Millennium (Trilogia)

Millennium (Trilogia): jornalismo investigativo romanceado

Por Lucinéa Villela

          Millennium_1_Los_hombres_que_no_amaban_a_las_mujeres-851927724-largeExiste jornalismo independente? Talvez este seja o grande mote dos três filmes que analisaremos nesta resenha. Em sua essência, o jornalismo independente define-se como um tipo de jornalismo que não está sob o controle de grandes grupos de comunicação, não possui compromisso com anunciantes, entidades políticas e/ou governamentais.

          Millennium é o nome fictício da revista independente sueca cujo editor-chefe é Mikael Blomkvist, protagonista da trilogia. A revista, talvez tão fictícia quanto o desejo de uma mídia independente, possui três co-proprietários (Erika Berger, Mikael Blomkvist e Christer Malm). A equipe tem como missão investigar e denunciar corrupções da sociedade sueca, em especial casos envolvendo fraudes econômicas (especialidade de Mikael). Veremos que as decisões jornalísticas apresentadas nos três filmes sempre serão debatidas democraticamente entre os sócios e colaboradores. A revista obviamente não consegue gerar lucro algum, mas todos os funcionários contribuem para que ela se mantenha como um dos únicos meios de expressão com ética e isenção.

          A trilogia foi escrita pelo jornalista e romancista sueco Karl Stieg-Erland Larsson (1954-2004), mundialmente conhecido como Stieg Larsson. Ele conseguiu com sua famosa Trilogia Millennium (lançada após sua morte) mesclar com muito êxito jornalismo investigativo com elementos essenciais de um bom romance. Encontramos em seus livros uma mescla de corrupção política, tráfico de mulheres e de armas, depravações e imoralidades no contexto familiar, suspense e uma pequena dose de heroísmo. O sucesso de seus romances deve-se a vários fatores. Sem dúvida alguma, os livros são bem engendrados. O primeiro da série, por exemplo, transforma um jornalista à beira do fracasso em detetive de elite que com apoio de uma hacker excêntrica desvenda um mistério insolúvel há mais de três décadas.

          Além da qualidade narrativa dos livros, talvez outros gatilhos fizeram com que a série se tornasse um best seller e, posteriormente, blockbuster. Um dos mais relevantes é o fato de Larsson apresentar semelhanças profissionais com o protagonista da franquia (Carl Mikael Blomkvist), o outro fator foi sua morte precoce, decorrente de um infarto.

          Com o sucesso da trilogia, os títulos foram adaptados para a grande tela na Suécia. O primeiro filme foi dirigido por Niels Arden Oplev e os outros por Daniel Alfredson.

          Vale destaque a atuação de Stieg no contexto jornalístico sueco. Foi ativista político, trabalhou na agência de notícias TT, ajudou a fundar a revista Expo, atuando como editor chefe do periódico de 1995 a 2004. Seu enfoque sempre foi investigar e denunciar organizações e movimentos racistas, anti-semitistas, anti-democráticos e de extrema direita. E os livros e filmes caminham nessa linha.

millennium 3

          Devido a sua postura de intolerância à corrupção, sofreu diversas ameaças de morte, fato que gerou suspeitas de assassinato, as quais foram descartadas depois de investigações. Sua vida sempre apresentou elementos essenciais para um bom romance e vários filmes. As semelhanças com o personagem Mikael Blomkvist são frequentemente mencionadas nas críticas dos romances e dos filmes.

          Sem mais delongas, passemos à crítica dos filmes.

          O primeiro filme da série Millennium chama-se “Os homens que não amavam as mulheres” (Män som hatar kvinnor) e até hoje é considerado um sucesso não somente na Suécia como no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Lançado em 2009, a trama se inicia com Henrik Vanger (interpretado por Sven-Bertil Taube), um empresário milionário da fictícia cidade Hedestad, recebendo um presente anônimo: mais uma flor emoldurada para sua grande coleção. Todo ano ele recebe uma espécie diferente no seu aniversário. Somos assim introduzidos ao mistério que o persegue há 37 anos: sua sobrinha-neta Harriet Vanger (Julia Sporre) desapareceu em 1966 e nenhuma investigação foi concluída desde então.

