Tinta Roja

Por Maximiliano M. Vicente

filmes_8654_Tinta02O que acontece se misturamos vermelho com preto? Via de regra obteremos um resultado nada agradável e muito pouco atraente para ser usado no cotidiano. Se a combinação dessas cores nos apresenta uma tonalidade inusitada, podemos imaginar o quanto é complexo para um jornal (tinta preta) se adentrar num mundo perturbador e complexo, conhecido como mundo cão e descrever episódios fora do denominado senso comum da sociedade (tinta roja). Essa problemática é a enfrentada por Francisco Lombardi na película peruana denominada de Tinta Roja.

Melvin De Fleur, um dos pioneiros na formulação da teoria da comunicação de massas, atribui a origem do jornalismo sensacionalista a Joseph Pulitzer e William Randolph Hearst – cuja figura inspiraria o Cidadão Kane, um dos grandes filmes da história do cinema, dirigido e estrelado por Orson Welles – e suas disputas para incrementar a venda dos jornais onde trabalhavam, o Journal e o Word, respectivamente, isso, ainda, no final século XIX. Independente da data e dos personagens o relevante é apontar algumas das peculiaridades desse jornalismo. Dentre as muitas que poderíamos elencar uma sobressai: essa forma de apresentar os fatos se caracteriza, justamente, pela escolha daqueles que mostram as contravenções da moralidade social e que questionam, portanto, a ordem estabelecida. Assim, mais do que trazer um conteúdo de interesse social essa abordagem dos acontecimentos privilegia os detalhes que cercam as circunstancias do episódio apresentado, pormenores que muitas vezes pertencem à intimidade dos protagonistas das notícias publicitados com o intuito de surpreender e despertar o interesse do leitor com o inusitado, o estranhamento e a excepcionalidade, de preferência colocados de forma extraordinária.

Se num primeiro momento a escrita era a ferramenta utilizada para surpreender e cativar o leitor, com a incorporação dos elementos visuais o sensacionalismo ganhou novos ares e força na apresentação do seu conteúdo agora ricamente ilustrado. Notadamente nos anos de 1950, quando surgem na Itália os paparazzi, fotógrafos implacáveis que obtinham suas fotos quase sempre de forma velada, o sensacionalismo se revigora visualizando os acontecimentos com fotos que comprometiam a privacidade das figuras públicas conhecidas pelo grande público e que de certa forma permaneciam distantes (celebridades) e faziam parte do imaginário dos leitores pelo seu glamour ou encanto pessoal.  A morte da princesa Diana, em 1966, se considera como o ápice e o limite da atuação dos paparazzi. Após uma perseguição cinematográfica pelas ruas de Paris o carro onde a princesa tentava fugir do assédio dos paparazzi sofreu um trágico acidente que poria fim a vida da monarca. Esse terrível acidente foi imputado a ação ousada dos fotógrafos que de forma inescrupulosa desejam obter fotos comprometedoras da princesa e seu acompanhante o empresário (amante-namorado?) Dodi al-Fayed.

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Essa breve introdução ao denominado jornalismo sensacionalista serve de quadro de fundo para nos adentrarmos na análise do filme “Tinta Roja” (Tinta Vermelha) do diretor peruano Francisco Lombardi, conhecido no Brasil pelos filmes: “A cidade e os cães” e “Pantaleão e as Visitadoras”, baseados nas obras homônimas do escritor peruano Mario Vargas Llosa, um dos escritores mais admirados por Lombardi. Tal consideração não é gratuita. Vargas Llosa começou suas atividades como escritor no jornalismo, muito jovem, aproximadamente aos 16 anos, no jornal La Crónica, portanto antes de ingressar na Universidade. Lombardi se adentrou no cinema, ainda como estudante de ensino médio, escrevendo crônicas na revista escolar Cine Estudio, editada em mimeógrafo. Cinema e jornalismo marcam a trajetória professional de Lombardi. Coincidentemente o jornalismo seria a formação do chileno Alberto Fuguet, autor do romance Tinta Roja, inspirador do filme com o mesmo nome.

O universo do jornalismo permeia boa parte do filme e deixa aflorar temas totalmente pertinentes e que demandam do diretor um conhecimento específico sobre tal profissão.  Em tempos que discutimos no Brasil alterações substanciais na formação dos futuros profissionais da comunicação, incluindo a obrigatoriedade do estágio, Tinta Roja encaixa como uma luva na mão. Nem sempre a teoria se executa na prática e nem sempre a prática espelha o que propõe a teoria. Sem dúvida esse é um dos dilemas presentados no filme e que ocupa boa parte do seu conteúdo. Alfonso jovem estudante, inexperiente, amante das artes e da cultura, vai para o estágio a ser realizado no jornal El Clamor, e lá cai nas garras de Saul Faúndez, jornalista experiente, com sua moral duvidosa, mas que transita com extrema naturalidade em um universo de cadáveres e sangue.

