Tudo pelo poder

Por: Danilo Rothberg

Os meados de março e o palco da luta pelo poder

tudo-pelo-poder          “Tudo pelo poder” foi elogiado pela crítica especializada por sua capacidade de reter a atenção sobre uma trama que captura muitos dos dilemas éticos vividos pelas democracias contemporâneas, às voltas com as difíceis decisões envolvidas nos acordos necessários à construção de candidaturas eleitorais viáveis. O roteiro insere o papel decisivo dos assessores de imprensa no jogo das informações para alcançar ou afetar as imagens dos candidatos.

           “The ides of March” (“Os idos de março”) é o título original do filme de 2011 dirigido e estrelado por George Clooney que no Brasil recebeu o título “Tudo pelo poder”. Por mais que seja um lugar-comum a ser evitado resenhar um filme de maneira a apontar o contraste entre seu título original e a adaptação brasileira, neste caso é perdoável, já que esmiuçar a diferença pode contribuir para enriquecer a experiência do espectador.

          Os idos de março correspondem a um período específico do calendário lunar romano, no qual acontecimentos cruciais ocorreram ao longo da história. Um dos mais significativos foi o assassinato de Júlio César, no ano de 44 AC., organizado por uma conspiração de ex-aliados, fato que trouxe um fim ao período republicano e desencadeou o início do império romano.

          Diálogos, roteiro e performance dos atores fizeram com que a produção obtivesse 85% de aprovação entre as 217 avaliações dos críticos do Rotten Tomatoes, que destacaram aspectos como sua “precisão emocional”, a “intensidade de cada minuto” e as “tremendas performances”.

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          O roteiro adaptado, indicado ao Oscar, é baseado no livro “Farragut North”, de Beau Willimon, que trabalhou como assessor de comunicação em campanhas eleitorais entre 1998 e 2004 nos Estados Unidos, aproveitando mais tarde suas observações também à frente dos roteiros da série “House of cards”.

          As armações e sabotagens de “Tudo pelo poder” não são tão vis quanto as de “House of cards”. Sob o filme de Clooney, estão articulações de bastidores em uma campanha para a conquista de apoio de setores políticos, envolvendo concessões e negociações sobre espaços de partilha do poder. Os políticos não surgem tão amorais quanto na série do Netflix, mas sim ainda figuram fiados em princípios pessoais e hesitantes em celebrar quaisquer acordos que lhes tragam votos.

          Se a arte imita a vida e a ilumina, desde que o espaço da recepção estética seja percebido enquanto tal, como distanciar-se criticamente da história de “Os idos de março” para que seu sentido possa ser compreendido com mais profundidade? Bem, duas maneiras centrais de interpretar o universo político do filme são possíveis.

Ryan Gosling;Evan Rachel Wood

          A primeira é dada pela ciência política, segundo a qual os acordos entre atores políticos são parte essencial da política democrática, entendida como negociação entre setores diversos para a obtenção de compromissos circunstancialmente consensuais. Neste quadro, quando uma candidatura aceita, por exemplo, flexibilizar suas propostas iniciais para acomodar as demandas de outros setores políticos, em busca de apoio para se eleger, estaria adotando uma estratégia legítima de construção de alianças. Nesta perspectiva, tal articulação seria inclusive benéfica ao sistema democrático, porque significaria que uma plataforma política foi suficientemente madura e tolerante para acolher pensamentos divergentes em torno de uma solução possível de governabilidade.

          A segunda é dada pelo jornalismo na dinâmica conhecida nas teorias de seu estudo científico como atitude adversarial, segundo a qual cabe aos jornalistas desconfiar permanentemente dos políticos, como se eles, na condição eterna e universal de pessoas corruptas e egoístas, estivessem sempre buscando subterfúgios para avançar seus próprios interesses escusos, em detrimento do interesse público. Neste contexto, as articulações de bastidores em busca de apoio seriam sempre demonstrações cabais de que a política é suja, um instrumento de enriquecimento ilícito e contrário à busca do bem comum.