          Mudança de cena. Em Estocolmo, o jornalista Mikael Blomvski (Michael Nyqvist)  sai do Palácio da Justiça após declarada sua sentença de três meses de prisão e pagamento de multa de 150 mil coroas por perdas e danos. Ele foi condenado por difamação e calúnia depois de publicar uma reportagem investigativa sobre o empresário milionário Hans-Erik Wennerström. Blomvski tinha conseguido com fontes próximas informações sobre o desvio que Wennerström fizera de verbas de fundos sociais (destinados a investimentos industrais na Polônia) para enriquecimento ilícito, incluindo transações com tráfico de armas.

          A explicação completa de tal denúncia não é dada no filme, só a encontramos de forma detalhada no livro. Ao longo do filme, há menções sobre o processo, mas como em toda adaptação cinematográfica, é impossível que todo o conteúdo seja reproduzido do livro para o filme. Nesse caso, o espectador interessado em jornalismo investigativo perde uma grande oportunidade para compreender as falácias que envolvem a publicação de dossiês investigativos. Recomendo a leitura do livro, não somente pela qualidade de texto, mas especialmente pelas menções à Millennium, uma proposta de revista independente, talvez o grande desejo e ao mesmo tempo utopia de todas as escolas jornalísticas.

          As duas histórias são então unidas. Henrik Vanger sempre acompanhou a carreira de Mikael, pois como o pai do jornalista tinha sido seu empregado nas décadas de 1950 e 1960, o empresário sentia orgulho pelo fato de o pequeno Blomvski ter se tornado um profissional ético e respeitado na mídia sueca. Vale destacar que o histórico de Mikael Blomvski como jornalista competente e incorruptível impressionava muito o empresário. Afinal, era sabido que somente com sua experiência como investigador político e econômico, desde o início de sua carreira até o final da década de 1980, foi possível lançar a proposta da conhecida Revista Millennium em 1990.

lisbeth_salander

          Ao saber de sua condenação, Henrik tenta então contratar o jornalista para duas missões: elaborar um memorial sobre a família Vanger e desvendar o desaparecimento de Harriet.  A recompensa? Henrik pagará uma quantia altíssima para o jornalista fazer uma intensa pesquisa sobre o desaparecimento da jovem herdeira e promete provar de maneira incontestável que Wennerström é de fato um corrupto. A família Vanger manteve por anos dossiês sobre o fraudulento empresário, materiais que poderão culminar em uma reportagem que resgatará a boa reputação de Blomvski.

          Mikael desconfia inicialmente da proposta, mas a história intrigante da família Vanger o atrai e, como procurava exílio até chegar o período de sua prisão, resolve passar uma temporada na sombria região de Hedestat.

          Contudo, ainda faltava um elemento essencial para que a trilogia fosse realmente instigante. Lisbeth Salander, brilhantemente interpretada por Noomi Rapace, é sem dúvida a melhor personagem do filme. Em um primeiro momento alguém poderia sentir certo estranhamento com a aparência dela que mistura elementos góticos com a repulsa pelo contato social. Ela paradoxalmente enche a cena, mas não quer falar e nem ser vista.

          Primeiramente é procurada por Mikael que invade sua casa pedindo para que o auxilie na sua pesquisa. Como sua própria história de vida se mistura com a de Harriet, eles desenvolvem uma relação ambígua que se aprofunda nos três filmes. Sem a intervenção da hacker, o jornalista não teria o acesso a informações imprescindíveis para a solução do mistério.

          Lisbeth tem memória fotográfica, inteligência acima da média e uma atração obsessiva pelo perigo e perfeição. Ela possui vários mistérios que são desvendados nos dois primeiros filmes da série Millennium. Em qualquer outro contexto a julgaríamos como uma criminosa ou imoral. No enredo de Larsson, ela se torna a anti-heroína, uma vítima que busca se vingar de seu passado expondo de forma incomum os criminosos tão reais e presentes em qualquer sociedade.

          Mikael e Lisbeth montam uma força tarefa e passam meses desvendando todos os podres da família Vanger. Eles mergulham num trabalho investigativo orientado pelo método do repórter.  São ameaçados, perseguidos e aos poucos vamos compreendendo as relações doentias entre os membros da família milionária e moralmente decadente. Em alguns momentos do filme, todos são considerados suspeitos pelo desaparecimento de Harriet, inclusive Henrik.

