Balibo

Por Matheus Fernandes

7794Em 1975, o Timor Leste, pequeno país do sudeste asiático, declarou sua independência de Portugal, após mais de 300 anos de exploração. Nove dias depois, foi invadido e anexado pela Indonésia, que contava com apoio dos Estados Unidos e da Austrália.

A ocupação durou 24 anos, deixando centenas de milhares de mortos. Entre as primeiras vítimas estavam cinco jornalistas: Greg Shackleton, Tony Stewart, Gary Cunningham, Brian Peters e Malcolm Rennie. Os cinco cobriam o conflito para canais de televisão australianos, e ficaram conhecidos como Balibo Five, em referência à cidade onde foram executados por militares indonésios. Um mês depois, o também jornalista Roger East, foi assassinado no país, enquanto tentava rastrear o paradeiro do grupo Balibo Five.

O filme “Balibo”, dirigido por Robert Connolly, conta essa história real a partir de três pontos de vida distintos que se alternam. O primeiro é dos cinco jornalistas, em sua jornada pelo interior do Timor cobrindo o avanço das tropas indonésias, até sua covarde execução nas mãos dos militares.

Os jornalistas chegam ao país em sua capital, Dill, e partem em direção ao interior do país com o apoio dos FRETLIN de José Ramos-Horta (Oscar Isaac), conhecendo seu povo e sua história. Inicialmente são três profissionais cobrindo o início do conflito, logo outra equipe australiana se junta, para completar os cinco que entraram para a história.

No trajeto de jipe eles veem os rastros da destruição ocasionada pela invasão indonésia num cenário de beleza natural do país. O olhar dos profissionais vai mostrando a tragédia da guerra sentida pela população civil. Em uma cena marcante, os jornalistas participam das tradições e rituais timorenses em uma pequena aldeia, que posteriormente aparece em chamas, com todos seus moradores mortos.

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Finalmente chegam a cidade de Balibo, onde se estabelecem, em uma casa abandonada, enquanto capturam imagens do conflito para a televisão. No dia 16 de outubro de 1975, a cidade de Balibo é invadida pelo exército da Indonésia. Em busca de uma cobertura mais completa e objetivando denunciar a violência da ocupação, os cinco não acompanham a evacuação da população e acabam ficando para trás, em meio ao front. No filme, eles estão indiferentes aos riscos. Consideram prioritária a captação das imagens comprovadoras da invasão e sente-se invulneráveis.

No ponto máximo de tensão, os jornalistas se escondem em sua base enquanto os indonésios buscam por alvos. Quando concluem que não é mais possível fugir, resolvem se render. Com as mãos levantadas, usando roupas civis e anunciando que são jornalistas, saem da casa. Não há argumento contra a violência e os cinco são executados sumariamente pelos militares. A versão oficial é a de que a morte ocorreu em fogo cruzado. As imagens nunca chegaram ao seu destino.

O segundo e principal ponto de vista é o de Roger East (Anthony LaPaglia, que também atua como produtor), experiente jornalista freelancer australiano, convidado por José Ramos-Horta – líder timorense que posteriormente ganharia o Prêmio Nobel da Paz – para cobrir a invasão Ele teria apoio da agência estatal de notícias, ainda não aocupada. A história do paradeiro dos cinco jornalistas foi usada para recrutar East em busca de informações sobre o que ocorrera.

East e José atravessam o país percorrendo a rota que o grupo de jornalista havia feito e buscando descobri pistas dos desaparecidos. Nesse momento, o trajeto é perigoso porque está dominado pelas tropas invasoras. A tensão é constante entre East e Horta, com uma desconfiança mútua. Horta alerta sobre os perigos de visitar Balibo, mas East torna conhecer a cidade uma exigência para trabalhar na agência de notícias estatal, em sua jornada para descobrir o paradeiro dos conterrâneos.

A tensão se transforma em agressão física, sob a insistência de East na busca pela justiça. Ao chegar em Balibo, comprova que os jornalistas foram executados, e depois tiveram seus cadáveres queimados junto de seus equipamentos. A tensão aumenta, da mesma maneira que a crise de East diante da constatação da violência com seus compatriotas.

