Histórias Cruzadas

Por: Agnes S. Guimarães

          Historias CruzadasEm 1962, na cidade de Jackson, Mississipi, Eugenia “Skeeter” Phelan (Emma Stone) retorna à casa dos pais depois de terminar a faculdade de jornalismo. Enquanto ela aguarda uma oportunidade de emprego num grande veículo, permanece na sua cidade natal e convive com conflitos raciais entre as empregadas negras domésticas e suas patroas, jovens, brancas e, muitas vezes, criadas pelas mesmas mulheres que, hoje, cuidam dos seus filhos. E o faro jornalístico aguça a sensibilidade e a indignação diante das relações cruéis entre brancos e negros.

          A ausência de Constantine (Cicely Tyson), sua babá, e a incompreensão para o engajamento das amigas na construção de banheiros exclusivos para domésticas – separados, portanto, dos banheiros das famílias-, Skeeter decide escrever um livro com relatos das empregadas, a começar pela experiência de Aibillen Clark (Viola Davis), que criou cerca de dezessete crianças, enquanto perdeu seu único filho, vítima de um acidente. Embora relutante no começo, a melhor amiga de Aibillen, Minny Jackson (Octavia Spencer), resolve contar sua história, e, aos poucos, outras empregadas ajudam a jornalista.

          Baseado no livro The Help, de Kathlyn Stockett, Histórias Cruzadas fez um estrondoso sucesso, tanto nas bilheterias quanto entre os críticos. A atriz Octavia Spencer ganhou um Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo seu papel como Minny, e o elenco, majoritariamente feminino, ganhou o prêmio de melhor elenco do Sindicato dos Atores dos Estados Unidos (SAG Awards).

          A aclamação pelo filme se deve desde ao elenco carismático e talentoso até a forma em que o público é cativado por uma história que envolve um tema considerado uma das maiores manchas da história dos Estados Unidos: as leis de segregação racial (conhecidas como Leis de Jim Crow), em vigor nos estados sulistas do país por mais de setenta anos (1890-1965).

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          No entanto, alguns críticos reclamam sobre o caráter happy-ending do filme, uma obra que seria feita para emocionar o público, mas que deixa de lado o protagonismo do movimento negro dentro das lutas pelos direitos civis. Afinal, se ocorre alguma mudança na vida das personagens negras do filme, é algo sempre atrelado a alguma personagem branca, relação que aparece, de forma indireta, na chamada principal do filme: Change begins with a whisper (Mudança começa com um suspiro). Dentro do enredo, o suspiro é a empatia mútua que finalmente aparece entre as relações interraciais da comunidade de Jackson, e representada tanto pelo trabalho de Skeeter com as empregadas quanto pela relação entre Minny e Celia Foote (Jessica Chanstain).

          Polêmicas à parte, o trabalho desenvolvido pela personagem de Emma Stone oferece ao espectador um panorama sobre o momento do jornalismo na década de 60. Formada em jornalismo, Skeeter, em vários momentos do filme, manifesta sua vontade em seguir a carreira literária. “Eu vou ser uma escritora séria”, ela diz, na sua primeira entrevista de emprego. Vale lembrar que o filme se passa na década de 60, época dos anos dourados do New Journalism. Jornalistas eram repórteres mas, sobretudo, eram escritores. Era a década em que Truman Capote publicaria A Sangue-Frio (1966), relato de um caso verídico de assassinato, clássico conhecido pela precisão dos detalhes e ao mesmo tempo, pela complexidade psicológica dos personagens, elementos típicos do romance literário e que passaram a aparecer, com mais frequência, na obra de outros jornalistas, como Gay Talese e Norman Mailer.

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          Para que seu livro seja aceito, Skeeter precisa da máxima quantidade de relatos possíveis. Ou seja, quanto mais fontes, melhor. Isso fica bem claro nas cenas em que a jornalista conversa com a srta. Stein (Mary Steenburgen), editora interessada pelo material: “Preciso que consiga mais o mais rápido possível, antes que esse negócio todo de direitos civis acabe”, ela explica. Ou seja, além da preocupação em elevar a credibilidade do tema bancado pela repórter (a de que as crianças brancas, quando patroas, repetiam as mesmas opressões impostas pelos pais às suas babás), com a variedade de relatos, a srta. Stein se atenta, também, ao valor-notícia do assunto, no caso, a luta contra a segregação racial, em sintonia com o trabalho da repórter. Esse valor-notícia garantiria repercussão e vendas, mas precisaria estar na onda e explorar o momento certo.