          Os cenários do filme são dignos de um bom thriller. Os vilarejos isolados, os contrastes entre mansões da família milionária (todos se odeiam e são vizinhos desde a infância) e a precária cabana onde Blomvski monta seu QG nos envolvem nas tramas infindáveis da promíscua família Vanger. Ao longo de duas horas, não vemos nem uma vez uma cena com sol. “Os homens que não amavam as mulheres” abre com chave de ouro uma série de filmes baseados nos livros póstumos de Stieg Larsson.

          Os outros dois filmes “A menina que brincava com fogo” (2009) (Flickan som lekte med elden) e “A rainha do castelo de ar” (2009) (Luftslottet som sprängdes) são focados no passado trágico da protagonista Lisbeth Salander. Há também a versão americana, dirigida por David Fincher e lançada em 2012, que aborda o conteúdo do primeiro livro.

           Em “Os homens que não amavam as mulheres” há algumas menções de que na infância de Lisbeth houve um grave incêndio provocado por ela. Ela defende sua mãe depois de um dos diversos ataques que sofreu de seu pai, personagem extremamente agressivo e o grande vilão dos dois últimos filmes da franquia.

          No segundo filme, “A menina que brincava com fogo”, o roteiro envolve o mistério sobre as relações entre o russo Alexander Zalachencko (Zala) e Lisbeth. A revista Millennium é recolocada no cenário jornalístico da Suécia e um novo tema vira foco de investigação de seus sócios e colaboradores: uma rede de tráfico de mulheres. Mikael deixa de ser o grande herói da história e as cenas mais marcantes envolvem perseguições entre Lisbeth e gangues de traficantes russos, capangas e policiais aposentados. Não há exatamente um final do filme, apenas um “to be continued”.

          O último longa da série, “A rainha do castelo de ar”, também gira em torno dos desfechos da história de vida de Lisbeth. Para os fãs de Stieg Larsson, o último livro fecha brilhantemente um ciclo, mas para quem admira um bom roteiro cinematográfico, o último filme é bastante inferior aos anteriores.

          Blomvski permanece o filme inteiro às voltas da elaboração de uma grande reportagem, que na verdade inclui os dados já coletados anteriormente. Será uma edição especial da Millenniun.

flickan-som-lekte-med-elden1

          Muitas sequências em hospital, reuniões de editoria, brigas grotescas entre bandidos e mocinhos e, assim, o filme torna-se menos envolvente. A revista é alvo de censura; negociatas entre Blomvski e defensores públicos são feitas em casarões antigos. O filme possui a narrativa mais longa de todos. Síndrome de fim de seriado.

          Sem dúvida alguma, as cenas mais tensas são as do julgamento de Lisbeth Salander, seus olhares, sofrimento e silêncio serão sua maior defesa.

          Na esperada cena final, a protagonista consegue pronunciar um revelador “Obrigada por tudo”.

          Reza a lenda que Stieg Larsson escreveria dez volumes para a série Millennium. Sua morte interrompeu a promessa, mas a julgar pela Trilogia, podemos afirmar que o autor possuía uma boa formação jornalística e uma escrita extremamente metódica. Qualificações essenciais para um bom foca.

Referências e Links Interessantes:

LARSSON, S. Os homens que não amavam as mulheres. Tradução Paulo Neves. São Paulo:  Companhia das Letras. 2010.

_________. A menina que brincava com fogo. Tradução Paulo Neves. São Paulo: Companhia       das Letras. 2010.

_________. A rainha do castelo de ar. Tradução Paulo Neves. São Paulo: Companhia das Letras.  2010.

Site dos filmes: http://dragontattoofilm.com/

Informações: http://www.imdb.com/title/tt1132620/?ref_=tt_rec_tt

Ficha Técnica:

Título: Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Ano de produção: 2009

Direção: Niels Arden Oplev

Roteiro: Nikolaj Arcel, Rasmus Heisterberg

Produção: Søren Stærmose

País: Suécia

Elenco: Michael Nyqvist, Noomi Rapace, Ewa Fröling

Título: A Menina Que Brincava Com Fogo

Ano: 2009

Direção: Daniel Alfredson

Roteiro: Jonas Frykberg

Produção: Soren Staermose, Jon Mankell

País: Suécia

Elenco: Noomi Rapace, Michael Nyqvist, Lena Endre, Ewa Fröling

Título: A Rainha do Castelo de Ar

Ano: 2009

Direção: Daniel Alfredson

Roteiro: Ulf Ryberg

País: Suécia

Elenco: Noomi Rapace, Michael Nyqvist, Lena Endre,

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s