Como perder um homem em dez dias

Por Caroline Kraus Luvizotto

Vale tudo no amor e na guerra? Bull… shit!

19871068Verdadeiro ou falso: vale tudo no amor e na guerra? Para Andie Anderson (Kate Hudson) e Benjamin Barry (Matthew McConaughey), sim. Foi assim que a disputa entre Andie e Benjamin (Ben) começou. Andie, jornalista frustrada, engavetou seu diploma de mestrado em jornalismo pela Universidade Columbia enquanto se dedicava a escrever matérias do tipo “Como Fazer” para uma revista feminina de sucesso, a Composure. Ben, publicitário ambicioso, cansado de criar campanhas sobre carros, bebidas e esportes, buscava espaço no lucrativo mercado de joias. Os protagonistas iniciaram a trama em lados opostos, estabelecendo uma batalha em busca do sucesso profissional de cada um.

De um lado temos Andie, que almeja escrever sobre política, economia e religião, entre outras coisas que julgava importante profissionalmente. Sua editora chefe, Lana, não aceitava que a jornalista escrevesse sobre isso. Afinal, a Composure é uma revista feminina e mulheres não se interessam por essas questões. Elas querem ler sobre moda, fitness, dietas, compras, sexo, amor, filhos e diversos outros assuntos, fúteis, domésticos e considerados femininos. Esta é a primeira pista que o diretor Donald Petriee nos dá de que a trama apresenta estereótipos sobre as mulheres comumente reproduzidos pela mídia: a profissional infeliz, a consumista, a vaidosa, a neurótica, a fútil, a fraca.

Quer outra pista? Andie foi desafiada a escrever uma matéria sobre como perder um homem em dez dias. E como isso aconteceu? Sua amiga Michelle foi abandonada pelo namorado em menos de uma semana e ficou em estado de choque, absolutamente inconsolável, não sendo possível escrever a sua matéria para a próxima edição da revista. Rapidamente, Lana, a editora chefe, solicitou que alguém escrevesse sobre esse episódio, explorando o drama de Michelle, orientando comportamento adequado e fornecendo às leitoras entretenimento de primeira linha. Para proteger a amiga, Andie se ofereceu para fazer a matéria e deveria escrever sobre as atitudes das mulheres que, mesmo involuntários, afastavam os homens. Como recompensa, a editora promete que, após esse trabalho, ela poderá escrever sobre o que quiser. A hierarquia prevalece e cabe à jornalista cumprir seu papel de subordinada a uma chefe linha dura.

Do outro lado temos Ben (e mais uma pista de que a trama carrega estereótipos sobre as mulheres). Ele viu a oportunidade de crescer na carreira e ganhar muito dinheiro assumindo a conta publicitária da empresa Diamantes Delauer. O problema é que seu chefe destinou a conta para duas publicitárias, Judy Spears e Judy Green, pois acreditava que Ben não entendia a alma feminina. Na disputa pela conta milionária, as duas publicitárias desafiam Ben a provar que entende as mulheres fazendo uma mulher se apaixonar por ele em dez dias e depois deveria levar essa mulher à festa oferecida pela família Delauer. Se ele cumprisse essa tarefa a conta da Delauer ficaria com ele. “Eu consigo fazer qualquer mulher se apaixonar por mim”, disse Ben. Sabendo da missão de Andie para a Composure, Spears e Green apelam para a trapaça e pedem para Ben conquistar Andie, pois sabiam que ela faria de tudo para afastar um homem em dez dias.  Sedutor, mulherengo e solteiro convicto, Ben aceita a aposta e se apresenta à Andie.

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Durante os dez dias de desafio duplo ambos se esforçaram para alcançar seus objetivos. Andie acreditou que tinha seduzido Ben no primeiro encontro e que, a partir daí, teria que fazer coisas desagradáveis e até mesmo insanas para que ele a abandonasse. O que ela não sabia é que, mesmo irado e descontente com a situação, Ben não se afastaria, pois ficar com ela e faze-la se apaixonar em dez dias era a sua missão.

Andie atormentou Ben em todos os sentidos: foi a namorada pegajosa, ciumenta, desequilibrada, intrometida, indiscreta. Acreditava que a qualquer momento ele iria deixa-la. Mas ele resistiu. Tudo isso não foi o bastante para separar o casal, afinal, além de estarem determinados a cumprirem suas missões, eles acabaram se apaixonando.

