118 Dias

Por: Gabriel Dos Ouros

100429Baseado em fatos reais, 118 dias (Rosewater) conta a história do jornalista londrino e natural do Irã, Maziar Bahari (Gael Bernal), que deixou Londres e sua mulher grávida para cobrir as eleições presidenciais de seu país de origem em 2009, pensando em ganhar um dinheiro extra para ajudar nas despesas de seu filho que está por vir. O então presidente linha dura do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, está aparentemente prestes a perder a eleição para o reformista Mir Houssein Mousavi, mas surpreendentemente Ahmadinejad consegue se reeleger com uma larga margem de votos. As consequências disso? Manifestações populares, repreensão da polícia, a prisão de Bahari – que conseguiu filmar um assassinato da polícia contra um civil – e a tortura para que o jornalista confesse, em rede nacional, ser um espião do Ocidente. Mas será que um regime autoritário e opressor em plena era da informação consegue se manter com mentiras e manipulações?

Antes de continuar escrevendo sobre o filme, é importante notarmos seu diretor: Jon Stewart – comediante, ator e, até recentemente, apresentador do programa estadunidense The Daily Show, que satiriza a política norte-americana e do resto do mundo. Rosewater é seu primeiro filme e nada mais natural para ele do que uma história crítica ao regime autoritário e repressor de Mahmoud Ahmadinejad, que realizou diversos ataques ao governo norte-americano e desprezou direitos humanos, principalmente durantes as manifestações de 2009, em que houve assassinato e tortura, como mostrará o filme. Algumas pitadas de humor estão presentes, principalmente na última parte.

O filme começa com três policiais iranianos entrando na casa da mãe de Bahari em sua procura e começa a interroga-lo. Um dos policiais o acusa por pornografia e confisca alguns de seus objetos culturais, como o DVD do filme italiano de Pasolini, Teorema; DVDs da Família Soprano; um disco de Leonard Cohen e outros objetos, inclusive uma revista, que era, de fato, pornográfica. O policial não parece interessado em ouvir justificativas e o leva preso.

Em seguida, retorna onze dias na história, quando o jornalista começa a arrumar as malas e se despedir de sua mulher. A cena tem alta carga emocional. Ele se despede de sua esposa grávida e garante que ficará apenas uma semana no Irã.

Antes de embarcar na viagem, lembra-se do funeral de sua irmã Maryam, que morrera há três meses, e demonstra uma imensa compaixão e consideração por ela. Maryam foi presa em 1980 e lá permaneceu durante seis anos por ser comunista, assim como seu pai, Baba Akbar, que foi preso pelo mesmo crime no passado. Baba Akbar sofreu tortura física enquanto preso e, mesmo assim, nunca falou nada e nem entregou ninguém. Este fato é marcante para Bahari, que refletirá sobre isso algumas vezes.

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Ao chegar no Irã, no dia 11 de junho de 2009, o jornalista pega um táxi com um Davood, defensor de Mousavi, e o convida para ser seu motorista. Quando chega na casa de sua mãe, expressa simpatia pela eleição de Mousavi.

Quando Bahari vai entrevistar Alizera Abkar, britânico-iraniano e líder estudantil da reeleição de Almadinejad, cita a preocupação de muitas pessoas e de Mousavi sobre uma possível manipulação das eleições. Abkar perde a tranquilidade e diz que é tudo mentira, e ainda provoca: “Estou surpreso, Sr. Bahari, que uma pessoa sofisticada acredite nisso”.

Logo em seguida, Davood leva Bahari para a periferia, para que ele registre “o outro lado”. Os dois entrevistados apoiam Mousavi e não apresentam nenhum medo da câmera, mesmo com Bahari receoso – quando eles mostram antenas parabólicas, que são ilegais e dão acesso à TV internacional e à internet para a população que reside ali, o jornalista para de filmar por temer represálias do governo, apesar da insistência dos dois.

Mesmo com todos indícios da vitória de Mir Hussein Mousavi, Ahmadinejad é anunciado vencedor e o jornalista é impedido de entrar em um dos locais de votação pela polícia. Manifestantes inundam as ruas de Teerã e o Líder Supremo, Ali Khamenei, condena as manifestações, pois elas desafiariam os princípios da democracia e ainda diz que quem for às ruas será responsabilizado por todo tumulto e violência que ocorrer. Bahari decide ficar mais alguns dias no Irã e os protestos por democracia, recontagem e liberdade continuam.

Cenas de arquivo das manifestações são mescladas com cenas gravadas para o filme, o que nos dá um panorama do que de fato acontecia ali. A câmera em movimento colabora para transmitir-nos a sensação de rebelião e dinamiza as cenas.

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Havia uma manifestação na sede da milícia Basij, e Bahari conseguiu filmar o assassinato de um civil pela polícia após Davood criticá-lo por ter uma arma (a câmera) e não a usar. Com o aval de Bahari, a filmagem foi ao ar. Aqui, o filme chega à cena inicial, quando três homens levam o jornalista preso.

