Ao Vivo de Bagdá

Por: Gabriel Ouros 

         bagda Agosto de 1990. Iraque invade Kuwait. Inicia-se a guerra do golfo, que contará, mais tarde, com a intervenção dos EUA. Mas “Ao vivo de Bagdá” retrata mais que a cobertura da guerra transmitida pela CNN, com a ambição de obter o maior furo jornalístico da emissora, pois mostra que o início do conflito ocasiona também o início da concorrência midiática pela audiência, submetida a interesses de Estados acerca do fato. Dilemas jornalísticos fizeram parte do jogo em busca da audiência, tais como arriscar a própria vida, fazer tudo de forma honesta, submeter-se ao sensacionalismo e fugir dele, ser autônomo aos interesses políticos.

          Para que a cobertura ao vivo do bombardeio americano em Bagdá fosse realizada, os produtores Robert Wierner (Michel Keaton) e Ingrid Formanek (Helena Bonham Carter), juntamente com o cinegrafista Mark Biello (Joshua Leonard), a técnica de áudio Judy Parker (Lili Taylor) e o correspondente Tom Murphy (Michael Cudlitz), substituído posteriormente por Richard Roth (Hamish Linklater), passaram por diversos desafios éticos.

          O filme inicia-se dizendo que, no dia 16 de janeiro de 1991, a América e seus aliados entram em guerra com o Iraque, e logo direciona a imagem para onde a narrativa terá seu início: seis meses antes, quando o Iraque invadiu Kuwait. O motivo da invasão, segundo o presidente iraquiano Saddam Hussein, foi que o Kuwait realizou uma política de excesso de produção de petróleo, que reduziu o preço do barril para apenas U$10, prejudicando a frágil economia iraquiana (já fragilizada pelos resultados da guerra Irã-Iraque). Saddam também havia pedido uma indenização milionária ao Kuwait, que não aceitou. Além disso, o governo iraquiano reivindicava um território do país vizinho, que também não fora devolvido. Diante desses impasses, o Iraque enviou tropas que ocuparam o Kuwait por sete meses, tomando os poços de petróleo.

          Naquele momento, a CNN era uma rede noticiosa 24 horas mais ainda buscava respeitabilidade no mercado. A cobertura ao vivo da guerra poderia garantir o reconhecimento internacional de telejornalismo que ainda não possuía. Outras emissoras já estavam em Bagdá, a maior cidade iraquiana. E a ideia de que essa transmissão ao vivo poderia ser o equivalente jornalístico da caminhada na lua, incentivou o envio de Robert Wiener e Ingrid Formanek para a cobertura, que enfrentarão inúmeros desafios por estarem imersos no cotidiano do conflito e em uma sociedade rigidamente controlada por Saddam.

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          A ideia inicial era entrevistar Saddam Hussein, e conseguir fazer isso antes da CBS e outras emissoras. A partir daí, Wiener e Formanek enfrentarão diversos dilemas profissionais na busca da informação e da exclusividade. Eles tentarão conquistar a confiança do Ministério da Informação do Iraque para conseguir destaques noticiosos, principalmente depois que não conseguiram entrevistar o Saddam Hussein em primeira mão, pois a entrevista foi primeiramente cedida à CBS. Desse modo, usam a estratégia de estreitar laços de amizade com o governo iraquiano buscando algumas regalias e informações privilegiadas. Através desse laço, Wiener conseguiu licença para usar o aparelho four-wire, que permitia o contato direto com a sede da CNN nos EUA, propiciando o envio de mensagens mais independentes.

          Por meio do contato com Naji Al-Hadithi, do Ministério da Informação, a CNN foi convidada a ir ao Kuwait realizar uma matéria, com a condição de só poderem cobrir a denúncia de sumiço de bebês em hospitais.  O problema é que a viagem foi toda controlada, os hospitais estavam sob domínio do governo iraquiano, e omitiram a verdade na entrevista sobre o desaparecimento de bebês das incubadoras, favorecendo Saddam Hussein. Isso revoltou a equipe da CNN que se sentiu usada pelo Estado Iraquiano. Naji Al-Hadithi se justificou com cinismo claro: “todos os governos usam a imprensa (…) Usei-o e você usou-me. Somos iguais”.

