Chegadas e Partidas

Por: Michael Barbosa 

260x365_519ebc74982aa          Chegadas e Partidas (The Shipping News, 2001) não peca, definitivamente, por falta de pretensão. A adaptação do romance homônimo de Annie Proulx, que ganhou o Pulitzer em 1993, é um projeto ousado que tenta mesclar a lentidão e o lirismo do alto cinema europeu com o turbilhão de acontecimentos e plot twists tão castos ao drama hollywoodiano, numa trama que fala de apatia, responsabilidade, fuga e recomeço, com o exercício jornalístico sendo espaço transformador e de redescoberta intelectual.

          Da relação de não pertencimento familiar na infância ao desenvolvimento de um adulto frustrado e reprimido – inclusive sexualmente -, que trabalha como tintureiro na gráfica de um jornal, o diretor sueco Lasse Hallström (Minha vida de cachorro, Gilbert Grape – Aprendiz de sonhador, Chocolate) nos apresenta Quoyle (Kevin Spacey), que tem sua vida mudada quando Petal (Cate Blachett), sedutora e fatal, cruza seu caminho. Ela fica grávida de Bunny, eles se casam, ela foge com a menina para vendê-la no mercado negro, sofre um acidente de carro fatal e Quoyle se torna, definitivamente, único responsável pela criança.

          Como se fosse pouco, os pais do rapaz se suicidam e ele recebe a visita de uma tia desconhecida, decidindo ir, com tia e filha, para a Terra Nova, ilha no litoral canadense, gelada terra de seus ancestrais. E tudo isso é, no máximo, sinopse; eventos que se dão antes da primeira meia hora de filme, atropelando-se entre si e mostrando uma técnica de forte apelo emocional para a apresentação do protagonista.

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          A partir dessa primeira grande virada na trama – a chegada à Terra Nova (o nome é bastante simbólico) -, somos convidados a acompanhar a jornada de recomeço de Quoyle, que se instala num antigo e decadente casarão de família e consegue emprego, graças ao sobrenome tradicional na região, como repórter no jornal local, para cobrir as notícias de barco – dai o título original de livro e filme – e acidentes de carro. O trauma de quase morrer afogado, mostrado na cena de abertura da obra, e a morte do amor único num acidente de carro, servem como potencializadores nada sutis de toda a superação que será necessária.

          Aprendendo com erros e acertos, Quoyle pouco a pouco se encaixa no novo emprego, emplaca a primeira história na editoria de barcos e começa a superar seus traumas. Nesse ponto, o filme discursa em prol do jornalismo humano, preocupado em contar a história das pessoas e como esse jornalismo pode nascer em qualquer um. A história ainda coloca o personagem de Spacey num arquétipo de dilema ético, onde o anti-herói leva uma matéria contra a exploração de petróleo na região às últimas consequências, confrontando um veterano colega de trabalho.

          O exercício da profissão de repórter aparece, aqui, romantizado e revestido de forte poder transformador e responsabilidade social. Essa ideia, porem, convive com o discurso do jornalismo como profissão extremamente acessível e de fácil adaptação; a escrita como ato de inspiração e superação pessoal – não esmero, prática e estudo. Não se trata nem exatamente de discutir a necessidade do diploma acadêmico para fazer jornalismo, mas Quoyle salta de um looser estereotipado e desprovido de qualquer traço de amor próprio ou indício de inteligência notável, para um escritor sensação na pequena ilha acostumada a ler textos e temas previsíveis, medíocres e repetidos a exaustão.

          Noutra análise, podemos perceber a questão como resultado da má prática jornalística local e da decadência latente do jornalismo impresso, especialmente em pequenas cidades. O pequeno e único jornal é apenas um negócio que ajuda alguns profissionais a sobreviverem e não trata dos principais assuntos que interessam à comunidade. A bondade e a ingenuidade de Quoyle o fazem um diferencial e ele alcança algum sucesso quando decide humanizar seus textos, alterando os direcionamentos editoriais.

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          De toda forma, é difícil apreender, nesse sentido, um discurso mais elaborado sobre a questão jornalística. A redação é composta por tipos: o dono que dirige como bem entende o jornal, o funcionário amargurado que quer ser chefe, um boa praça etc. Coadjuvantes que não chegam a ser realmente explorados e servem como apoio a Quoyle. Pelo que a trama indica o jornal não tem real importância para a comunidade, apesar de ser impresso e vendido.

          Talvez a reflexão mais interessante esteja no apelo por narrativas detalhadas e fotos de acidentes de carros – sempre tem que ter um acidente de carro, é dito. Os critérios de noticiabilidade não desaparecem no micro e uma suposta falta de pautas faz da morte e da sua exploração sensacionalista grande protagonista noticioso das páginas diárias.