          São perspectivas opostas. Caberia perguntar como se abriu tal fosso entre a ciência e o cotidiano, mas este seria um tema complexo demais para tratar aqui. Por ora, vale indicar que “Tudo pelo poder”, o título brasileiro, parece estar alinhado à segunda visão. Ou seja, o título brasileiro sugere que a política democrática de alianças é um processo de luta abjeta pelo poder, no qual as primeiras vítimas serão inevitavelmente a ética e o interesse público, em uma ótica que parece predominante no Brasil contemporâneo, no qual o jornalismo comercial tem sido pouco capaz de oferecer uma cobertura mais rica da política, na qual se reconheçam os avanços da consolidação democrática e sua legitimidade como meio de resolução de conflitos.

          Já “Os idos de março”, o título original, parece enfatizar o significado singular da traição motivada por desacertos pessoais entre os coordenadores de uma campanha política, o que em tese dificulta considerar o filme como um “retrato fiel da sujeira da política”, como muitos no Brasil estariam prontos para dizer. Ao contrário: “Os idos de março” parece sugerir que a política estaria naturalmente sujeita a intempéries em seu percurso natural de busca de alianças, como as trazidas pelo roteiro, que assim torna muito interessante o enfoque conferido à política democrática. Mas pode-se argumentar aqui que a complexidade desse foco só se revelaria se o espectador brasileiro assistisse ao filme despido dos preconceitos usuais em relação à política e aos políticos. Talvez isto seja exigir demais. Mas o filme é um ótimo pretexto para trazer o problema à tona.

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          Para as áreas de assessoria de comunicação e relações públicas, perceber a diferença é vital. Muitos profissionais dessas áreas poderiam rejeitar a atuação em campanhas eleitorais ou posições de confiança ou de carreira assessorando os poderes instituídos por temerem se envolver ‘nessa sujeira’. E, com isso, optam por exercer funções nas corporações privadas, que por sua vez nunca estiveram imunes a leituras que tragam questionamentos éticos. A imagem negativa da política acaba afastando profissionais de qualidade que, de outra forma, poderiam prestar serviços com dignidade e contribuição decisiva ao fortalecimento do interesse público. Se aqueles profissionais pudessem ser levados a perceber as características intrínsecas da política democrática como busca aberta pela maximização de apoios e construção legítima de acordos provisórios para atender ao máximo possível de interesses conflitantes, talvez viessem a considerar de forma positiva a atuação na área.

          Assim, “Tudo pelo poder” pode ser assistido como exemplo do quão complexo e estimulante se torna o campo das campanhas políticas quando o que está em jogo é a capacidade de uma candidatura representar efetivamente setores diversos e, com seu apoio, obter êxito nas urnas. Se for possível deixar de lado o clichê da política vil que parece contaminar as democracias contemporâneas, principalmente aquelas nas quais o jornalismo comercial dá as cartas (a analogia com “House of cards” não é por acaso) e existe escassa presença de jornalismo público, tanto melhor para se chegar a uma recepção mais abrangente do filme.

Links e referencias interessantes:

THE IDES OF MARCH (2011). Disponível em: http://www.rottentomatoes.com/m/the_ides_of_march/

EBERT, Roger. The Ides of March. Disponível em:http://www.rogerebert.com/reviews/the-ides-of-march-2011

FRENCH, Philip. he Ides of March. Disponível em:http://www.theguardian.com/film/2011/oct/30/ides-of-march-clooney-review

Ficha Técnica: 

Título Original: The Ides of March

Roteiro: George Clooney e Grant Heslov e Beau Willimon

Direção: George Clooney

Elenco: Ryan Gosling, Paul Giamatti, Philip Seymour Hoffman, George Clooney, Evan Rachel Wood, Marisa Tomei, Jeffrey Wright, Max Minghella, Jennifer Ehle, Gregory Itzin, Michael Mantell.

Ano: Lançamento em 2011

Duração: 110 min

País: EUA

Gênero: Drama – Política

Trailer:

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