La Dictadura Perfecta

Por: Michael Barbosa

La_dictadura_perfecta-995719025-largeEm La Dictadura Perfecta, filme mexicano de 2014 do diretor Luis Estrada, vemos um presidente que faz um comentário racista ter toda a atenção desviada do seu ato por uma gigantesca rede de televisão local que noticia com destaque um escândalo de corrupção envolvendo o governador Carmelo Vargas (Dámian Alcázar) que, em seguida, fecha um acordo milionário de “prestação de serviços em comunicação” com essa mesma rede de tevê, que se compromete a encobrir escândalos e elaborar um cuidadoso plano de valorização da persona política de Vargas.

Pode ser que seja o calor, que dizem ser antiprodutivo, a colonização ibérica escravista, católica e agroexportadora ou as terras e pessoas, tão abundantes; pode não ser nada disso ou um outro tanto, mas o Brasil e o México parecem ter muito a ver. Quando, em 1994, com uma manobra econômica conhecida como crawling peg – que atrelava o peso mexicano ao dólar americano -, o México viu sua moeda se valorizar acima do esperado, elevando as importações e o déficit, para, em seguida, desvalorizar em queda livre e enfiar o país em profunda crise, o Brasil rapidamente sentiu o golpe, sofrendo, por exemplo, com fuga de capitais estrangeiros; aos olhos de muitos especuladores internacionais se a coisa tinha ficado feia no México, alguma coisa podia dar muito errado no Brasil a qualquer momento – era o Efeito Tequila e o mesmo raciocínio usado na moratória da dívida mexicana da década de 80.

A ditadura perfeita terá a aparência da democracia

A fita se desenrola numa espécie de paródia política artificial, alegórica e novelesca de longa duração e uma infinidade de coadjuvantes. A trama trabalha de maneira extremamente hábil com o imaginário político e social do espectador, que é constantemente desafiado a substituir os personagens ficcionais do filme por figuras reais da mídia e da política – e logo no começo somos avisados que não se trata de mera coincidência. Nesse desafio reside algo interessante: as personagens, simulacros hiper sugestivos pensados à realidade mexicana, possuem igualmente um incrível poder de sugestão ao espectador brasileiro – e é de se imaginar que tão possivelmente também se adapta a Argentinos, Chilenos, Venezuelanos ou qualquer outro país latino-americano igualmente marcado pelo autoritarismo e controle político das classes dominantes e seus conchavos com grupos de mídia.

El Presidente (Sergio Mayer) um jovem playboy inventado presidente nos remete rapidamente a um certo caçador de marajás, blindado naquela eleição – para os mexicanos ainda mais atual, Enrique Peña Neto, atual presidente mexicano -; Tony Dalton e Afonso Herreira, que interpretam, respectivamente, o diretor de jornalismo da TV MX e um jovem produtor aspirante à vice-presidência de notícias da emissora, são, com certa margem de certeza e algumas diferenças circunstanciais, Roberto Irineu Marinho e Ali Kamel confabulando maquiavelicamente nos corredores da Globo no Rio de Janeiro. Intencional ou não esse é um ponto de flexão discursiva fascinante na obra de Estrada; os cenários áridos e o espanhol boca suja podem até nos alienar num primeiro momento, mas rapidamente as semelhanças se sobressaem e o México violento, corrupto e midiaticamente antidemocrático mais do que lembra o Brasil.

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No campo discursivo o que temos aqui é um filme fortemente político. Através da extremalização dos fatos Estrada cria uma obra que coloca no centro do argumento a ideia de que emissoras de televisão – no que foi enxergado, no México, como uma clara referência ao Grupo Televisa – deliberadamente encobrem, inventam e manipulam fatos noticiosos com propósitos políticos e a serviço de grupos políticos. Numa atmosfera pretensamente kafkiana o título se revela: se a tal ditadura é perfeita nada dará realmente errado para os protagonistas ao longo da história. De todas as personagens apenas o Deputado Morales (Joaquin Cosio) se revela uma pedra no sapato dos vilões-protagonistas, se valendo de um discurso moral e aparentemente íntegro para acabar sendo midiaticamente destruído e depois morto sem grandes dores de cabeça. A engrenagem político-midiática é perfeita e só o é pelo monopólio da TV MX, capaz de sozinha pautar todos os demais veículos. É possível dizer, sem grande receio do exagero, de que La Dictadura Perfecta ergue a bandeira da democratização midiática e da consequente luta contra os oligopólios da informação. É o excesso de poder que transforma a rede de televisão da história numa espécie de belzebu social, insaciável na sua fome por poder e, principalmente, dinheiro.