          O problema se dá, de fato, na enxurrada de novas descobertas e situações na vida do protagonista que dificultam o desenvolvimento das maiorias das questões levantadas, sendo deixadas pelo filme incompletas e trabalhadas na superfície. Paralelo à ascensão profissional, Quoyle começa a desenvolver uma relação afetiva com uma viúva local (Julianne Moore), mãe de um garoto com deficiência mental; descobre a história de seus ancestrais, com direito a pirataria e assassinato; vive uma série de situações extremas que se misturam com uma crescente atmosfera esotérica.

          Em meio a isso tudo Hallström entrega um grande de número de cenas que retratam flashbacks, sonhos e alucinações, tudo de maneira didática, usando maneirismos fotográficos para indicar a quebra na linha narrativa principal, filtros que sugerem acontecimentos passados, luminosidade disforme com o restante do filme, slow motion e afins. Essa necessidade de escancarar quebras é bastante conservadora e até démodé. Pense no efeito de sentido que Danny Boyle cria na famigerada cena da privada em Trainspotting; grande parte da força do mergulho da personagem está na surpresa e no choque do acontecimento com as possibilidades do real. Avisar, com truques e cortes, que o que você assiste é um delírio, não traz grandes ganhos à cena.

          Todavia, aparte algumas escolhas estéticas ruins, Hallström tem ótimas noções formais. Após a chegada à Terra Nova o diretor sueco entrega belos planos abertos em meio à neve, alguns travellings virtuosos e faz um trabalho admirável com a direção do ótimo e estrelado elenco. O texto, igualmente, possui momentos de força e a relação pai e filha é tratada de maneira tocante.

          O grande ponto falho de The Shipping News está em pensar que um filme que faz questão de manter os dois pés nas técnicas realistas para contar a sua história e respeita uma pretensa verossimilhança provavelmente não deveria se banhar num mar que, em menos de duas horas, se encontra casamentos súbitos, gravidez indesejada, venda de crianças, mortes trágicas, suicídio de pai e mãe, mudança de país, ancestrais piratas, criança sensitiva (no sentido espírita), casa mal-assombrada, afogamento, incesto… E eu não passei nem perto de terminar.

          Não é difícil pensar que tudo isso deve se sair melhor no livro de Proulx, mas, abandonando suposições, a estrutura fílmica tem suas limitações e especificidades – por exemplo, a duração – e tantos grandes fatos espremidos são problemáticos dentro de um filme que deveria reservar espaço para reflexão e fazer surgir forte relação afetiva entre público e personagens. Isso ou entendemos tudo errado e, como ironizou o crítico americano Roger Ebert, estamos diante de alguma espécie de realismo fantástico.

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          Chegadas e Partidas é um filme lento para os padrões do cinemão americano. Hallström trabalha muito bem a sensação de isolamento e solidão ímpar que só a combinação entre planos abertos e o desamparo da neve num cenário bucólico podem causar. Isso, contudo, acaba num paradoxo: como pode um filme lento passar diante de nós de maneira tão apressada, corrida? Sem tempo de digerir o último acontecimento incrível antes de encarar o próprio – na perspectiva natural do gran finale com direito a deus ex machina.

          Ao fim da película percebe-se um filme que quase foi algumas coisas. Chegadas e Partidas levanta ótimas questões sobre as possibilidades e dificuldades do tão falado jornalismo hiperlocal. Ainda que o jornalismo seja questão secundária e o mote do filme seja explorar a clássica jornada do herói – com todas suas reviravoltas e redenções -, fica uma interessante mensagem: ainda há interesse do público quando se conta boas histórias e valoriza o aspecto humano, escrevendo para um público menor, mais localizado, esse efeito é mais facilmente maximizado.

        Hallström não é um diretor de todo ruim, o elenco é ótimo e o filme possivelmente pode afetar a sensibilidade de outros espectadores de maneira diferente. Infelizmente, a condução atropelada e escolhas estéticas ruins atrapalham o resultado final.

Links e referenciais interessantes:

EBERT, Roger. The Shipping News. Disponível em : http://www.rogerebert.com/reviews/the-shipping-news-2001

PROULX, E. Anne. The Shipping News.  Disponível em: http://www.goodreads.com/book/show/7354.The_Shipping_News

THE SHPPING NEWS. Disponível em: http://www.theguardian.com/film/movie/91085/shipping.news

 Ficha Técnica:

Título original: The Shipping News

País: EUA

Direção: Lasse Halström

Ano de Produção: 2001

Roteiro: Robert Nelson Jacobs baseado no romance de Annie Proulx

Elenco: Kevin Spacey, Julianne Moore, Judi Dench, Kate Blanchett, Pete Postlethwaite, Scott Glenn, Lauren Gainer, Alyssa Gainer, Kaitlyn Gaine.

Trailer:

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