Os dois voltam a Dill, pela floresta, onde se encontram como alvos dos indonésios. Ao chegar na cidade, descobrem sobre a invasão iminente à capital. Já reconciliados, Hortas oferece espaço a East em um vôo para fora do país, onde começaria seu exílio de 24 anos dedicados a denúncia dos abusos indonésios, mas East recusa.

Momentos após, um grande número de paraquedistas do país vizinho começa a descer pelo céu, dando início à conquista da capital, com um massacre generalizado. East afirma que é australiano, mas mesmo assim é algemado, arrastado e executado pelos soldados.

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Por último, a terceira linha do tempo, a única puramente ficcional, é a de Juliana, testemunha dos ataques e da morte de East em sua infância, quando trabalhava em um hotel em Dill. Sua história se passa através de um depoimento na contemporaneidade.

Na vida real, a ocupação durou até 1999, com pelo menos 183.000 mortos, fato lembrado no final do filme. Hortas se tornou presidente posteriormente.

Não mostrado no filme, outros dois jornalistas foram assassinados pelos militares durante a ocupação, em 1999. Sander Thoenes, holandês e Agus Muliawan, balinês. Desde a independência do Timor Leste, não houve mais casos.

O assassinato de jornalistas é uma violação gravíssima do direito de expressão e imprensa, garantido pela declaração internacional dos direitos humanos. A convenção de Genebra, legislação internacional que garante as regras para conflitos, também protege os jornalistas, garantindo seu status como civil, fazendo ataques e prisões contra esses profissionais crimes de guerra.

Segundo o Comitê para a Proteção dos Jornalistas, ONG internacional dedicada à proteção da classe, 49 profissionais foram mortos em 2015, por causas relacionadas ao trabalho. A maioria dessas mortes ocorreu na França, no atentado ao jornal Charlie Hebdo, e na Síria. No Brasil, desde 1992, 34 jornalistas foram assassinados, com casos de grande relevância, como o de Tim Lopes, repórter da Rede Globo executado durante uma reportagem sobre o tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Esses dados mostram que os profissionais ainda precisam lidar com perigos diários.

A direção do filme tem um aspecto documental, com trechos de depoimentos, ainda que ficcionais, e imagens que simulam gravações. Os fatos do roteiro foram baseados no livro “Cover-Up: The Inside Story of the Balibo Five” da jornalista Jill Joliffe, que atuou no Timor, e pesquisou o caso por 20 anos.

O suspense da película é intensificado através da fotografia, sempre contrastando os personagens com a força da natureza e a devastação dos cenários. Nas cenas de ação, a câmera age com cortes rápidos e movimentação acentuada. A trilha sonora é composta por músicas tradicionais Timorenses, que ajudam a definir o clima.

Recentemente, outras duas obras cinematográficas chamaram a atenção para os abusos cometidos pelo governo militar da Indonésia, “The Act of Killing”, vencedor do Oscar de melhor documentário e “The Look of Silence”, ambos do diretor Joshua Oppenheimer. Ambos exploram os massacres de 1965 e 1966, onde milhões foram mortos com a justificativa de serem comunistas.

“Balibo” levanta questões importantes sobre a proteção dos jornalistas e o não reconhecimento do conflito indonésio, ainda que a partir de um ponto de vista majoritariamente ocidental, próprio da mídia, que nas palavras do personagem East: “não se importa com 400 mil timorenses, mas manda cinco australianos brancos para a primeira página”.

 

Links sugeridos:

http://www.theaustralian.com.au/news/inquirer/balibos-grisly-truth/story-e6frg6z6-1225757583994

http://www.smh.com.au/news/entertainment/film/film-reviews/balibo/2009/08/13/1249756382624.html

 

Ficha Técnica: 

Nome: Balibo

Diretor: Robert Conolly

Ano: 2009

Roteiro: David Williamson

Elenco: Anthony LaPaglia, Oscar Isaac, Damon Gameau, Gyton Grantley, Nathan Philipps, Mark Winter, Thomas Wright.

Música: Lisa Gerrard

Fotografia: Tristan Milani

Edição: Nick Meyer

País: Austrália

Duração: 111 minutos

Idioma: Inglês

 

Trailer:

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