É na busca da MX por dinheiro – mais do que por política e projeto de poder – que temos uma visão questionável dos porquês da mídia agir como o faz. A MX da trama vende seus serviços de assessoria política aparentemente a qualquer um disposto a pagar. Perseu Abramo, no seu Padrões de manipulação na grande imprensa, por exemplo, argumenta no sentido contrário, de que pouco sentido faz em pensar nos grupos de mídia tendo como objetivo primário o lucro ao invés de um certo projeto ideológico e de poder – hipótese que, ao menos à realidade brasileira, parece ótima.

A estética da mentira

Quando a equipe da TV MX chega ao violento estado governado por Vargas se depara, ainda na estrada, com corpos enforcados pendurados a uma ponte e são recebidos violentamente por membros do cartel de drogas local que após um telefonema liberam a equipe, não sem antes pedir uma foto a Ricardo Díaz, um repórter-estrela da MX. Já no fim da película, quando o desfecho de um sequestro não sai como esperado a equipe resolve forjar e filmar o resgate perfeito, com tiroteios, assassinatos e o devido gran finale. Está ai uma característica marcante La Dictadura Perfecta: o exagero.

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Embora não se pareça, na maior parte do tempo, propriamente com uma comédia – o filme, diferente do que poderíamos esperar, por preconceito, de uma comédia mexicana, não apela às gags visuais – se trata, ainda, essencialmente, de uma paródia do real e, como tal, é caricato nas suas personagens e alegórico nos seus acontecimentos, o que pode ser bastante indigesto ao espectador que pretende levar a sério a obra como filme e comentário político (que é!). O absurdo das situações, sempre quase burlescas e quase impossíveis, que fazem o roteiro prosseguir, soma-se às personagens, que são basicamente arquétipos: corruptos, imunes a crises morais ou arrependimentos, raramente multifacetados, particularmente vilanescos – maus, pois. Soma-se, também, a artificialidade estética do filme e tudo isso junto pode levar a uma sensação constante de inverossimilhança e irrealismo. Mas, afinal, isso é uma sátira, se trata exatamente de radicalizar, ridicularizar e exagerar em cima de questões que concernem ao campo do real, tal qual as boas esquetes do Casseta & Planeta ou as charges d’O Pasquim.

Notavelmente bem filmado, La Dictadura Perfecta, é cheio de malabarismos estéticos e diegéticos. Boa parte das mais de duas horas da película se passa no telejornal 24 en 30, que por vezes aparece na perspectiva do espectador do programa, com direito a vinheta e gc, por vezes na perspectiva do estúdio e da equipe de produção – filmado de trás das câmeras que enquadram o jornal – ou até em planos abertos com diferentes espectadores-personagens assistindo e reagindo ao telejornal em takes curtos – enquanto isso cenas de alta importância para o roteiro se desenrolam dentro das próprias matérias do telejornal. Em outros momentos, cenas da telenovela Los pobres tambien aman irrompem na tela mais como alívio cômico do que com alguma função narrativa per si. Porém, mesmo além das cenas de jornal ou novela, tudo se reveste com uma forte estética tipicamente televisiva, mas aqui propositadamente fake, na direção de arte meticulosa, na fotografia extremamente clean e brilhosa. Os últimos dez minutos são especialmente novelescos, o tempo passa e cada personagem central da história tem seu devido desfecho apresentado, mas nada de casamentos e filhos para os bons e a loucura ou a morte para os maus, todos os vilões – que consiste em praticamente todas as personagens – saem triunfantes e sorridentes. Estrada parece nos dizer que a estética da televisão é a própria estética da mentira.

La Dictadura Perfecta é, enfim, um acerto. Faz da sátira crítica contundente, da inverossimilhança e da artificialidade coerência e da maldade tragicomédia. E mais, faz tudo isso sem concessões.

Links sugeridos:

https://es.wikipedia.org/wiki/La_dictadura_perfecta

http://www.forbes.com.mx/la-dictadura-perfecta-mas-alla-de-la-pelicula/

http://www.jornada.unam.mx/ultimas/2014/10/16/con-lleno-al-maximo-exhiben-en-auditorio-del-senado-la-dictadura-perfecta-4286.html

Ficha Técnica:

Título Original: La Dictadura Perfecta

Direção: Luis Estrada

Roteiro: Luis Estrada e Jaime Sampietro

Gênero: Comédia

Ano: 2014

País: México

Elenco: Alfonso Herrera, Damián Alcázar, Joaquín Cosio, Osvaldo Benavides

Gênero: Comédia

Duração: 143 min.

Trailer:

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