Hannah Arendt

Objetividade, Representação e Produção no Jornalismo.

Por Eli Vagner F. Rodrigues

hannah_cartaz Nas cenas iniciais do filme Hannah Arendt de 2012, direção de Margareth Von Trota, um dos editores da revista New Yorker afirma categoricamente: “Filósofos não cumprem prazos”, numa clara declaração de resistência à ideia de enviar uma “profissional acadêmica” para cobrir o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém. O réu teria sido o responsável pela logística da “solução final” efetuada pelo Terceiro Reich, que resultou no extermínio de milhões de judeus. Sequestrado pelo serviço de inteligência de Israel em 1960 foi levado para Jerusalém, para ser julgado pelos crimes de guerra.

Hannah Arendt, escalada pela New Yorker para cobrir o julgamento, produziu um polêmico escrito que deu origem à obra “Eichmann em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade do mal”, um texto de jornalismo político, mas também de reflexão filosófica e que foi publicado em cinco partes pela revista (confira os links no final do texto).

A redação deste texto, como o próprio filme deixa claro, não foi isenta de conflitos psicológicos e filosóficos. A antecipada resistência ao tempo de produção da filósofa manifestada pela direção da revista reflete, no fundo, mais do que um preconceito, aponta para a diferença entre o tipo de produção jornalística e a produção acadêmica.

A figura de Hanna Arendt, sobretudo na situação destacada pela película, representa bem a tensão de temporalidade entre o mundo da reflexão e o chamado “mercado de ideias”. A partir desta diferença produtiva, podemos pensar alguns problemas relacionados ao próprio discurso jornalístico. Sabemos que, enquanto discurso, a produção jornalística se constitui como uma “representação da representação”, isto é, o resultado efetivo do texto jornalístico é fruto de uma interpretação deslocada do seu local e contextos originais. Este aspecto é bastante discutido tanto por profissionais da área como pelos teóricos da comunicação. Este problema de natureza epistemológica aponta, em última instância, para a própria “objetividade do fazer jornalístico”, esta que seria a maior virtude da prática em questão.

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 Na “Dialética do Esclarecimento” Adorno e Horkheimer notam que a objetividade, no caso dos meios de comunicação de massa, se faz necessária principalmente pelo fator mercadológico. O leitor médio do jornal, e mesmo o leitor de uma revista cultural que não é iniciado nas ciências humanas, exige, ou espera, certa objetividade e clareza para fazer seu “upgrade cultural” seja ele diário, semanal ou mensal. Neste sentido, não é papel fundamental de um jornal ou de uma revista aprofundar ao nível científico ou filosófico os temas cotidianos. Os críticos apontam esta característica como o próprio elemento da superficialidade e do reducionismo.

Karl Kraus, jornalista e ensaísta, fez uma sarcástica observação sobre este aspecto da escrita jornalística. Kraus afirma que a língua é o material do artista literário, mas lembra que ela não pertence somente ao artista, pertence, também, ao público e ao homem comum. A cor, no entanto, pertence apenas aos pintores. Se a arte de escrever é capacidade de representar uma opinião ao público com palavras, a pintura seria a arte de dizer uma opinião através de cores. Neste jogo, conclui ironicamente Kraus, os jornalistas seriam meros pintores de parede. Caio Tulio Costa comenta esta anedota na obra Ética, jornalismo e a nova mídia.

No quebra cabeça no qual o jornalista representa aquilo que outrem lhe representa, a metáfora do jornalista como pintor de paredes se amalgama perfeitamente. Porque o ofício do pintor de paredes é diferente do trabalho criador do artista. E jornalismo é ofício. Não é arte. Tudo se torna um pouco mais complexo para este ofício, porém, quando se mergulha nas surpresas das ambiguidades morais. (COSTA, 2006, pág. 62)

Por outro lado, em certo sentido, o editor da New Yorker estava coberto de razão. Por mais que a revista seja uma publicação de cunho cultural e tenha um público seleto, ela também possui seus compromissos com o mercado e não pode esperar pela resolução de intrincados problemas filosóficos para divulgar temas de interesse geral. A meu ver, é exatamente este o problema que o filme evidencia em seus momentos centrais, o fato de que o evento em questão não era passível de uma interpretação objetiva. Mas, afinal, qual evento pode ser objetivamente descrito?

Além disso, a dificuldade de Hannah Arendt em analisar o problema não estava somente na natureza deste que foi um “tribunal de exceção”. O filme sugere, e isto está bem fundamentado na biografia da filósofa, que ela se via, também, em um estado de complexa e indefinida relação com o pensamento e a cultura alemãs e, sobretudo, com a reação passional, mais do que justificada, dos judeus em relação ao julgamento. Pese-se em sua trajetória o encantamento inicial com o pensamento de Heidegger e a própria rejeição que sofreu de seu país e cultura natais pelo fato de ser judia-alemã (suprema contradição do ponto de vista da eugenia nazista).

