmica se revelou o estilo adotado para ser protagonista. Francis selecionou alvos a granel e colecionou desafetos e inimigos em larga escala e em vários universos, passando por Tônia Carreiro, Paulo Autran ou Caetano Veloso nas artes até Lula e Bill Clinton na política, dentre centenas de outros. Costumava exaltar a tese atribuída a Millôr Fernandes segundo a qual “jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”. Mas encaixou sua profissão de fé ao trabalhar nas empresas de Roberto Marinho, de quem no passado falara cobras e lagartos.

          É este personagem nada banal que “Caro Francis” (direção de Nelson Hoineff, de 2009) reverencia. Apresentando no release oficial como “o jornalista que, à sua maneira, denunciou todos os dias a impossibilidade de existência de vida inteligente no pensamento dominante, não importa que pensamento fosse dominante no momento”, Francis é tratado quase miticamente como espécie de intelectual outsider. Tudo menos isso! Francis foi, sim, um homem do sistema, e se tornou ideologicamente reacionário e jornalisticamente obsoleto. E isso o filme de Hoineff não evidenciou adequadamente, transformando-se em um documentário chapa-branca que enaltece a generosidade, a inteligência e a invejável biografia de seu personagem.

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          O documentário tem uma narrativa simplificada e um roteiro convencional através de depoimentos de amigos mais íntimos, colegas de trabalho e sua esposa (Sonia Nolasco), entremeados por fotos, imagens e declarações de estúdio e de programas de TV do protagonista. Merecem destaque os testemunhos mais reveladores de Lucas Mendes, Hélio Costa, Nelson Mota, Ruy Castro, Boris Casoy, Diogo Mainardi, Fausto Wolff, Sérgio Augusto, Ziraldo, Luiz Schwartz e Daniel Piza.

          Tornar-se um pensador conservador não é um pecado mortal na civilização moderna, mas essa posição precisa ser assumida e sustentada. Francis migrou duplamente para “o lado de lá”, ou seja, nos planos da política e da cultura. Identificar-se com posições de direita é uma coisa, detratar seus interlocutores é outra. E essa incompreensão abreviará a própria vida do “mito”. Não foram poucas as vezes em que nosso personagem chamou os Clinton de “bandidos”, de “ Bonnie e Clyde”,  Bill de “jeca” e Hillary de “aquela vagabunda” no programa Manhattan Connection. Pode-se preferir os republicanos, mas ninguém deve acusar sem provas ou desqualificar o outro. E Francis se especializou na arte de detratar e desqualificar, como se sua reputação profissional dispensasse outras credenciais. Além disso, também não foram poucas as circunstâncias em que refutou a emergência de novas linguagens, estéticas e expressões artístico-culturais. Depois de Wagner e de sua eloquência, não haveria vida inteligente!

          Essas opções eram justificadas por se tratar de um jornalista de opinião – característica comum de sua geração, que se notabilizou menos, por exemplo, no jornalismo investigativo. O gosto pelo gênero literário herdado do new journalism parecia encontrar seu lugar na mídia brasileira. Percurso que, por sinal, não foi exclusivo de Francis. Há uma passagem marcante no documentário em que o personagem tenta adaptar-se aos novos tempos: “a minha tendência, que é de escrever, de discutir e de ter opiniões, está caindo muito de moda. Agora é tudo muito curto, pequenininho… Mas eu também sei escrever curto e pequenininho, eu sei escrever texto de um minuto”.

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          Óbvio que as mudanças do jornalismo contemporâneo não se resumem ao tamanho de um texto, embora este seja um sintoma emblemático. Ainda sobre a obsolescência, outro trecho crucial é o que opõe os depoimentos de Diogo Mainardi (caricatura de herdeiro do personagem “mítico”) e Caio Túlio Costa (então ombudsman da Folha de S. Paulo) e que aborda a saída de Francis para o Estadão. A gota d’água aconteceu quando o ombudsman qualificou seu texto de “crônica” e seu criador de “cronista”. A sentença soou como ofensa e desqualificação, muito embora a coluna “Diário da Corte” se caracterizasse precisamente por uma narrativa mais pessoal que não só não retratava necessariamente a linha editorial do jornal como se distinguia menos pelos fatos ou por suas interpretações e mais pela visão de Francis sobre a disputa eleitoral daquele longínquo 1989 que opunha Collor a Lula. Evidente que a crônica pode ser admitida como gênero jornalístico e que Francis não deixaria de ser um jornalista, mas ali se acentuavam as distinções entre a narrativa autenticamente cronística, o estilo opinativo, e a narrativa mais factual. Notável que, para Mainardi, Costa teria sido “mau caráter” porque “pegou os pontos frágeis de Francis”.

