Obsessão

Por: Priscila Belasco

Em Obsessão (The PapeThePaperBoy_24x40.inddrboy, 2012) Zac Efron desconstrói um pouco mais sua imagem de garoto da Disney e incorpora no drama o jovem e bonito Jack Jansen, um entregador de jornal do sul dos Estados Unidos. Ambientada em Moat County, Flórida, a história se propõe a contar como a vida de Jack, sem rumo e sem motivação, ganha um novo capítulo quando seu irmão volta à cidade natal para investigar a prisão de Hillary Van Wetter, acusado de assassinar o xerife local. Com falhas na investigação e sumiço de evidências, Ward Jansen (Matthew McConaughey) juntamente com o escritor Yardley Acheman (David Oyelowo) tenta reunir provas e ligar os pontos de um crime mal esclarecido, mas a curiosidade dos jornalistas ganhou proporções insustentáveis.

Dirigido por Lee Daniels (The Butler) o longa-metragem tem participação importante da cantora Macy Gray, que na pele de Anita Chester narra como se deram os eventos no verão de 1969. Obsessão também conta com a presença marcante e violenta de John Cusack vivendo o encarcerado e sombrio Hillary e de Nicole Kidman, interpretando a sexy e apaixonada Charlotte Bless ao estilo femme fatale. Com roteiro de Lee Daniels e Pete Dexter, a obra fílmica foi inspirada no livro de mesmo nome, lançado em 1995 por Pete Dexter, e ganhou prêmios para Ator do Ano e Prêmio Especial para o Melhor Corpo do Trabalho, ambos para Matthew McConaughey.

Com a prisão supostamente forjada de Hillary Van Wetter, Ward Jansen, repórter do jornal Miami Times, retorna às suas origens para tentar descobrir o que realmente aconteceu e se o condenado à cadeira elétrica é realmente culpado pelo homicídio. Sendo ajudado por Charlotte Bless, uma mulher sedutora e que troca correspondências com Hillary na cadeia, Ward se torna obcecado pela investigação e acaba colocando sua própria vida em perigo. Jack Jansen, que à primeira vista é apenas um garoto confuso e apaixonado perdidamente por uma mulher mais velha, torna-se peça chave na trama ao advertir o irmão de que os limites éticos da profissão estavam sendo ultrapassados. Estavam se envolvendo com gente perigosa, agressiva e que não se manteria pacífica ao ter estranhos fuçando em sua privacidade. Jack, que abandonado pela mãe foi criado pela empregada da casa, sofreu duro golpe ao perder de uma só vez seu irmão e a mulher que amava pelas mãos do psicótico do pântano, Hillary Van Wetter, cuja inocência estava tentando ser descoberta.

kinopoisk.ru The Paperboy, longe de ser um filme fabuloso, tem certa relevância para a reflexão sobre o que é ser jornalista. Com cenas que parecem não se encaixar na trama e que são totalmente dispensáveis, como por exemplo a cena na praia em que Charlotte urina em Jack quando esse sofre uma alergia ao ser atingido por águas vivas ou a cena na prisão em que Hillary e Charlotte se estimulam visualmente e atingem o orgasmo, o filme perde credibilidade. São passagens que não acrescentam nada de valioso ao filme e causam perplexidade e surpresa negativa a quem está assistindo. Em contrapartida, com um elenco de peso e que convence com as interpretações, Obsessão também aborda questões sociais e polêmicas no contexto em que é ambientado, como as diferenças raciais e de classe e a questão da homossexualidade, injetada no personagem de Matthew McConaughey, que sofre em silêncio sua atração pelo colega de trabalho Yardley Acheman.

