Cidade do Silêncio

Por Agnes S. Guimarães

19870982  A Ciudade Juárez, no México, é conhecida pela alta incidência de agressões às mulheres: seus casos de feminicídio passaram a ser conhecidos na década de 90 e até hoje não foram esclarecidos. Ao longo do tempo, também passaram a ser um recorte do que ocorre em todo o país: de acordo com a ONU, o país é o 16º com mais casos de feminicídios.

Estudos, livros e filmes tentam encontrar hipóteses para os crimes de Juárez. O filme Cidade do Silêncio (Bordertown) é um deles, adotando a linha que vai ao encontro dos principais problemas ocasionados pelo Tratado de Livre Comércio à fronteira do país. Embora opte pela ficção, o filme, dirigido por Gregory Nava, se vale de casos reais sobre a exploração das fábricas na região que, ao oferecer isenção de impostos e mão-de-obra barata, é a escolhida para sediar fábricas que funcionam 24 horas por dia e não garantem segurança para suas funcionárias, em sua maioria mulheres.

No filme, a jornalista Lauren Adrian (Jennifer Lopez) é enviada para a cidade para cobrir o desaparecimento de cerca de 375 mulheres, todas trabalhadoras de uma fábrica. Ao chegar no local e reencontrar um ex-colega de trabalho, o jornalista Alfonso Diaz  (Antonio Banderas), ela encontra uma situação pior do que a descrita pela pauta que recebeu: quase 5 mil mulheres já morreram. Uma adolescente de 16 anos é a vítima seguinte, mas ao sobreviver ao ataque, precisa receber proteção constante, já que passa a ser uma testemunha importante para a investigação.

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Há a apresentação de dois tipos de jornalismo: aquele realizado em grandes veículos, como o de Lauren, localizado nos Estados Unidos, e com todo o suporte necessário para o envio de uma jornalista para outro país. A personagem, inclusive, apenas aceita o trabalho pela possibilidade de ser promovida a correspondente estrangeira, algo possível para uma grande empresa jornalística.  A pauta que recebe foge um pouco do agendamento esperado para jornais desse porte, visto que a denúncia de mortes de mulheres na fronteira de um país subdesenvolvido é algo que não se esperaria de um veículo americano, provavelmente atrelado aos interesses econômicos de grupos diretamente envolvidos nos trabalhos precarizados oferecidos pelas fábricas de Juárez. Fato que é corroborado ao final do filme, quando o editor decide não publicar a reportagem de Lauren após receber a visita de empresários insatisfeitos com a possível repercussão do trabalho. Enquanto isso, o jornal dirigido por Alfonso representa o jornalismo independente que, com poucos recursos, tenta se manter e pauta os principais problemas da comunidade e que não são de interesse a outros veículos mais próximos ao poder vigente.

A forma como Lauren e Alfonso resolvem conduzir a investigação da reportagem é outro ponto do filme que merece ser destacado. O trabalho é apresentado como uma espécie de jornalismo investigativo, em que a jornalista chega a se infiltrar entre as funcionárias a fim de demonstrar ao leitor uma aproximação maior com a realidade dos fatos. Ao final, essa aproximação acaba representando uma forma de reencontrar-se com o próprio passado.

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Há divergências sobre a definição do que seria o jornalismo investigativo. No Brasil, muitos pesquisadores associam o termo com a elaboração de reportagem de grande profundidade, e com possibilidades de execução que vão além dos recursos oferecidos pelas redações do jornalismo diário. Ao entrevistar o jornalista investigativo Percival de Souza, Hebenbrock (2013) observa uma ideia presente não apenas no entrevistado como em outros jornalistas da área: a ideia de um trabalho caracterizado pela autonomia do repórter em desenvolver técnicas pouco usuais dentro do hard news:

“Ninguém tem usado o conceito de jornalismo investigativo. A linguagem não me interessa. O importante é que existe um jornalismo típico, o repórter vai a luta e tem de desenvolver as técnicas e métodos novos para obter informações. Este processo de trabalho do repórter faz a diferença entre uma normal e uma reportagem investigativa” (Entrevista, PERCIVAL, SP: 08.2003)

            Logo, não há uma preocupação em associar o jornalismo investigativo com alguma forma compulsória de protagonismo do jornalista ou de alguma necessidade em virar personagem do próprio trabalho, embora isso ocorra em situações como a de Lauren. Embora às vezes caia dentro de alguns discursos maniqueístas e faça um retrato ingênuo sobre a forma como a jornalista se coloca em situações de perigo em nome da reportagem, o filme consegue mostrar as principais dificuldades enfrentadas pelo repórter nessas situações, com o enfrentamento a autoridades que disponibilizam poucas informações até o convívio com as vítimas e suas dificuldades para obter sua confiança.

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Outro fator positivo do filme é a forma como mostra os questionamentos pessoais de Lauren com a própria profissão. Solteira, focada no sucesso profissional, a jornalista demonstra, em alguns momentos, certa insegurança com as escolhas que fez para seguir na carreira e que a levaram a se tornar uma mulher solitária, sem família. Mas ao contrário de boa parte dos filmes que procuram sempre um par romântico ou uma solução sentimental para uma mulher bem-sucedida, Lauren termina sozinha, assumindo o jornal que ficara abandonado após o assassinato de Alfonso. Ela opta pela profissão no jornalismo independente.

 

 Referências bibliográficas e links:

Ferreira, D. Resenha: Cidade do Silêncio. Disponível em:https://objethos.wordpress.com/2009/10/28/resenha-cidade-do-silencio/

GÓMEZ-ROBLEDO, M.; PÉREZ, D. Marcial. Mais de 100 mulheres ao ano são assassinadas na Cidade do México. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/08/08/internacional/1439052443_210134.html . Acesso em 01. 11. 2015.

HEBENBROCK, Josuel Mariano da Silva. Jornalismo Investigativo: uma tentativa de emancipação do quarto poder no Brasil. Disponível em: http://portalintercom.org.br/anais/nordeste2013/resumos/R37-0335-1.pdf . Acesso em 01.11. 2015.

MARTINS, Elisa. Juarez, a cidade que odeia as mulheres. Disponível em: http://revistamarieclaire.globo.com/Revista/Common/0,,EMI205728-17737,00-JUAREZ+A+CIDADE+QUE+ODEIA+AS+MULHERES.html . Acesso em 01.11.2015

http://www.rottentomatoes.com/m/10008510-bordertown/

 

Ficha Técnica: 

Título Original: Bordertown 

País: EUA 

Ano: 2006 

Direção: Gregory Nava

Roteiro: Gregory Nava 

Elenco: Antonio Banderas, Jennifer Lopez e Martin Sheen, Sonia Braga, Maya Zapata, Teresa Ruiz, Juan Diego Botto

Trailer:

 

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