          A tensão entre literatura e jornalismo foi marcante na trajetória de Paulo Francis – simbolizada e sintetizada pela revelação de sua frustrada ambição de se tornar um “grande ficcionista” –, e verdadeiramente fatal foi o paradoxo entre ficção e realidade. Não há como exumar o corpo do “mito” para esclarecer de forma categórica sua causa mortis, mas há fartas evidências de que o ataque cardíaco que o vitimou (tratado como bursite) tivesse raízes em seu estado de ânimo em razão do processo movido pela diretoria da Petrobras nos EUA, que pedia dele uma indenização por danos morais de US$ 100 milhões.

          Francis “soube por amigos” que diretores da empresa seriam todos corruptos e teriam fortunas depositadas em bancos suíços, e fez a acusação no programa Manhattan Connection. Todos os depoimentos do filme corroboram a tese de que sua vida e seu humor mudaram decisivamente depois desses episódios. Por orgulho “profissional” não se retratou – mesmo porque humildade não constava de seu dicionário –, e se apavorava duplamente com a possibilidade de ser condenado: pela desonra jornalística e por não possuir tanto dinheiro.

          Curioso que o documentário revele as tentativas de amigos para que os altos dirigentes da Petrobras desistissem da ação judicial em um país de larga tradição liberal e conhecido pela “indústria das indenizações”, intermediação que chegou ao ministro do Planejamento (José Serra) e até mesmo ao presidente da República (Fernando Henrique). Aqui as relações promíscuas entre imprensa e poder são simplesmente ignoradas e, ademais, as tratativas são mostradas com escandalosa naturalidade.

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          Mais grave, porém, é que o filme não narre ou tampouco busque uma única voz para evidenciar o erro ético e profissional de Francis. Tudo é mostrado como se fosse um rompante inofensivo, quase um ato lúdico. Em Francis e em sua genialidade tudo deveria ser tolerado, afinal, para uma personalidade hiperbólica, qualquer devaneio superlativo era admissível. Não era. A propósito, críticas ao “mito” são sistematicamente qualificadas como “bobagens” tanto pelo personagem quanto por seus seguidores. Da mesma forma, são tratadas superficialmente as manifestações de racismo ou xenofobia e as não contestadas acusações de plágio.

          O problema não reside na personalidade do protagonista, que retoricamente afirmava que “qualquer opinião é válida”, mas que também invocava Churchill: “pode-se discutir quarenta minutos, desde que no final concordem comigo”. Francis foi leviano ao fazer a acusação contra os diretores da Petrobras, deu um péssimo exemplo de jornalismo ao satanizar uma instituição e seus dirigentes sem dispor de bases críveis e tampouco de provas. E não deixa de ser divertido (ou talvez tragicômico) que seus órfãos enfatizem o caráter “visionário da denúncia”. Como se diz, em uma sociedade democrática, ao acusador cabe o ônus da prova, e quem julga é o Judiciário independente. No bom jornalismo, em qualquer tempo, não se deve passar a mão na cabeça de quem comete uma leviandade – como faz “Caro Francis”.

          Que o personagem Paulo Francis era dotado de uma rara inteligência é difícil contestar, mas é de se pensar se seu legado para o jornalismo deve ser mesmo sacralizado. Essa resposta certamente não está em “Caro Francis”, ainda que assisti-lo seja divertido e revele tons de drama e de comédia. Como em uma clássica crítica teatral, gênero no qual nosso personagem se iniciou e que marcou sua trajetória, Enfim, um cronista admirável e um jornalista discutível que, como o próprio jornalismo, não está acima do bem e do mal.

Links e referências interessantes:

http://conversadebotequimonline.blogspot.com.br/2013/05/materia-sobe-caro-francis-publicada-em.html

http://www.cinemaemcena.com.br/plus/modulos/noticias/ler.php?cdnoticia=2511

http://www.revistacinetica.com.br/carofrancis.htm

Ficha Técnica

Ano: 2009

Direção: Nelson Hoineff

Roteiro: Nelson Hoineff

Fotografia: Guilherme Süssekind

Produção: Natália da Luz

Gênero: Documentário

Entrevistados: Lucas Mendes, Hélio Costa, Nelson Motta, Ruy Castro, Boris Casoy, Diogo Mainardi, Fausto Wolff, Sérgio Augusto, Ziraldo, Luiz Schwartz e Daniel Piza.

Trailer:

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