Darfur: Deserto de Sangue

Por Thales Valeriani

O Complexo de Clark Kent em meio a uma guerra civil

darfur-deserto-de-sangue          O filme Darfur: Deserto de Sangue foi produzido em 2009 pelo diretor alemão Uwe Boll e retrata a guerra civil sudanesa que ocorreu entre 1983 e 2005, sendo a guerra civil mais longa do continente africano e uma das piores crises humanitárias do séc XXI. Entre 2005 e 2011, ano de criação e separação do Sudão do Sul, houve conflitos esporádicos.
No filme, um grupo de jornalistas ocidentais, liderados por Malin Lausberg (Kristanna Loke) e Bob Jones (Billy Zane), é protegido pela missão de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) liderada pela União Africana e deve fazer registros de uma aldeia de negros muçulmanos não-árabes mostrando o cotidiano das vítimas perseguidas pela milícia janjawid (‘diabo montado a cavalo’ no dialeto local) apoiada pelo governo central sudanês para combater os separatistas do sul.
Após tal visita e a caminho do hotel no qual estão hospedados é possível avistar os janjawid a caminho da aldeia para, possivelmente, cometer genocídio e roubar crianças. Desenrola-se uma tensão entre a equipe de jornalistas sobre voltar para o hotel, e ignorar o problema, ou envolver-se no conflito. Acreditam que a sua presença convencerá os milicianos a passarem reto pelos cidadãos, uma vez que eles são jornalistas e atuam como se fossem os olhos da Europa e dos Estados Unidos no conflito.

No desenrolar da narrativa tal hipótese mostra-se ingênua e o genocídio é cometido não apenas com a presença deles mas, inclusive, com o assassinato de alguns profissionais. Há no enredo dois pontos sobre a representação do profissional de jornalismo a serem discutidos. O primeiro, a questão da ética profissional no envolvimento ou não de determinado conflito.
Cabe ao jornalista ser mero expectador da realidade fazendo os seus registros ou deve também ser partícipe da ação documentada? Embora não seja unanimidade entre os profissionais da área, é consenso que o dever do jornalista é, antes de tudo, fiscalizar o poder e instituições públicas. No caso deveriam analisar se a missão humanitária estava sendo eficaz impedindo o genocídio no país. Nessa perspectiva, os profissionais de jornalismo devem informar corretamente a população para que esta, sim, pressione os governos e organizações multilaterais por medidas éticas e eficazes nas resoluções dos conflitos.
A formação das nações democráticas ao longo do séc. XX e a consolidação dos grupos de comunicação deram ao jornalismo uma alta credibilidade na esfera pública. O jornalismo passa a ser interpretado como uma instituição social, um dos pilares das sociedades democráticas no qual os seus profissionais devem fazer uma cobertura macroambiental e crítica dos contextos narrados, em vez de, por exemplo, se envolver em conflitos tomando a linha de frente e pegando em armas para resolvê-los. A ética da profissão é a ética da informação.

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A segunda questão levantada pelo filme é a forma como os jornalistas são retratados. Eles são representados com forte senso de justiça, ética e pró-atividade, não esperam pela autorização do militar chefe da missão de paz. A presença deles pode salvar as pessoas da aldeia não somente pelo seu valor simbólico de comunicadores e ‘olhos’ do mundo ocidental, leia-se Europa e EUA, na África, mas também por serem, eles próprios, pessoas com forte senso de justiça e incapazes de permanecerem inertes diante de uma situação de conflito a ponto de colocarem a própria vida em risco. A ideia do jornalista super-herói.
É uma construção que reforça a visão segundo a qual os profissionais da área possuem (ou devem possuir) um senso inato de justiça, uma inclinação moral elevada e altruísta, inclusive. No filme, os jornalistas Teo (Noah Danby) e Fred (David O’Hara) chegam a pegar em armas e a matar milicianos para salvar aldeões e são mortos tentando salvar a vida de um bebê. A criança, símbolo do futuro, é salva por tais profissionais. O senso de justiça e a salvação não são apenas representados por eles, mas, também, encarnados por esses personagens.
Há uma confusão entre o papel do jornalista e dos órgãos competentes na resolução do conflito. Tal situação é descrita por Vieira (1991) como Complexo de Clark Kent, caracterizado pela “vontade do jornalista de ultrapassar as fronteiras do que é possível como repórter e tornar-se um super-homem”.
Essa representação é confirmada pelo desfecho do filme. No entanto, dado o papel do jornalista na sociedade, não cabe a ele a resolução de conflitos, mas a organismos multilaterais. Não sendo ele o Clark Kent e, sim, um homem comum, deve exercer sua profissão com a devida cautela e ética profissional. Ainda que a emoção possa sugerir que o envolvimento direto em conflitos vá salvar pessoas.

Ficha Técnica:
Título Original: Darfur
País: Alemanha, África do Sul, Canadá
Ano: 2009
Direção: Uwe Boll
Roteiro: Uwe Boll, Chris Roland
Elenco: Kristanna Loke, David O’Hara, Noah Danby, Billy Zane
Duração: 98min

Links Indicados: 
http://observatoriodaimprensa.com.br/caderno-da-cidadania/ed742-jornalista-nao-e-super-heroi/

http://www.imdb.com/title/tt1236471/

Trailer:

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