A Verdade Nua

Por Adriana Kimura  

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Uma garota é encontrada morta no quarto de hotel em que se hospeda a maior dupla de comediantes americanos da década de 50. Dada a sobreposição de camadas narrativas, o uso da iluminação não saturada, a intermitente narrativa na voz de uma das personagens e a perspectiva criminal aclimatada pela sensação de mistério, entre outros aspectos, o diretor Atom Egoyan cria, a partir do romance de Rupert Graves, em A verdade nua, um neo-noir de técnicas incansavelmente aplicadas – outrora com maior êxito – ao longo de sua carreira como cineasta. À parte algumas obviedades estéticas e a ausência de complexidade de algumas personagens, o longa apresenta uma trama que se desenvolve ao redor de uma concepção notável do jornalista e da investigação jornalística.

Historicamente, o gênero policial esfumaçado – literalmente, através dos abundantes cigarros sem filtro dos anos 50 e, tecnicamente, em low key – e cheio de manias de contraste e de estratégias narrativas carrega os estigmas de algumas personas comuns: femme-fatales, policiais corruptos, maridos ciumentos, detetives, gangsters… Desta vez, Egoyan concentra-se nos comediantes Lanny Morris (Kevin Bacon) e Vince Collins (Colin Firth), na jornalista Karen O’Connor (Alison Lohman) e na aspirante à carreira jornalística Maureen O”Feaherty (Rachel Blanchard) – a garota morta na banheira ou, mais para diante, entre lagostas e gelo, onde foi realmente encontrada afinal. Karen e Maureen proporcionam uma abordagem da clássica investigação do noir na perspectiva jornalística.

O filme é construído de fragmentos que perambulam por tempos e perspectivas distintas. Os anos de 1957 – quando Maureen foi encontrada sem vida – e 1972 – da investigação jornalística de O’Connor – representam uma das polarizações narrativas que contribuem para a constituição das sucessivas camadas em convergência da trama como todo. As diferenças de tempo são observadas especialmente nas distinções de iluminação, mas as múltiplas versões oferecidas ao espectador são apresentadas em pé de igualdade com os elementos da história que permanece como conclusão – a cena de Maureen na banheira, como impacto e mistério iniciais e como recurso instigante nas inúmeras vezes em que aparece a título de pista, por exemplo, é pura balela. Assim, o espectador acompanha o desencadeamento dos fatos conforme os caminhos da investigação.

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            Vince e Lanny apresentam os shows que arrecadam fundos para o Teleton e estão no auge da carreira quando a morte de Maureen surge como a marca da subsequente separação da dupla de comediantes. Após quinze anos de uma queda repentina na carreira de Moris e Collins e da morte inexplicada da garota no hotel, a jornalista Karen O’Connor assume a responsabilidade de escrever um livro biográfico que conte a história da dupla comediante a partir da colaboração – remunerada a um milhão de dólares – de Vince Collins. Durante a apuração para escrever o livro, Karen encontra-se – acidentalmente – com Lanny Morris em um vôo para Nova Iorque e, sob o álibi de uma falsa identidade, se envolve sexualmente com ele. Quando, mais tarde, a dupla atuação da jornalista é descoberta pelos comediantes, Karen é subjugada e humilhada; a problematização dos percalços ético-profissionais da atividade jornalística.

A sexualização das personagens femininas é um capricho estético escancarado através das constantes cenas de nudez explícita e do apelo erótico da complexidade das personalidades apresentadas. Lanny é o clássico calhorda que reveza – e por vezes multiplica – mulheres na sua cama noite a noite. A assessora Denise, Maureen O”Feaherty e Karen O’Connor – que têm em comum sua relação profissional com a imprensa – envolvem-se sexualmente com Morris em ‘natural’ extensão dos trabalhos de assessoria, entrevista e investigação jornalística. Quando O’Feaherty é convidada à suíte dos famosos comediantes, ela leva consigo o gravador, três garrafas de champagne e uma lingerie impecável. A estudante tem acesso à informação – pela qual seria assassinada e da qual sugere fazer uso ‘jornalístico’ – de que Vince tinha interesse sexual em Lanny, durante um ménage a trois – as relações homossexuais eram uma abominação que poderia significar o fim da carreira dos comediantes dada a concepção moral da época.