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Pertencer à elite dos pensadores alemães depois do terceiro reich era algo que deveria ter como pressuposto “ser alemão” e, sobretudo, não ser judeu. A limpeza ariana realizada pelos reitores das universidades alemãs, incluindo Heidegger em Heidelberg, a partir de 1933 foi exemplar com relação a este ponto. A respeito da atuação de Heidegger neste empreendimento político vale conferir a recente obra de Emmanuel Faye: Heidegger e introdução do nazismo na filosofia. O que, à primeira vista, para alguns, pode parecer um problema simples, pode se revelar um conflito de grandes dimensões psicológicas se considerarmos o ego dos intelectuais. Contrastando com a postura de Hanna Arendt com relação à culpa de Eichmann no processo de extermínio se colocam claramente a interpretação não só da comunidade judaica como da intelligentsia acadêmico-judaica. A figura de Hans Jonas é fundamental neste momento. Para Jonas a interpretação de Arendt é francamente equivocada e sua tese representa não somente uma traição à comunidade de Israel como aos próprios intelectuais que pagaram, de várias formas, inclusive com a vida, como no caso de Walter Benjamin, pelas medidas antissemitas do Reich. A interpretação de Arendt seria realmente equivocada? Sua objetividade jornalística teria sido comprometida por sua história e, consequentemente, por sua subjetividade?

Na cena do discurso final de Hanna Arendt apresentado na New School for Social Research de Nova York, anunciam-se propriamente os problemas, digamos, de ética e de filosofia política que foram desenvolvidos pela filósofa.  No “Caso Eichmann” o problema da imputabilidade dá os elementos fundamentais para o desenvolvimento do famoso conceito de “banalidade do mal”. O que se viu durante o julgamento foi a representação de um funcionário medíocre do Reich, supostamente incapaz de refletir sobre as consequências de seus atos burocráticos.  Este aspecto, no filme, fica em segundo plano, mas é fundamental para entendermos a importância da contribuição de Hanna Arendt para a interpretação dos eventos políticos da Segunda Guerra e do alcance do totalitarismo na Europa. Trata-se da relação entre o mal e a ação burocrática.

Para Arendt, o mal não seria uma categoria ontológica, isto é, o mal não seria uma essência característica da natureza humana. O mal seria manifesto em atos políticos e históricos aparentemente neutros do ponto de vista ético. Neste sentido, ele seria produzido por homens comuns sem reflexão sobre o que fazem e se manifestaria em espaços institucionalizados que propiciam a violência contra o outro. Esta condição, inúmeras vezes vivida pelos homens na história seria uma condição vazia de reflexão, na qual a banalidade do mal se instalaria. Eventos cotidianos, aparentemente neutros em seu aspecto ético, como o preenchimento de relatórios logísticos sobre refugiados políticos e sua destinação, esconderiam uma malignidade latente. Esse exemplo nos leva novamente ao “Caso Eichmann” e, necessariamente, ao dilema de Hanna Arendt no filme. Todo o problema enfrentado pela filósofa neste processo passa por um problema de representação. Ora, não é este o problema do jornalismo em geral?

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Examinemos o problema como colocado no filme. O que foi representado, ou apresentado, como “personagem Eichmann” no julgamento foi, necessariamente, outro que não o Eichmann dos momentos e dos atos que viabilizaram a solução final. O que apareceu para o tribunal foi uma composição, feita habilmente por Eichmann de um personagem cuja culpa inexistia. Dessa “representação da representação” a filósofa interpretou a complexidade e a injustiça dos julgamentos pré-determinados aos quais o réu estaria submetido. A possibilidade da irreflexão do ato de cumprimento de ordens e da consequente banalidade ética dos atos burocráticos. O conflito com a comunidade judaica, manifesta por intelectuais e pela opinião pública fica evidente quando se aponta que a representação que a filósofa fez do acusado foi totalmente diferente da pré-concebida representação que o povo judeu fez de Eichmann. Demonstra-se, então, através do dilema de Arendt, não somente um dilema ético fundamentado por complexos conceitos filosóficos, mas, também, a não menos complexa arte de produzir um texto jornalístico baseado no que cada um, com sua história e subjetividade, pode interpretar a partir dos fatos.

Links e referências:

ARENDT, Hannah, Eichmann em Jerusalém – Um relato sobre a banalidade do mal. Trad. SIQUEIRA, JOSE RUBENS, Cia das Letras, São Paulo, 1999.

ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

COSTA, Caio Tulio. Ética, jornalismo e a nova mídia, editora Zahar, São Paulo, 2009

FAYE, Emmanuel.  Heidegger e introdução do nazismo na filosofia, TRADUÇÃO: Rouanet, Luiz Paulo, editora É realizações, São Paulo, 2015.

http://www.newyorker.com/magazine/1963/02/16/eichmann-in-jerusalem-i

http://www.newyorker.com/magazine/1963/02/23/ii-eichmann-in-jerusalem

http://www.newyorker.com/magazine/1963/03/02/iii-eichmann-in-jerusalem

http://www.newyorker.com/magazine/1963/03/09/eichmann-in-jerusalem-iv

http://www.newyorker.com/magazine/1963/03/16/v-eichmann-in-jerusalem

http://www.newyorker.com/books/double-take/hannah-arendt-and-the-new-yorker

http://www.imdb.com/title/tt1674773/

https://www.youtube.com/watch?v=KDO5u2YSbm0

http://www.dailymotion.com/video/x2grn6g

http://filosofiaemvideo.com.br/entrevista-sobre-o-conceito-de-banalidade-do-mal-de-hannah-arendt-theresa-calvet-de-magalhaes/

Ficha Técnica:

Título: Hannah Arendt 

Direção: Margarethe von Trotta

Ano: 2012

País: França e Alemanha

Roteiro: Pamela Katz, Margarethe von Trotta

Elenco: Barbara Sukowa, Axel Milberg, Janet McTeer, Klaus Pohl, Julia Jentsch, Ulrich Noethen

Trailer:

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