Philomena

Philomena: um diálogo entre passado e presente

Por: Carolina Ito

philomena“Baseado em fatos reais” é a frase que introduz o filme que parece beirar à ficção e trata de um passado não muito distante. Philomena (2013) foi dirigido pelo britânico Stephen Frears, o mesmo diretor de Os imorais (1990), Alta fidelidade (2000), A rainha (2006), entre outros títulos. Foi indicado ao Oscar 2014 em quatro categorias: melhor filme, melhor atriz e melhor roteiro adaptado.

O filme tem como tema central a relação que se estabelece entre o jornalista Martin Sixsmith (Steve Coogan) e a entrevistada Philomena Lee (Judi Dench), que sofre com o desaparecimento de seu filho Anthony, há 50 anos. Juntos, tentam descobrir o que aconteceu com a criança e acabam se deparando com um passado nebuloso da Igreja Católica irlandesa dos anos 1950.

Philomena era pobre, engravidou quando adolescente e, assim como outras jovens de sua época, foi punida, tendo que viver em uma instituição religiosa e trabalhar na lavanderia por anos – além de ter o parto natural sem nenhum tipo de anestesia.

Seu filho estava aos cuidados das freiras e só podia ser visto uma hora por dia, até o trágico momento em que foi levado por um casal de americanos. Philomena nunca soube o que, de fato, havia acontecido com o filho e viveu de lembranças e fantasias por longas décadas.

Ao saber da história da mãe, Jane decide contatar um jornalista na esperança de que ele a ajudasse a encontrar pistas sobre a situação de Anthony, que era chamado por sua família americana de Michael. Ela encontra Martin Sixsmith, um jornalista desempregado que procura algo para retomar a carreira, mas sem considerar a possibilidade de escrever histórias sobre pessoas “comuns”. Um assunto considerado menor.

Philomena-11

Depois, ele muda de ideia e decide escrever sobre o caso para uma revista.  Nos primeiros contatos, a personalidade de Philomena Lee intriga o jornalista e ambos partem para uma viagem até os Estados Unidos, em busca do paradeiro do filho desaparecido.

Fora do cinema, a história real resultou no livro-reportagem “O filho perdido de Philomena Lee” (lançado no Brasil em 2013 pela Verus Editora) que, posteriormente, foi adaptado como filme por meio da parceria entre Martin Sixsmith, Steeve Coogan e Jeff Pope.  Livro-reportagem é uma vertente de grande reportagem que estende a prática jornalística incorporando conceitos e técnicas de áreas como literatura e história, de acordo com Edvaldo Pereira Lima em seu livro “O que é livro-reportagem” (publicado pela primeira vez em 1993 pela Editora Brasiliense).

A categoria de livro-reportagem, na qual o roteiro do filme é baseado, tenta identificar as várias camadas interpretativas da realidade, tentando reproduzi-la da maneira mais completa e com um propósito estético que seduza e envolva o leitor. Outra especificidade do livro-reportagem, que o distancia da produção jornalística diária ou semanal, por exemplo, é a liberdade em tratar de temas do passado que repercutem no presente, assim como o caso da história de Philomena Lee.

philomena (1)

A construção do roteiro e as escolhas de filmagem tentam mostrar, na maior parte do filme, o conflito entre entrevistador e entrevistada, tendo em vista que cada personagem pertence a um universo diferente e possui visões de mundo que se opõem.

Steve Coogan interpreta um jornalista que possui características presentes no senso comum de quem consome conteúdos jornalísticos ou mesmo cinematográficos envolvendo a profissão. Cético, ateu assumido, irônico, manipulador e até amargurado são adjetivos associados ao personagem. Já Philomena apresenta oposições à figura do entrevistador, pois, ao contrário do que ele pressupõe, ela não se sente completamente injustiçada pela atitude da instituição religiosa que ocultou informações sobre seu filho. Ou seja, sua fé persiste ao longo da história.

Outros estereótipos da prática jornalística explorados com menos intensidade estão relacionados à busca do jornalismo pelos detalhes mais polêmicos, o que fica claro em uma das falas da editora da revista em que Sixsmith pretendia publicar a reportagem sobre Philomena: “isso é bom pra história”, disse, ao se referir a um aspecto que ressaltava a posição da igreja como vilã do caso. Ser bom para a história sinalizava ser facilmente vendável e garantir o setor de negócios da revista.

A intuição também é um elemento valorizado na narrativa do filme, como uma característica que auxiliou o jornalista a investigar o caso do filho desaparecido de Philomena. A busca incessante por desvendar o mistério é mostrada como uma “missão” de Sixsmith, ora ligada ao apelo sensacionalista da reportagem, ora tratada como algo intrínseco à apuração jornalística.

Sem dúvida, a busca por herois e vilões percorre todo o filme, embora essa dicotomia seja relativizada em alguns momentos. Conforme os personagens vão sendo mapeados, percebe-se que a visão maniqueísta não pode ser aplicada de maneira simples e irresponsável, sobretudo porque esse não é o desejo da entrevistada. Nesse ponto, também se destaca o conflito ético da profissão, afinal, a liberdade de expressão do jornalista esbarra no respeito à privacidade da fonte.

cena-de-philomena-de-stephen-frears-1389301783065_956x500

Ao dialogar com um entrevistado, o jornalista precisa relativizar, em certa medida, seus valores e concepções pessoais para compreender o relato de maneira menos superficial. A fonte também faz concessões ao permitir que ele publique ou não certas informações. Essa relação é explorada no filme e mostra a presença da subjetividade no momento de construção da entrevista.

Para que ela seja um “diálogo possível”, como sugere a pesquisadora em comunicação, Cremilda Medina, é preciso levar em conta elementos que vão além das técnicas de objetividade jornalística, muitas vezes, relacionados à comunicação interpessoal e à sensibilidade diante do relato. O filme, ao considerar as minúcias do processo de apuração envolvendo a subjetividade do jornalista, permite ao público desconstruir o ideal de imparcialidade que permeia – senão, assombra – a profissão.

Por fim, Philomena mostra que a realidade, reproduzida pelo jornalismo a partir da escolha de um recorte, pode ser muito mais complexa do que sugere a simples busca por herois e vilões, quem ganha e quem perde.

Links e referências interessantes:

Crítica de Inacio Araújo para a Folha de São Paulo, disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/02/1408703-critica-indicado-ao-oscar-philomena-comove-com-historia-sobre-perda.shtml

Crítica de Roberto Cunha para o site AdoroCinema, disponível em: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-213656/criticas-adorocinema/

Ficha técnica:

Ano: 2013

Direção: Stephen Frears

Roteiro: Martin Sixsmith, Steve Coogan e Jeff Pope

Fotografia: Robbie Ryan

Produção: Steve Coogan

Gênero: Comédia/drama

Trailer:

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s