          Outro dilema ético retratado no filme foi a exposição de um civil envolvido no conflito. Robert entrevistou Bob Vinton, um americano que estava em Bagdá, recluso pelo governo iraquiano e não podia sair do país. Depois da entrevista, Vinton desapareceu e trouxe noites de insônia para Robert. Ela ficou na dúvida sobre o trabalho de obter imagens e informações a qualquer custo, inclusive pondo em risco um entrevistado.

          Logo após o Iraque recusar o pedido norte-americano de retirar do Kuwait alegando roubo de petróleo, os EUA entram na guerra, de forma inesperada. Então, os combates passam a ocorrer na cidade em que os jornalistas estavam. Novos e mais perigosos riscos surgiriam, mas também imagens inéditas poderiam ser captadas.

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 Quanto vale noticiar um fato histórico?

          Como Bagdá se tornou o alvo dos EUA, todas as redes de TV se retiraram da cidade, com exceção da CNN, que, com o auxílio do four-wire, conseguiria transmitir os bombardeios ao vivo. Esta é uma das cenas mais marcantes do filme: o impasse dos correspondentes de guerra entre ficar no Iraque cobrindo a guerra com riscos de morte ou voltar para casa em segurança.

          Também é interessante pensar que os meios e veículos de comunicação, apesar de tentarem atingir a objetividade e a veracidade dos fatos – princípios importantes do jornalismo moderno – não só possuíam uma opinião sobre os acontecimentos, como estavam submetidos a interesses de Estado e muitas vezes apelavam ao sensacionalismo.

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          O diálogo entre Weiner e Formanek indagando sobre o trabalho deles (W: Precisamos dar ao público as armas para entenderem a história, temos um papel a desempenhar. F: Não resolvemos os problemas no mundo, transmitimo-los. W: É isso a que se resume? Só temos de manter as câmeras a rodar e esperar pelas bombas? Belo trabalho.) também nos faz refletir sobre qual é a função do jornalista.

          O Ministério de Informação do Iraque usou os jornalistas para distorcer a realidade e passar certa credibilidade ao governo iraquiano, em troca de uma matéria exclusiva à CNN. Após uma grande cobertura da Guerra no dia 16 de janeiro de 1991, o governo iraquiano decidiu interromper as transmissões e buscou determinar o que a CNN iria transmitir a partir dali. E os jornalistas deveriam se posicionar, submeter-se ou não.

          Esse fato nos leva à reflexão que, para conseguirem audiência e destaque na sociedade, os interesses dos veículos de comunicação acabam esbarrando em outros interesses – públicos ou privados – e nesse embate a informação pode deixar de ser o mais imparcial possível, afetando de forma abusiva e desonesta a população.

Links e referências interessantes:

DÁVILA, Sérgio. “Ao Vivo de Bagdá”. Guerra do Golfo ganha longa sobre atuação da CNN. Folha de S. Paulo. Disponível no link:http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1106200421.htm

WIENER, Robert. Live From Baghdad: Making Journalism History Behind the Lines.

MICHAELLA, Aubertha Jane. Live From Baghdad (2002). International Journalism. Disponível em: p://internationaljournalism.wikispaces.com/Live+From+Baghdad+(2002)

BRAESTRUP, PETER. ‘Live From Baghdad’: ‘We’re Using Them, They’re Using Us’. New York Times. Disponível em: http://www.nytimes.com/1992/01/05/books/wiener-live.html

Ficha Técnica:

Título original: Live from Baghdad

Ano: 2002

Direção: Mick Jackson

Roteiro: Robert Wiener, Richard Chapman, John Patrick Shanley e Timothy J. Sexton; baseado no livro Live from Baghdad de Robert Wiener

Elenco: Michael Keaton, Helena Bonham Carter, Lili Taylor, Bruce McGill, Michael Murphy, Paul Guilfoyle, Kurt Fuller

Gênero: Drama/Guerra

Duração: 110 min.

Trailer:

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