O décimo dia chegou, Andie assume para sua editora chefe que se envolveu e que não pode escrever a matéria. A editora apela para o profissionalismo e exige que Andie termine o texto. Ben convida Andie para acompanha-lo, como sua namorada, na grade festa oferecida pelos joalheiros. Para a surpresa do casal, as farsas são reveladas durante a festa: Andie descobre que Ben precisava dela para ganhar a conta da Delauer e Ben descobre que foi o experimento de dez dias da garota do “Como Fazer” da Composure.

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            E aí vai a quarta pista que indica que estamos falando sobre uma comédia romântica cheia de estereótipos sobre as mulheres: o casal briga, se separa, mas Ben assume a conta milionária da Delauer, afinal, ficou evidente que Andie estava apaixonada por ele. Andie escreve a matéria. Ela conseguiu perder um homem em dez dias, mas não foi como ela esperava.  Assume que estava apaixonada por Ben e que o perdeu. Sua esperança de escrever para a Composure sobre os temas que achava relevante se esvai, pois novamente a editora chefe deixa claro que mulheres não se interessam por nada além de moda, compras, filhos, dietas, amor, sexo, fitness e outras coisas menos relevantes do que política, economia e questões sociais. Apesar de, no início do filme, abordar um problema vivido por muitos jornalistas, a censura e a falta de autonomia no desempenho da função, o filme não aprofunda a questão e esse assunto é abandonado no decorrer da trama. O que fica é a superficialidade da imprensa feminina, a mediocridade das profissionais envolvidas, a grande distância entre assuntos de interesses de homem e de mulher.

Derrotada e abandonada Andie se demite e agenda uma entrevista em um grande jornal em Washington. Mas como se trata de uma comédia romântica, o casal não podia se separar definitivamente. Vale tudo no amor e na guerra? Nesta comédia romântica vale tudo no amor: Andie abandonou a chance de trabalhar no jornal em Washington para viver o amor com Ben. Ele ficou com a conta publicitária milionária, com o sucesso, o dinheiro, a garota. E ela ficou com o amor. Todo o discurso de Andie e seu empenho para escrever sobre temas com relevância política e social se perdeu durante a trama.

Por mais que Andie seja uma jornalista determinada e preparada, sua carreira ficou em segundo plano. O filme também explora o estereótipo da mulher que larga tudo por amor, não importando a carreira, o sucesso e a satisfação pessoal. Além disso, durante toda a trama passou-se a ideia de que política, economia e questões sociais não fazem parte do universo feminino e de que uma jornalista, mesmo com mestrado, deveria se dedicar a escrever sobre outros temas, aqueles mais adequados aos gostos das mulheres, de acordo com o estereótipo frequentemente explorado pela mídia.

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E uma grande questão que podemos pensar é se seria possível haver um jornalismo de gênero sem reproduzir os estereótipos comuns das diferenças entre interesses de homem e de mulher. Seria possível termos revistas femininas que não tratassem de beleza, de futilidade e dietas, de estratégias de sedução e de temas do lar? Ou o caminho da igualdade passaria necessariamente pelo fim das revistas femininas e masculinas?

Quanto ao filme, confesso que não esperava um final diferente. O casal se apaixona e fica junto no final. Perdoam os erros um do outro e resolvem viver o amor de verdade. Mas fiquei me perguntando como seria um final onde Andie pudesse escrever sobre os assuntos que julgava ser relevante, na Composure ou em outro jornal ou revista e realizasse o sonho de ser uma jornalista reconhecida pelas suas opiniões políticas, sem censura, e Ben, seria o namorado charmoso que abriu mão da aposta e da conta publicitária milionária para não perder sua garota. Talvez, essa história não seria contada em uma comédia romântica…

Links sugeridos:

http://www.rottentomatoes.com/m/how_to_lose_a_guy_in_10_days

http://www.imdb.com/title/tt0251127/

Ficha Técnica: 

Título Original: How to Lose a Guy in 10 Days

Data de lançamento: 2003

País: EUA

Diretor: Donald Petrie

Roteiro: Kristen Buckley, Brian Regan, Burr Steers – baseado na obra de Michelle Alexander e Jeannie Long

Produtores: Robert Evans, Christine Peters, Lynda Obst

Elenco: Kate Hudson, Matthew McConaughey, Adam Goldberg, Bebe Neuwirth

Trailer:

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