Cinco dias de Guerra

Por: Vinicius Vermiglio

      1486193_big    “A primeira vítima da guerra é a verdade”, disse Hiram Johnson, senador dos Estados Unidos em 1918. A frase cima é a primeira imagem de 5 dias de guerra, um filme sobre como os jornalistas Thomas Anders e seu amigo e repórter-cinematográfico, Sebastian Ganz, fazem de tudo para ir atrás de uma história digna do noticiário americano em plena guerra entre Geórgia e Rússia.

          A frase do senador Johnson poderia ser ligeiramente alterada e ainda seria coerente e de uso correto: “A primeira vítima do cinema é a verdade”. Utilizando-se da justificativa clássica de Hollywood para conquistar e convencer o público de estar contando uma história que realmente aconteceu, logo após o título do filme, descobrimos que a história é “baseada em fatos reais”, deixando para nossa imaginação pensar que partes do filme são reprodução do real ou trama de Hollywood.

          Anders e Ganz são clichês da representação dos jornalistas criados pela indústria do cinema: são corajosos, fazem de tudo por uma história, possuem conexões para sair de situações difíceis e sempre chegam onde querem. Resumindo, em menos palavras, são anti-éticos e imprudentes.

          Os jornalistas estão na Geórgia, país que está a ponto de ser forçado a entrar numa guerra com a Rússia. Enquanto o mundo e a mídia estão preocupados com as Olimpíadas em Pequim, os jornalistas precisam de uma história que consiga chamar mais a atenção do que os jogos internacionais.

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          Numa cena, jatos russos bombardeiam um casamento georgiano, por acaso onde estavam os jornalistas. O repórter-cinematográfico filma o cenário de horror, sem pestanejar: pessoas mortas, uma criança sem os membros inferiores, o noivo morto, a noiva desesperada. É o “show” que as emissoras americanas querem transmitir. Em nenhum momento consideram a exploração da tragédia e a falta de respeito para com a perda do outro. Sob o mantra “estou apenas fazendo meu trabalho”, os jornalistas também filmam o hospital pós-ataque russo, com os georgianos agonizantes.

          Uma ironia, logo após a cena descrita acima, demarca o exemplo de “consciência seletiva” que Anders possui. A CNN transmite uma entrevista feita com Putin e encerra o assunto. “É isso? E o lado de Georgia?” Anders pergunta para sua produtora. O jornalista revolta-se com o desequilíbrio na cobertura americana, mas não hesita um segundo antes de explorar a tragédia georgiana assim que esta ocorre.

          Aventureiros e bravos “newsmen” que são, eles vão até mesmo além do que o exército georgiano se arrisca. O objetivo é chegar numa cidade fronteiriça, prestes a ser invadida pelo inimigo, e também ajudar a mais nova integrante do grupo a encontrar a família. A jovem Tati estava no casamento, foi ajudada pelo jornalistas e agora está em busca da irmã e do pai. Os americanos ajudam-na pois acreditam que ali está a sua história. “Separações, reencontros, lágrimas. É isso que eles querem”, declara Ganz quando aponta a câmera para a garota abraçando seu pai.

          Numa cidade prestes a ser dominada pelos inimigos russos, os jornalistas conseguem o material do qual foram atrás. Eles conseguem filmar um “crime de guerra” – homens cruéis fardados executando civis desarmados. Porém, eles são capturados pelos russos, que exigem o cartão de memória no qual foram registrados cenas dos crimes. Quando Ganz está prestes a ser torturado, o exército da Georgia invade a casa onde os americanos estavam presos e salvam a todos. O grande objetivo agora é fazer com que as imagens sejam transmitidas para alguma emissora. A solução que Anders encontra é a mais anti-ética possível, colocando a vida da pessoa da qual ele pede um favor em absurdo risco. O final do filme, pela ação e benção do acaso, é previsível e tudo acaba bem e a favor daqueles que estavam “com o coração no lugar certo”, como diz o piegas clichê americano.

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          Esse tipo de “jornalismo suicida” não é problematizado. Quando o grupo de georgianos com os quais os jornalistas ficam juntos, estão sendo perseguidos pelos russos, Anders literalmente pula de um carro em movimento para ir atrás do cartão de memória com as filmagens do crime de guerra. A irracionalidade dos jornalistas é justificada pelo paixão à profissão e a vontade de mostrar o que consideram ser a verdade. Sem preparo nenhum, apenas a experiência adquirida com coberturas passadas, sem equipamento adequado à uma situação de guerra, sem proteção de exército nenhum, os jornalistas fazem o que for preciso para conseguir a história. Um heroísmo semelhante a inúmeros outros dos filmes do cinema de entretenimento em que o personagem central, com coragem invejável, desafia inúmeros riscos, convive com a morte, mas vence os oponentes em trajetória mirabolante e, no final, atinge seus objetivos, faz justiça e redime a sociedade.

Links e referências interessantes:

5 days of august. Disponível em: http://www.metacritic.com/movie/5-days-of-war/critic-reviews

http://www.rottentomatoes.com/m/5_days_of_war/

HOLDEN, Sthephen. More Than One Kind of Deadline. Disponível em: http://www.nytimes.com/2011/08/19/movies/5-days-of-war-shows-russia-and-georgia-in-conflict.html?_r=0

Ficha Técnica:

Título Original: 5 days of august
País: EUA
Ano: 2011
Diretor: Renny Harlin
Roteiro: Mikko Alanne e David Battle
Produtor: Mirza Davitaia
Elenco: Rupert Friend, Emmanuelle Chriqui, Richard Coyle, Andy Garcia, Val Kilmer.

Trailer:

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