Bahari é aprisionado numa sala pequena e com pouca iluminação. Em seu primeiro diálogo com Javadi – que o torturará e o interrogará o filme todo –, o jornalista tenta justificar sua filmagem, dizendo que ele estava credenciado e que a violência eclodiu enquanto ele filmava. Javadi nega que esse seja o motivo da prisão, e explica que ele está preso por ser um espião estrangeiro em solo iraniano.

Na conversa de Javadi e seu chefe, ele mostra a intenção de que o jornalista confesse ser um espião para que as pessoas pensem terem sido enganadas por ele, que estaria seguindo ordens de estrangeiros, sionistas e judeus do Ocidente. “Não deve lhe tirar apenas o sangue, Javadi. Deve lhe tirar as esperanças”, afirma seu chefe em outra parte do filme. Questionado por que ele se encontrou com um espião americano nas vésperas da eleição, Bahari afirma que é um programa de TV de humor, em que o apresentador comediante finge ser um espião.

A partir daí, Bahari será submetido a uma constante tortura psicológica, chegando à agressão física em alguns momentos, mas nada muito chocante. Javadi utiliza técnicas de persuasão para cansar Bahari e fazê-lo confessar. Também distorcerá a verdade dos fatos e recorrerá a diversos sofismas ao longo do filme. A Operação Ajax – em que um governo democraticamente eleito em 1953 no Irã foi derrubado por um golpe encabeçado pelas agências de inteligência do Reino Unido e dos Estados Unidos – chega a ser citada para justificar a tortura e o repúdio ao Ocidente e pressionar o jornalista.

Durante os quatro meses de prisão, Bahari demonstra tédio, saudade e lembrança da família, diálogos imaginários com seu pai e sua irmã e indecisão, e acaba confessando que é um espião – o que não adianta e a tortura continua.

Em vários momentos do filme, o diretor exibe a vulnerabilidade de Javadi e sua aparente falta de satisfação com a tortura. Bahari, através de uma epifania, descobre o ponto fraco de seu algoz – muito por conta da realidade pouco libertária no Irã –, e desperta uma esperança, que será otimizada quando, por uma brecha de Javadi, consegue falar com a sua esposa e ela conta que todos estão ao seu lado, mobilizando-se. É nessa parte uma das cenas mais curiosas, em que o jornalista começa a dançar dentro da sala, o que revela a intenção do diretor em deixar o longa mais bem-humorado.

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            O filme defende alguns princípios éticos internacionais do jornalismo, como a busca pela verdade, a responsabilidade social do jornalista e o respeito à diversidade cultural e a valores universais humanistas (paz, direitos humanos, progresso social, democracia).

Rosewater também toca em alguns assuntos sobre as possibilidades da internet, em que qualquer pessoa pode gravar qualquer acontecimento através de seu celular e depois reproduzi-lo nas redes sociais, podendo ganhar destaque na mídia e adesão de milhões de pessoas a determinada causa. Stewart se mostra otimista diante dessa realidade, demonstrando fé que isso seja importante para a construção de um Irã mais democrático e livre. É muito difícil manter um governo opressor com tanta tecnologia disponível – e aí reside uma forte crítica ao Irã, que possui restrições à liberdade de expressão e ao acesso à informação, apesar da insatisfação popular perante esse quadro.

A partir disso, podemos pensar nas manifestações de junho de 2013 no Brasil, quando, apesar de inicialmente a grande mídia noticiá-las de forma a hostilizar manifestantes e expressar desconforto com as manifestações, a divulgação dos acontecimentos (principalmente da repressão da polícia militar) principalmente por parte de mídias independentes e pessoas comuns mobilizaram milhões de pessoas no Brasil todo.

O filme foca muito no personagem de Gael e a sua atuação é admirável, porém o roteiro contém falhas e a segunda parte pode parecer monótona. Rosewater também parece um pouco ingênuo e se baseia na ideologia do diretor, tornando-se um pouco simplista em alguns momentos. Mesmo assim, é um filme que possui diversos nuances interessantes, desperta reflexões e vale muito a pena ser visto.

Links Interessantes:

http://rubensewaldfilho.blogspot.com.br/2015/03/118-dias-rosewater.html

http://www.rogerebert.com/reviews/rosewater-2014

http://variety.com/2014/film/reviews/film-review-rosewater-1201291126/

http://www.nytimes.com/2014/11/14/movies/rosewater-directed-by-jon-stewart.html?_r=0

http://www.maziarbahari.com/

http://www.theguardian.com/world/iran-blog/2013/feb/21/maziar-bahari-memoir

Ficha Técnica:

Título Original: Rosewater

Lançamento: 2014

Direção: Jon Stewart

Roteiro: Jon Stewart, baseado no livro “Then They Came for Me” de Maziar Bahari e Aimee Molloy

Duração: 2h 25m

Música: Howard Shore

Locação: Jordânia

Autores: Maziar Bahari, Aimee Molloy

Elenco: Gael García Bernal, Kim Bodnia, Dimitri Leonidas, Haluk Bilginer, Shohreh Aghdashloo, Golshifteh Farahani, Claire Foy.

Trailer:

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