Homem Aranha

Por Vinicius Vermiglio

Spider-Man2002Poster             Quando Peter Parker (Tobey Maguire) é picado por uma aranha geneticamente modificada, no filme de 2002, suas preocupações começam a ir além da garota que gosta desde criança, Mary Jane (Kirsten Dunst), e se conseguirá entrar para faculdade no ano seguinte. Além de lutar contra vilões e malfeitores, o Homem-Aranha terá de enfrentar o jornalismo sensacionalista, ao mesmo tempo em que se beneficia dele, com a ambígua divulgação de fotos e façanhas.

            Ao deixar de ser o garoto franzino e nerd do colégio, Parker torna-se o Homem-Aranha – uma misteriosa criatura que ajuda a polícia de Nova York a capturar os bandidos da cidade. Tentando pagar as contas do final do mês e ainda continuar herói da “big apple”, Parker está sempre atrasado para seus compromissos e não consegue manter um emprego. Porém, quando um dos jornais sensacionalistas da cidade, o Clarim, anuncia que está procurando fotos do Homem-Aranha, Peter – que já tirava fotos para o jornal da escola – não pensa duas vezes ao fazer algumas poses para a câmera e levar às fotos ao Clarim.

            Essa é a primeira ocorrência nítida no filme passível de analisarmos. Quando o editor-chefe Jameson (J.K. Simmons) olha as fotos de Parker, as despreza e diz que não valem nada e que pagará pouco por elas. Mas quando Parker ameaça ir embora, o editor-chefe aumenta a oferta e Parker aceita.

            O filme trabalha com o estereótipo do editor-chefe de um grande jornal: agitado, sempre muito ocupado, não tem respeito pelos funcionários e é capaz de fazer qualquer coisa para vender mais jornal. Ética, compromisso com a verdade e com o leitor são ideias que estão em segundo plano para o editor-chefe. Ele próprio explicita isso na primeira frase que diz no filme: “Quem é o Homem-Aranha? Ele é um criminoso, isso sim!”. Um de seus funcionários está tentando convence-lo de que o Homem-Aranha deve ser capa do jornal. O editor-chefe reluta, mas quando descobre que o jornal vendeu quatro tiragens completas, muda imediatamente de ideia. É aqui que Peter Parker entra com suas fotos.

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            Outro ponto que notamos: em nenhum momento Parker reflete sobre a ética de vender fotos de si mesmo (ninguém sabe que ele é o Homem-Aranha) para o jornal. Ainda que, no decorrer do filme, tente argumentar com o editor-chefe Jameson de que o Homem-Aranha não é um criminoso, que o jornal mente ao elaborar as capas sensacionalistas, Parker se resigna, pois precisa do dinheiro. Quando Peter afirma que Jameson está difamando o herói, ele rebate gracejando: “Difamação é oral. Por escrito, é libelo”.

            Sobre a esquiva do Homem-Aranha das câmeras e a relutância para revelar sua identidade, o editor-chefe diz: “Ele não quer ser famoso? Vamos torná-lo infame!”. O cinismo dele é nítido, tudo para vender mais jornais – único objetivo desejado.

            No segundo filme (Homem Aranha 2, do ano de 2004), Parker tenta justificar as fotos que tirou para o editor-chefe, que esbraveja:

            – Parker! Que fotos são essas? Casais, velhinhos…Eu quero fotos do Homem-Aranha!

            – O Homem-Aranha não quer mais posar para mim, diz Peter. Você colocou a cidade toda contra ele!

            – Um fato que estou bastante orgulhoso!

            Os vilões são outros, mas a atitude do jornalista é a mesma. Quando um cientista torna-se o antagonista da história, o editor-chefe precisa decidir como vai chamá-lo. Ele opta por “Dr. Octopus” – graças a semelhança deste com um polvo – e até já cria um apelido: “Doc Ock”, um jogo de palavras de fácil assimilação para que os leitores memorizem com facilidade.

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            Algumas cenas depois, vemos o editor-chefe do jornal felicíssimo. A razão: um homem desconhecido chega na redação e entrega a Jameson a roupa do Homem-Aranha. O editor-chefe comemora: “Finalmente o convenci. É a força da imprensa!”

            O objetivo do editor-chefe de desacreditar e difamar o personagem era claro desde o primeiro filme, porém quando o jornalista consegue desmotivar o Homem-Aranha, Jameson arrepende-se de tê-lo feito, pois os crimes na cidade aumentam substancialmente. Poucas cenas depois de celebrar a desistência do Homem-Aranha, o editor-chefe declara: “É…ele era um herói. Eu não conseguia ver”, mas enquanto diz essa frase, a roupa do Homem-Aranha some de seu escritório. O herói está de volta, portanto as capas contra ele também: “Ele voltou! A ameaça mascarada retorna!” lemos na manchete do dia seguinte.

            Há uma irracionalidade do jornalista para fins de efeito cômico. A ausência de escrúpulo e falta de ética do editor-chefe são retratadas com traços caricatos e estereotipados, não problematizadas e questionadas.

            Uma das maiores hipocrisias relativas ao comportamento do editor-chefe do jornal ocorre no terceiro filme (Homem-Aranha 3, de 2007). Jameson quer fotos do Homem-Aranha fazendo algo de “errado”, seja lá o que for, para desconstruir sua imagem de herói. Quando um dos fotógrafos falsifica as fotos que entrega ao editor, este o demite na mesma hora e publica uma retratação desculpando-se com o público leitor. Por que a tolerância dele contempla as manchetes mentirosas (criadas por ele próprio), mas não as fotografias manipuladas? Aparentemente, a manipulação das palavras é tolerável a medida que, devido ao mistério que envolve o Homem-Aranha, não há como comprovar as mentiras ali publicadas. Mas uma foto geralmente é vista como representação fiel da realidade dos fatos, senão mesmo o fato em si registrado enquanto ocorria.

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            Como dito anteriormente, a figura de Jameson serve mais como alívio cômico para as “tensas” situações que o protagonista vive. Todas as ações do editor-chefe são relevadas, pois a caricatura criada para o personagem justifica suas ações. Ainda que as capas mentirosas fossem vistas diariamente na banca, percebemos que a população nova-iorquina gosta e admira o Homem-Aranha, independente das capas. Também nota-se que o editor-chefe possui certo apreço pelo herói, mas há tolerância nas ações do jornalista, pois ele está apenas “fazendo o seu trabalho”, como costuma-se dizer.  Mesmo que parte desse trabalho seja mentir e enganar.

Links e referencias interessantes:

BOSCOVI, Isabela. A vingança dos nerds. Disponível em:http://veja.abril.com.br/150502/p_120.html

SPIDER MAN. http://www.rottentomatoes.com/m/spiderman/

Home Aranha. http://www.imdb.com/title/tt0145487/

Ficha Técnica:

Título original: Spider-Man (2002)

País: EUA

Direção: Sam Raimi

Ano de Produção: 2002

Roteiro: David Koepp

Elenco: Tobey Maguire, Willem Dafoe, Kirsten Dunst, James Franco, J.K Simmons, Rosemary Harris, Cliff Robertson

Trailer:

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