Acima de qualquer Suspeita

Por Camila Nishimoto

Quais seriam os verdadeiros limites para se fazer um bom jornalismo? Estaria este “dever” para com a sociedade acima da justiça, da lei e até mesmo dos fatos? Estes são alguns questionamentos que o filme Acima de Qualquer Suspeita, de Peter Hyams, (“Fim dos Dias” e “O Mosqueteiro”) trazem à tona. Porém, é necessário um olhar mais crítico para conseguir perceber todas as nuances que envolvem a trama e os personagens.

O enredo gira em torno de C.J. Nicholas (Jesse Metcalfe), repórter do Canal 8, com personalidade forte e ambicioso (um perfil um tanto quanto reconhecível dentro do ambiente televisivo), que vê sua carreira virar do avesso quando a crise (sim, até nas redações fictícias ela chegou!) bate à porta da emissora. Ele e seu amigo e colega de profissão, Corey Finley (Joel Moore), passam de encarregados do jornalismo investigativo (seção que, então, deixa de existir) para repórteres da editoria geral e esportiva do canal.

Uma realocagem de funções bem comum dentro das redações que passam por períodos de crise, se for pensar. Porém, Nicholas se achava bom demais para apenas fazer parte da editoria geral, já tendo ganho premiações por um documentário que fez (e que foi sua porta de entrada para o Canal 8). Ele queria um grande escândalo investigativo para impulsionar a sua carreira e, quem sabe, até mesmo ganhar um Pulitzer.

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Seu alvo? Martin Hunter (Michael Douglas), um promotor que não perdeu nenhum dos últimos 17 casos que defendeu. C.J. acredita que, para ganhar esses casos, Hunter fabrica evidências (todas relacionadas ao DNA do acusado e, portanto, quase irrefutáveis), de forma a construir uma imagem positiva perante a sociedade para poder se candidatar como governador nas próximas eleições.

Como seu editor recusa financiar a reportagem investigativa, já que Nicholas tem apenas suposições de culpa e não provas do esquema de Hunter, ele, então, decide buscar a verdade por conta própria e através de métodos pouco ortodoxos. Seu plano é tornar-se, propositalmente, suspeito nº1 do assassinato de uma prostituta – e sem, ao que parece, de fato ter cometido o crime – de forma a atrair a atenção de Hunter e fazê-lo fabricar provas para acusá-lo.

E para provar que tudo não passara de uma farsa, C.J., com a ajuda de seu amigo Corey, documentam todo o processo de fabricação de evidências pelo qual passaram, para que Nicholas fosse considerado suspeito do crime. Subormando policiais, descobrem detalhes de como teria ocorrido o crime e arquitetam as evidências: a compra de roupas que batiam com a descrição do assassino e até mesmo uma mordida de cachorro, adotado por Nicholas apenas para isso. Estaria o repórter indo longe demais por uma boa história jornalística, arriscando sua liberdade? Seria o jornalismo e a iminência de um Pulitzer os únicos motivos de C.J.?

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Juntamente à tensão de estar em meio a um processo legislativo, há também o fato da namorada de Nicholas, Ella (Amber Tamblyn), trabalhar para Hunter, o que deixa toda a trama ainda mais intrincada e com uma tensão constante sempre pairando nas cenas. E a trilha sonora, com aparições pontuais, graves e até mesmo um tanto quanto desconfortáveis, complementa todo o clima de suspense pretendido e calculado por Hyams, juntamente com os enquadramentos clássicos de filmes de suspense, com longos corredores e baixa iluminação.

Nicholas acaba sendo preso pelo crime que aparentemente não cometeu e as coisas não poderiam ter saído mais do rumo pretendido. A intenção do protagonista era, assim que a prova falsa de DNA fosse apresentada por Hunter no tribunal, aparecer com uma evidência surpresa (o DVD, com todas as filmagens da fabricação de provas que mostrava a inocência de Nicholas e derrubava por terra todo o esquema do promotor).

Hunter, antes do julgamento, descobre os planos de Nicholas e, junto com um investigador corrupto, dá sumiço na cópia do DVD que Corey guardava em sua casa. Com isso, C.J. é sentenciado ao corredor da morte por um assassinato que não cometeu e não consegue trazer à tona todo o esquema corrupto de fabricação de provas. Ao que parece, a ambição por fazer um bom jornalismo investigativo saiu do controle.

Mas Nicholas não desiste e deposita em sua namorada, Ella, suas últimas fichas. Pede que ela investigue por si própria todo o esquema no qual Hunter está envolvido e conforme ela vai fazendo a ligação dos fatos, passa a ser perseguida e ameaçada, para não trazer os holofotes negativos da opinião pública para Hunter.

Ao que parece, o filme termina de forma clássica: Hunter é desmascarado, Nicholas é solto e a sensação de “justiça feita” paira no ar até os últimos minutos do filme, que acaba com uma reviravolta impressionante e inesperada até para o melhor e mais atento dos espectadores.

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Hyams poderia ter aplainado mais terreno ao longo da película para preparar o espectador para os momentos finais do filme, mas que, nem por isso, deixa de ser interessante e levantador de questionamentos: até onde o jornalismo é uma ferramenta de prestação de serviços à sociedade e quando ele deixa de sê-lo para se tornar um instrumento de manipulação da verdade? O jornalismo em si, hoje, é realmente mais importante do que a figura um tanto quanto espetacularizada de alguns repórteres? O jornalismo se apresenta concretamente em trabalho para benefício pessoal do profissional envolvido?

Essas perguntas não são respondidas ao final dos créditos, nem adianta vê-los até o fim. Mas nunca é demais questionar a si próprio sobre o verdadeiro papel e valor do jornalismo dentro das sociedades contemporâneas. Por outro lado, este é mais um filme que explora a imagem do jornalismo como uma prática desonesta, que atende a interesses pessoais, usa o poder da visibilidade para manipular, extorquir e adquirir mais poder. Imagem marcante e popular na história do jornalismo e do cinema.

Link Interessantes

DALAMA, Larissa, “Resenha: Acima de Qualquer Suspeita”. Disponível em: https://objethos.wordpress.com/2010/05/19/resenha-acima-de-qualquer-suspeita/

Ficha Técnica:

Título Original: Beyond a Reasonable Doubt

Direção: Peter Hyams

Roteiro: Peter Hyams e Douglas    Morrow

Gênero: Suspense

Lançamento: 11 de setembro de 2009

Idioma: Inglês

Trailer:

Música: David Shire

Elenco: Jesse Metcalfe, Amber Tamblyn, Michael Douglas, Orlando Jones, Joel Moore.

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