O Abutre

Por Heloise Montini          

o-abutre-filme-posterSem um diálogo específico que chame a atenção para o seu propósito, ou uma palavra capaz de traduzi-lo, O Abutre (The Nightcrawler) de Dan Gilroy é um raro filme que transmite ao longo de todos os seus 117 minutos a ideia norteadora do jornalismo sensacionalista. Nina Romina, a produtora de um telejornal, interpretada por Rene Russo, não hesita na hora de descrever o que quer exibir no telejornal matinal: violência, afinal, resumindo o ideal da personagem, sangue vende e temor fascina. E a cidade de Los Angeles é o cenário para criar a atmosfera noturna do longa. O Abutre é a estreia do roteirista Dan Gilroy como diretor, mas ao escrever e dirigir, ele demonstrou o talento em comandar um thriller que prende a atenção do espectador do inicio ao fim.

          Jake Gyllenhaal volta ao visual hipnotizante que utilizou em Donnie Darko (2001). Ele perdeu peso e sua aparência física, com grandes olhos em um rosto encovado, ajuda a criar o ar ao mesmo tempo frio, triste e assustador do personagem Louis Bloom.

          Bloom não passa de um homem que se sustenta fazendo pequenos trabalhos e roubos. A falta de escrúpulos e nenhuma moral permitem que encare situações perturbadoras sem incômodo. O filme dá margem para acreditarmos que Bloom é um sociopata, planejando as ações e criando um cenário a fim de atingir o objetivo de rápida ascensão profissional e econômica.

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          A vida de furtos começa a mudar quando ele presencia um acidente de carro em que um cinegrafista freelancer capta imagens do carro e das vítimas. Louis observa o trabalho do outro e o questiona sobre o que faz. Percebendo a grande quantidade de equipamentos, Louis deduz o quanto pode ser lucrativo obter imagens da noite de Los Angeles e vendê-las para os jornais matinais.

          Blomm fazia pequenos furtos ou bicos para sobreviver e se depara com uma oportunidade de crescimento financeiro rápido. Dentre as várias críticas à sociedade moderna que Gilroy faz no filme, encontramos aí a primeira: a tragédia é uma mercadoria valiosa que move uma complexa engrenagem e beneficia algumas pessoas e corporações. Para alcançar seu objetivo, Bloom rouba uma bicicleta e a troca por seu primeiro equipamento. Louis Bloom é apresentado ao público como habilidoso manipulador, capaz de se fazer verdadeiro em suas mentiras. Autodidata e solitário, ele utiliza a internet para aprender diversas coisas, assim descobre como manipular uma câmera e como ter acesso aos códigos de rádio da polícia para poder acompanhar onde há ocorrências que sejam interessantes e captar imagens vendáveis.

          Paciente e perfeccionista, Bloom logo consegue destaque com suas filmagens, vendendo as imagens exclusivamente para o telejornal em que Nina Romina é produtora. O lucro aparece como possibilidade e Lou Bloom contrata um assistente, Richard (Riz Ahmed), pagando muito pouco, melhora o equipamento e, em sua busca pela imagem sangrenta, passa a interferir nos locais de acidente, quebrar regras e leis visando registrar detalhes inusitados e apelativos. Ele procura aquilo que a editora valoriza e que alavanca a audiência, ainda que incomode alguns colegas pela perda da ética.

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          O trabalho entra na lógica do registro da dor e do sangue a qualquer custo. As pessoas se tornam objeto do enquadramento da câmara que vai para a tela da TV, desde que paguem bem. “Uma mulher gritando e correndo rua abaixo com a garganta cortada” é a descrição de Nina Romina para o vídeo perfeito.

          A audácia de Louis Bloom cresce conforme seu talento de captar imagens violentas se destaca no submundo dos cinegrafistas freelancer, bem como a autoconfiança fria e a falta de escrúpulos. A audácia permite que ele chantageie Romina a fim de levá-la para a cama e ameace a integridade física de qualquer um que dificulte a sua trajetória ascendente.

          Filmes sobre jornalismo não são raros e O Abutre é mais um que discute a ética da profissão, mas que também permite reflexões sobre o que está sendo apresentado pela mídia atualmente. Sabe-se do poder que a mídia tem de criar debates e na mobilização popular diante dos fatos noticiados, mas esse poder é utilizado de forma a criar uma atmosfera de constante medo. Porque o medo fascina, é entretenimento e considerado informação porque alertaria o público do que pode acontecer.

          E um indivíduo com experiência de furtos, roubos e agressões, com traços da frieza de um psicopata é o captador perfeito de imagens que nutrem a popularidade de um telejornal matinal. Romina afirma que seu público quer ver sangue, mas quanto disso é real? As pessoas querem ver violência gratuita enquanto tomam seus cafés ou enquanto jantam, ou estará a mídia dizendo que é isso que elas devem querer?  Polêmica interminável.

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          Seria o afastamento dos valores míticos do jornalismo moderno – objetividade, neutralidade, imparcialidade – e a aproximação do valor capitalista, o lucro? Nessa lógica, somente é informação relevante aquilo que vende bem?

          Por outro lado, o filme apresenta um atenuante para a mídia. Bloom é exceção, é frio, não tem limites, não é como os outros cinegrafistas que apesar da captação do sensacionalismo teriam ainda alguma ética. A cumplicidade entre Romina e Bloom passa pelo fascínio do sucesso, por meio das imagens irresistíveis, mas também pela ameaça, pelo medo de retaliação que ele sutilmente sinaliza. Caso ela desista do pacto, haverá riscos. Então, o excesso do personagem permite a interpretação de que os exemplos apresentados pela trama são ficcionais. A realidade não seria tão cruel, a mídia não seria tão sanguinária. A indústria televisiva apenas teria dado espaço ocasional a um louco.

          Como na maior parte das obras fílmicas sobre mídia e jornalismo, a representação deles passa pela linguagem cinematográfica, pelo gênero que dá ritmo e forma à trama. As opções de linguagem do diretor/roteirista direcionam a abordagem feita sobre a comunicação: suspense em torno das cenas noturnas do psicopata que ascende na máquina de moer carne e notícia. Limites do cinema-mercadoria.

 Links e referências interessantes:

VILLAÇA, Pablo. Cinema em Cena. 18 dez. 2014. Disponível em: http://www.cinemaemcena.com.br/plus/modulos/filme/ver.php?cdfilme=14095#critica

BARBOSA, Neusa. Cineweb. 17 dez. 2014. Disponível em: http://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2014/12/estreia-jake-gyllenhaal-encarna-reporter-amoral-em-o-abutre.html

DOUGLAS, Kelson. Altamente Ácido. Dez. 2014. Disponível em: http://altamenteacido.com.br/review/o-abutre/

FERREIRA, Wilson. GGN. 08 jan. 2015. Disponível em: http://jornalggn.com.br/blog/wilson-ferreira/sociopatas-produzem-as-noticias-da-grande-midia-no-filme-o-abutre

MERTEN, Luiz Carlos. Cultura Estadão. 30 dez. 2014. Disponível em: http://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,o-abutre-estreia-de-daniel-gilroy-na-direcao-discute-a-etica-da-imprensa,1613322

RIBEIRO, Fábio de Oliveira Ribeiro. GGN. 07 jan. 2015. Disponível em: http://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/o-abutre-por-fabio-de-oliveira-ribeiro

Ficha Técnica:

Nome original: Nightcrawler

Ano de produção: 2014

Duração: 117 minutos

País: EUA

Diretor: Dan Gilroy

Roteiro: Dan Gilroy

Elenco: Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Riz Ahmed

 Trailer:

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