          Por questões de segurança, Skeeter muda os nomes de todos os personagens, à semelhança de um roman à clef, recurso literário em que o autor trata pessoas reais como personagens fictícios. No jornalismo, essa decisão, tal como o off, é bastante controversa, mas garante uma das regras básicas na deontologia do jornalismo: a preservação da fonte. Um caso mais próximo do uso do “anonimato” na reportagem brasileira foi o trabalho da jornalista Daniela Pinheiro para a revista Piauí: “A afilhada rebelde”, sobre a relação entre a então candidata à reeleição da presidência Dilma Roussef e o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (edição 97, outubro/2014).

          Embora admita preferir trabalhar com a divulgação dos nomes reais de suas fontes, Pinheiro, ao explicar sobre a opção pelos offs, ressalta o teor das declarações que conseguiu, cujo caráter controverso não permitia a exposição dos nomes que se dispuseram a conversar com a jornalista. Mas graças ao valor-notícia do assunto (a reeleição, as chances da derrota da presidente), ela preferiu conduzir o trabalho dessa forma, ao invés de desistir de qualquer fato que não permitisse a divulgação da fonte.  “Eu não acho que seja uma missão contribuir ou não para o uso de offs entre aspas. É como eu falei: eu prefiro matéria sem off, mas eu prefiro a matéria à não-matéria. Essa é uma matéria.”

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          Com os relatos, Skeeter consegue produzir um trabalho que, para muitos historiadores, seria um documento historiográfico preciso da época. A autora ouve as depoentes e identifica coerência nas narrativas de como eram as relações entre patroas brancas e empregadas negras. As regras de sociabilidades e de diferenciação eram claras e se repetiam nos relatos, o sofrimento desencadeado pela discriminação, pela indiferença e até crueldade emergiam com verossimilhança nas lembranças de décadas de trabalho e humilhação. O cotidiano, os sentimentos vívidos nas vozes das mulheres e as formas de uso do banheiro desvelaram o racismo no espaço privado e na vida íntima, sensibilizando leitores do livro e o público do filme.

          E por fim, Skeeter era uma jornalista distante da realidade das empregadas, embora tivesse a infância marcada pela sua relação com a babá. Houve, portanto, o registro das histórias de uma minoria social sob a ótica de uma representante da categoria hegemônica daquela sociedade, assim como o filme e o livro foram escritos por autores/diretores brancos.  Como em diversas outras produções jornalísticas, o profissional estranho a um grupo discriminado e oprimido busca empatia, coloca-se como parte dele, faz a mediação, e cria uma leitura levando a realidade dessas pessoas para outras que não a conhecem, sensibilizando e estimulando a solidariedade política. Por outro lado há um limite, não é um membro do próprio grupo que denuncia a discriminação.

          Portanto, em tempos de discussões sobre a pluraridade de vozes na mídia, é interessante observar, no exemplo de Histórias Cruzadas, a importância do protagonismo das minorias, e os desdobramentos de sua ausência.

Links e referências interessantes:

DE PAULA, Francislene Pereira, MACHADO, Marcello Pereira. “Nós Contamos Nossa História”: Cidadania e Protagonismo Midiático de Cegos na Comunicação Organizacional Disponível em: http://www.unicentro.br/redemc/2012/artigos/32.pdf

GROENT, Rick. The Help: Civil rights lite, played for laughs. Disponível em: http://www.theglobeandmail.com/arts/film/the-help-civil-rights-lite-played-for-laughs/article629557/

Histórias Cruzadas. http://www.historiascruzadas.com.br/

LAURIER, Joanne. The help: a civil rights film that ignores the civil rights moviment. World Socialist Web Site. Disponível em: http://www.wsws.org/en/articles/2011/08/help-a27.html

Ficha técnica:

Título original: The Help

Ano: 2011

Direção: Tate Taylor

Roteiro: Tate Taylor, adaptação do romance (The Help) de Kathryn Stockett

Elenco: Jessica Chastain, Viola Davis, Bryce Dallas Howard, Allison Janey, Octavia Spencer, Emma Stone

Gênero: Drama

Duração: 146 minutos

Trailer:

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