A personagem de Karen O’Connor atua entre dicotomias que terminam por enfraquecer sua complexidade. Ela é sensual e obstinada quanto ao livro, mas os fantasmas de sua faceta infantilizada e frágil da criança com poliomelite assombram a atuação de Alison Lohman nos momentos mais inoportunos. Jornalista premiada e repleta de inseguranças e expectativas quanto à oportunidade de escrever sobre seus maiores ídolos, mas não se parece realmente frustrada, realmente ameaçadora ou realmente surpresa – falta profundidade e verossimilhança a Karen. Sua ambiguidade representa o enfrentamento profissional do jornalista que escreve sobre aquilo que o envolve pessoalmente:  “it became fashionable put yourself into the history”; mas o modo como se apresenta é decepcionante, previsível.

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            A harmonia da dupla Morris e Collins se ampara nos estereótipos do típico matrimônio e a própria sugestão de seu envolvimento homossexual, para o caso de uma observação que se preste a verificar, está sugerido desde o início do filme. Eles são infalíveis, protegem-se entre si e se completam nas falhas alternadas entre um e outro. À parte as resoluções do desfecho da trama, os comportamentos de Vince e Lanny se justificam, diante do assassinato de Maureen, no fato de que ambos se culpam reciprocamente pela morte da camareira. Vince vive em conflito por julgar que Lanny ultrapassou os limites com o assassinato e este considera que aquele fizera algo extremamente delicado pela sobrevivência da dupla – por cuja defesa Vince já havia se manifestado violentamente em outros episódios.

Os comportamentos violentos de Vince, além de sua orientação homossexual e de seu envolvimento com álcool e drogas são demonstrativos da fraqueza moral típica do noir. As “falhas de caráter” podem ser observadas no fraco de Lanny por mulheres e no modo como ele as considera descartáveis, bem como são questionáveis os métodos jornalísticos de Maureen e a falta de resistência de Karen, que é uma constante vítima da idolatria que nutre pela dupla comediante. A legitimidade dessas falhas de caráter não é suficiente, no entanto, para que a trama termine por culpar um dos artistas pela morte da garota na banheira. É verdade que Lanny e Vince se livram do corpo da estudante e camareira juntos. Lanny paga pelo suborno de Maureen, Vince é apontado para assassino, mas o final triunfante se acovarda e bota a culpa no empregado mais próximo dos comediantes – uma saída fácil e que beira a obviedade.

A porção final de A verdade nua apresenta uma transição entre cenas, em fade, que transforma o rosto de Maureen, a assassinada, na face de Karen, a jornalista conduzida pela trama na investigação sobre a carreira de Lanny e Vince. Esse recurso aponta para uma generalização da concepção da jornalista: Kareen se empenha em desvendar segredos sobre a dupla de celebridades e não mede esforços. Ela cai em armadilhas, se arrepende, concerta, se humilha, mas descobre aquilo que almeja e sai, por assim dizer, vitoriosa. Há, aqui, no entanto, uma ressalva: não são consideráveis as diferenças entre Karen e Maureen. Suas disparidades éticas e atitudes profissionais são praticamente anuladas e aquilo que as separa é, talvez, algum detalhe sutil das circunstâncias para um assassinato. Vince chega a sufocar Karen por alguns segundos, mas ela reage e ele é incapaz de continuar; Maureen foi pega dormindo, por um assassino que teve coragem de chegar ao fim.

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            A verdade nua é capaz de produzir as sensações de mistério e furtividade sugeridas pelo gênero a que se propõe enquadrar na medida em que a sobreposição de narrativas constitui um ritmo satisfatório para não entediar o espectador. O resultado final, no entanto, não é surpreendente; mais do que isso: a trama, no todo, é repleta de estigmas e saídas orquestradas que poderiam se justificar como recursos para tornar o filme de fácil recepção para o público – e nesse aspecto eles falharam; A verdade nua não foi sucesso nem de crítica, nem de bilheteria -, mas que terminam por servir de alegoria do processo de investigação jornalística. O filme aponta mais fortemente para dois aspectos constantemente naturalizados pelo cinema e pela televisão americanos no que diz respeito a uma visão sobre a atividade jornalística: o profissional que não avalia métodos para atingir seus objetivos – e no caso das jornalistas mulheres isso inclui o apelo sexual – e aquele que se envolve pessoalmente com o trabalho a ponto de se ludibriar e falhar ética e profissionalmente.

Links de Referência

http://www.imdb.com/title/tt0373450/

http://www.rottentomatoes.com/m/where_the_truth_lies/

Ficha Técnica

Título Original: Where the Truth Lies

Lançamento: 2005

Direção: Atom Egoyan

Música: Mychael Danna

Roteiro: Atom Egoyan baseado no livro Where The Truth Lies de Rupert Holmes.

Elenco: Kevin Bacon, Colin Firth, Alison Lohman, Kathryn Winslow, Rachel Blanchard, Sonja Bennett

Trailer:

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