No que tange o exercício da profissão de jornalista, dois aspectos primordiais precisam ser destacados. O primeiro se refere às notícias sensacionalistas que buscam exclusivamente a venda de jornais e o lucro do proprietário. No longa isso é explorado quando W.W. Jansen, pai do protagonista e dono de um jornal local, publica como matéria de capa o episódio em que Jack é salvo pela urina de Charlotte. Mais do que expor o filho a uma situação ridícula e pejorativa, o que o genitor faz é selecionar uma informação que vai vender, que vai chocar, que vai fazer circular o produto que oferece, mesmo que essa informação não respeite a imagem do próprio filho.

kinopoisk.ru O segundo aspecto que precisa ser salientado é aquele em que frisa no respeito aos limites profissionais. Ultrapassar barreiras, às vezes, pode ser interessante na medida em que o jornalista vai mais longe que o resto da categoria. Desde que esse ir além seja consciente e firme, o jornal e os leitores só tendem a ganhar em aprofundamento e veracidade. Entretanto, situações como a que Ward vive na obra, surrado e humilhado num quarto de hotel, evidenciam que não há razão para alguém se expor a riscos que atentem contra a própria integridade física na ânsia de se chegar mais ao fundo de uma história. É necessário ter pudor, discernimento para saber quando parar. Ward disse, já no fim do filme, que se sentia mal por ter abandonado a história, que algum fato crucial foi deixado de lado. Esse remorso, arrependimento por um trabalho não finalizado acabou custando caro demais ao jornalista, que morreu buscando desatar os nós.

A obra retrata o lado do jornalista investigativo que não se contenta com suas atribuições limitadas e acaba confundindo seu trabalho com uma operação policial, sem impor limites aos seus próprios impulsos. Ward é obstinado, mas sua ousadia somada a momentos de embriaguez o levam a tomar escolhas precipitadas. Ele não consegue dar um passo atrás quando a situação se torna perigosa demais e, ferido em um pântano isolado e lamacento, sem testemunhas para de alguma maneira intervir na história, resta a seu irmão mais novo dar um final menos trágico e fazer justiça a uma investigação que se mostrou despropositada.

Com um cenário e figurinos que fazem jus às décadas de 60 e 70 e personagens que se diferem pelos dramas particulares, The Paperboy choca o espectador, ora de maneira positiva ora negativa, pelas cenas de violência. Essa violência está contida principalmente em John Cusack, que sendo um ator notável como sempre foi, chega a ser grotesco nesse papel de facínora, mesmo em momentos de intimidade com a personagem de Kidman. Zac Efron também surpreende na atuação, mesmo que seu papel só pareça ter sentido nas cenas finais.

Certamente não é o melhor trabalho do diretor Lee Daniels, que traz na bagagem o sucesso Preciosa – Uma história de Esperança, mas, com 107 minutos de duração, Obsessão pode despertar reflexões sobre ética no trabalho e alertar sobre condutas profissionais nocivas.40-thepaperboy (1)

Links e Referências Interessantes:

DEXTER, Pete. The Paperboy. Random House. 1995. Disponível em: http://www.goodreads.com/book/show/52424.The_Paperboy

LEHMANN-HAUPT, Christopher. Books of the times: Of Journalists, Hypocrisy and Betrayal. Disponível em: http://www.nytimes.com/1995/01/12/books/books-of-the-times-of-journalists-hypocrisy-and-betrayal.html

OGEDA, Alessandra. Crítica (non) sense da 7 Arte. Disponível em: https://moviesense.wordpress.com/2013/10/06/the-paperboy-obsessao.

Ficha Técnica:

Título original: The paperboy

Direção: Lee Daniels

Roteiro: Lee Daniels e Pete Dexter

Gênero: Drama e suspense

Lançamento: 24 de maio 2012 (EUA), 4 de outubro 2013 (Brasil)

Idioma: Inglês

Música: Mario Grigorov

Elenco: Matthew McConaughey, Zac Efron, John Cusack, Macy Gray, Nicole Kidman, Scott Glenn, Nealla Gordon, Ned Bellamy, David Oyelowo.

Trailer:

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