Duas concepções de jornalismo se enfrentam logo no primeiro contato entre ambos. Alfonso chega com os conceitos apreendidos na faculdade em relação às notícias: compromisso com a verdade e com a sociedade, lealdade com os cidadãos, verificar sempre o que se escreve e procurar a imparcialidade e a objetividade, dentre outros. Faúndez representa o oposto: partidário do sensacionalismo, da adjetivação, exagerar e destacar aspectos mórbidos e, se necessário, inventar fatos desde que ajudem a criar o ambiente do espetáculo, da anormalidade. Nada de objetividade e de preferência um texto marcado pela linguagem real das ruas, dos bairros e das localidades onde se desenvolvem esses acontecimentos.

O embate dos dois universos transcorre no filme de forma intensa e bem articulada pautando os fatos jornalísticos com a vida pessoal dos protagonistas. A atuação dos membros da equipe, o envolvimento da redação nas relações interpessoais, o jogo de interesses, os amores e desamores criam uma narrativa fílmica atraente que desvenda como pode ser um jornalismo sensacionalista proveniente do contexto do Sul, como falaria Boaventura de Souza Santos, de uma realidade marcada pela desigualdade e pela carência em todos os sentidos. O universo abarcado por esse jornalismo corrobora para criar esse ambiente espetacular da mídia sensacionalista. Emblemático o papel exercido pelo aparentemente discreto Escalona, fotografo da equipe. De fotógrafo se transforma em inquisidor impiedoso, desvendador de tragédias ocultas e que faz florescer para dar um tom mais macabro as fotos, como se desejasse mostrar o lado mais patético da história já degradante.

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Esperava-se no filme um desfecho a altura para toda essa trama, rica e dinâmica, mas o que se verifica é um retrocesso que, embora não comprometa o filme, evidencia carências fortes para temas tão complexos. A opção de Lombardi transita do social para o individual. Explicamos. Depois de ser elogiado por Ortega, chefe do jornal, diante dos demais estagiários e, portanto, já podendo ser um profissional apto para exercer sua profissão sem ser tutelado, o filme caminha para o desenlace. Faúndez sofre na própria carne o drama que tanto explorou, pois, seu filho, drogado por traficantes, se atira diante de um automóvel. Alfonso, já experiente e amadurecido, cobre o episódio sem perdoar detalhes ou levar em consideração que a vítima era filho do seu mestre. A fera engole o criador e Faúndez desaparece.

Mas Alfonso passa pela mesma situação. Ao analisar um laudo da morte de uma criança que inocentava os criminosos do ato bárbaro descobre que o médico responsável por tal documento é seu pai, ausente durante toda sua vida. Procurado por ele para obter benevolência do filho e conseguir ocultar o fato, Alfonso, insensível, elabora um texto duro e crítico denunciando o doutor, seu próprio pai. Para sua surpresa o jornal abafa o caso e não publica – devido a ingerência de Faúndez – a matéria. Uma frase do diálogo entre Faúndez e Alfonso põe fim a história: “Notícias boas se vem todos os dias. O pai é único e, além do mais, o texto era horroroso, melhor era o que escreveu sobre meu filho”. Os dois deixam o jornal e Alfonso vai para Espanha para onde, finalmente, obteve uma bolsa para estudar literatura.

A trama pessoal final gera muitas interpretações. Primeira e mais conservadora: desde que sejam histórias dos outros o jornalismo sensacionalista serve, mas quando atingem a vida particular perde sua função. Outra possível leitura: o diretor deseja mostrar as limitações desse tipo de jornalismo que não levam a nada a não ser o desencanto com a profissão. Ainda poderíamos pensar que a trama toda deseja mostrar um lado diferente do jornalismo entendido, mais do que uma profissão como um estilo de vida onde a formação e o sentido profissional ficam num segundo plano. De qualquer forma, seja a opção que se escolha não tira mérito ao filme. Fotografia, música, dinâmica das cenas, cenário realístico bem caracterizado, tanto do ambiente redacional como urbano, fazem que ela tenha uma fluidez atraente e cativante. É daqueles filmes que queremos ver o final, mesmo que não esteja à altura da trama presentada. Vale, e muito, a pena ser visto.

Links indicados:

http://www.cinepata.com/peliculas/tinta-roja/

https://objethos.wordpress.com/2010/07/07/resenha-tinta-roja-2000/

http://www.elcultural.com/revista/cine/Estreno-deTinta-roja-Los-periodistas-segun-Lombardi/920

 

Ficha Técnica

Diretor: Francisco J. Lombardi

Ano: 2011

País: Perú, Espanha

Roteiro: Giovanna Pollarolo, baseado no livro Tinta Roja de Alberto Fuguet

Elenco: Gianfranco Brero, Giovanni Ciccia, Fele Martínez, Lucía Jiménez, Carlos Gassols

Trailer:

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